Greco-romana - CAOS

Em tempos antigos, tão antigos que deles não há memória, o caos - palavra a que se dá o  significado de confusão, de desordem - era o estado primitivo do mundo. Segundo teoria dos povos orientais de passado distante - que busca explicar a origem e a evolução do universo, ou dos corpos que gravitam no espaço -, esta palavra indica o estado original de mistura indistinta em que se encontrava o mundo antes que a matéria fosse organizada (segundo Confúcio, o mais conhecido dos mestres chineses, ela levou 18 mil anos para tomar forma). Para os egípcios, fenícios, persas e hindus, caos tem significações diversas, prendendo-se o seu sentido, contudo, à mesma idéia de confusão reinante desde o começo de tudo. Na Bíblia (Gênesis, 1 e 2), o caos predominava antes da origem (No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas).  

 

Para os gregos, Caos era a mais antiga das divindades, a primeira a surgir no universo, segundo o poeta grego Hesíodo (século 7 a.C.). Descrito inicialmente como o ar que preenchia o espaço entre o Éter e a Terra, ele passou mais tarde a ser visto como a mistura primordial de todos os elementos, sendo seu nome derivado de um verbo grego que inclui entre os seus significados, o de “espaço vazio primordial”. Mas sua natureza divina é de difícil entendimento devido às mudanças que a idéia de "caos" sofreu com o passar das épocas. Os filósofos e clássicos romanos acreditavam que ele seria eterno e de forma indefinível, indescritível, na qual se confundem os princípios de todos os seres particulares.

 

Caos era uma divindade rudimentar capaz, porém, de fecundar, gerando primeiro a Noite e depois Erebo, ou ainda, segundo outros autores, Gea, Tártaro e Eros. O poeta romano Ovídio (45 a,C – 17 d.c) foi o primeiro a atribuir a noção de desordem e confusão a essa divindade, que seria, para os gregos, o contrário de Eros (identificado como Cupido, pelos romanos). Tanto Caos como Eros são forças geradoras do universo, mas enquanto a energia do primeiro parece ser primitiva, grosseira, a do segundo transmite a idéia de ser mais aprimorada, mais esmerada. Caos significa algo como "corte", "rachadura", "cisão" ou ainda "separação", enquanto Eros é o princípio que produz a vida por meio da união dos elementos masculino e feminino.

 

Dessa forma os filhos de Caos nasceram de cisões, cortes, separações ou fissões, da mesma forma como se reproduzem os seres unicelulares (fissão binária é o nome dado ao processo de reprodução assexuada dos organismos unicelulares, que consiste na divisão de uma célula em duas). Conseqüentemente, Nyx (Noite) e Érebus (Escuridão) nasceram a partir de "pedaços" do Caos, como do mesmo modo os filhos de Nyx nasceram de "pedaços" seus; segundo afirma Hesíodo: sem a união sexual. Portanto a família de Caos se origina de forma assexuada.


Caos é então uma força antiga e obscura que manifesta a vida por meio da cisão dos elementos. Ele parece ser um deus andrógino, trazendo em si tanto o masculino como o feminino, característica comum a todos os deuses primogênitos de várias mitologias. É freqüente, devido à divulgação das idéias de Ovídio, considerar Caos como uma força sem forma ou aparência, o que não é, de todo, uma inverdade, já que na pré-história grega tanto Caos como Eros eram representados como forças sem forma. Porém, segundo o poeta romano Higino, Caos seria masculino e possuiria uma contraparte feminina chamada Calígena "a Névoa primordial".

 

Em Metamorfoses, obra em que o poeta Ovídio traçou a história lendária da humanidade desde a criação do mundo até a deificação de Júlio César, os primeiros versos dizem que:

 

“Antes do mar, da Terra e céu que os cobre, / Não tinha mais que um rosto a natureza: / Este era o Caos, massa indigesta, rude, / E consistente só num peso inerte. / Das coisas não bem juntas as discordes, priscas sementes pelo chão jaziam. / O Sol não dava claridade ao mundo, / nem crescendo outra vez se reparavam / as pontas de marfim da nova Lua.

 

Não pendias, ó Terra, dentre os ares, / Na gravidade tua equilibrada. / Nem pelas grandes margens Anfitrite / Os espumosos braços dilatava. / Ar, e pélago, e Terra estavam mistos, / as águas eram, pois, inavegáveis, / Os ares, negros, / e movediça a Terra. / Forma nenhuma em nenhum corpo havia. / E neles uma coisa a outra obstava, / Que em cada qual dos embriões enormes / Pugnavam frio, e quente, úmido, e seco, / mole, e duro, o que é leve, e o que é pesado,

 

Um Deus, outra mais alta natureza, / À contínua discórdia enfim põe termo. / A Terra extrai dos céus o mar da Terra, / E ao ar fluido e raro abstrai o espesso. / Depois que a mão divina arranca tudo / Do enredado montão e a desenvolve, / Em lugares diversos que lhe assina, / Liga com muita paz os corpos todos (...) / Assim, depois que Deus (qualquer que fosse) / O grão corpo dispôs, quis dividi-lo. / E membros lhe ordenou, para que a Terra / Não fosse desigual em parte alguma.

 

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