Novembro - AÇÃO DE GRAÇAS, Dia de - 4ª quinta-feira de novembro

O puritanismo - doutrina ou seita protestante que prega e pratica princípios morais rígidos e formas simples de adoração - teve influência decisiva na vida religiosa da Inglaterra e dos Estados Unidos, a partir do século 16. O movimento surgiu no seio da Igreja da Inglaterra durante o curto reinado (1553 a 1558) de Maria Tudor (ou Maria I), quando a referida soberana passou a perseguir os protestantes porque estes combatiam determinadas tradições mantidas pelos anglicanos, apesar de seu rompimento com o catolicismo.


Essa perseguição se tornou mais intensa no início do século 17, razão pela qual um certo número deles decidiu buscar maior segurança fora de seu país. Em 1609, muitos integrantes desse grupo religioso decidiram mudar-se para Holanda, e anos mais tarde, em 6 de setembro de 1620, cerca de 102 deles resolveram reconstruir suas vidas em outro continente, embarcando, para isso, em um navio chamado Mayflower, que os levaria ao outro lado do Atlântico. A travessia demorou 67 dias, ao fim dos quais os “peregrinos” - como posteriormente os emigrantes se tornaram conhecidos - chegaram às terras americanas. Uma réplica do Mayflower, baseada em pesquisas meticulosas, foi construída em 1956, e pode ser visitada perto de Plymouth Rock, Nova Inglaterra, Estados Unidos.

 

Sobre essa passagem, alguns relatos esclarecem que a embarcação ancorou em Cape Rod no dia 11 de novembro, mas ainda a bordo os 102 passageiros decidiram criar um plano de administração - que se tornou conhecido como The Mayflower Compact - antes de fundarem um assentamento no Novo Mundo. Depois, já em dezembro, os emigrantes ingleses instalaram oficialmente a cidade de Plymouth, o segundo povoamento britânico permanente nas Américas, e lá trataram de se adaptar às novas e duras condições de vida que precisavam enfrentrar. Eles sofreram muito no primeiro inverno passado na região, não só porque os alimentos que conseguiam através da caça eram insuficientes para satisfazê-los, mas também, e principalmente, em virtude das casas que levantavam serem extremamente precárias, e da pouca proteção que suas roupas ofereciam contra o frio intenso.

 

Em virtude disso, metade dos colonos morreu durante essa provação inicial, mas na primavera de 1621 os sobreviventes de Plymouth estabeleceram relações amistosas com os indígenas da região, que lhes ensinaram a cultivar e estocar soja e milho, e a usar a pele dos animais caçados como matéria-prima para confecção de roupas apropriadas ao inverno. Eles também construíram casas mais confortáveis e resistentes, e assim enfrentaram com sucesso o inverno de 1621/1622. Para celebrar o feito os peregrinos decidiram realizar um banquete para o qual foram convidados os nativos (ilustração), que também trouxeram comida, e essa confraternização, que segundo os historiadores aconteceu no mês de outubro, durou três dias.

 

Os colonos não chamaram aquela primeira festa de Ação de Graças. Isso só aconteceu dois anos depois, quando as chuvas chegaram após um longo período de seca. Nesse dia eles criaram uma festa anual que atualmente constitui a Semana de Ação de Graças, provavelmente inspirados em comemorações que outros povos realizavam com esse mesmo objetivo: a dos gregos antigos, que celebravam anualmente a deusa Deméter (Ceres, para os romanos, de cujo nome se originou a palavra cereal), durante três dias, na entrada do outono, é um exemplo, da mesma forma como a dos romanos, que homenageavam a mesma divindade com música, desfiles, jogos esportivos; os chineses de antes da era cristã realizavam a festa da colheita, mesmo procedimento dos judeus com a sua Sukkoth, celebrada há 3.000 anos; no tempo dos faraós, os egípcios também participavam de festejos que reverenciavam o deus da vegetação e da fertilidade, agradecendo a colheita farta que conseguiam.

 

Segundo os registros, esse costume se espalhou rapidamente pela Nova Inglaterra, incorporando-se paulatinamente às tradições do povo americano. Em 1817, o estado de Nova York adotou oficialmente um Dia de Ação de Graças anual, o mesmo fazendo, em seguida, alguns outros estados. Em 1863, o presidente Abraham Lincoln proclamou a comemoração como feriado nacional, determinando que o último dia de novembro seria a ela dedicado. Essa data foi modificada em 1939 pelo presidente Franklin D. Roosevelt, e novamente alterada pelo mesmo mandatário em 1941, quando então se fixou a quarta quinta-feira de novembro como dia dedicado aos agradecimentos pela boa sorte com que as pessoas são agraciadas.

 

No Brasil, o presidente (1946/1951) Eurico Gaspar Dutra instituiu o Dia Nacional de Ação de Graças em 1949, por sugestão do embaixador Joaquim Nabuco, decretando que a quarta quinta-feira do mês de novembro fosse a ele dedicado. Muito embora esse costume não tenha sido adotado pela grande maioria dos brasileiros, ele é respeitado por muitas famílias de origem americana que residem no Brasil, assim como também por igrejas, universidades metodistas e cursos de inglês.

 

Como curiosidade sobre o Dia de Ação de Graças vale registrar que o seu maior símbolo é o peru, ave que em estado selvagem era facilmente encontrada na região da Nova Inglaterra quando os puritanos ingleses ali chegaram. Hoje, mais de 90% dos americanos consomem a sua carne nesse feriado. Depois do peru, o milho é o prato mais importante na mesa das famílias que comemoram a data, tradição que se mantém inalterada provavelmente porque os peregrinos não teriam sobrevivido se os nativos não lhes tivessem ensinado a cultivar esse grão.


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