Abril - SÃO JORGE - 23 DE ABRIL
Nos tempos de Deocleciano (245-313), imperador de Roma, a perseguição aos cristãos tornara-se intensa e impiedosa, e como o número dos que aceitavam os ensinamentos de Cristo era sempre crescente, o sanguinário soberano havia planejado matar todos eles, para garantir o seu poder.
Havia, nessa época, um comandante do exército romano chamado Jorge, que pela sua dedicação e muitas qualidades recebera o título de conde, e por isso, aos 23 anos de idade, passara a exercer altas funções. Membro de uma família cristã, Jorge desde cedo aprendera a temer a Deus e a acreditar em Jesus como seu salvador. Nascido na Capadócia, hoje Turquia, ele tinha se mudado para Roma após a morte do pai, iniciando a carreira militar tão logo alcançara a idade adequada.
Conta uma lenda que no dia em que o decreto da matança estava sendo confirmado no senado, Jorge levantou-se em meio à multidão e confessou seu espanto com a decisão, afirmando que os ídolos adorados nos templos pagãos eram falsos deuses. Indagado por um dos senadores sobre a razão da ousadia, respondeu que ela era a “verdade”, e ao lhe pedirem para explicar que verdade era aquela, ele disse: “A verdade é o meu senhor Jesus Cristo, a quem vós perseguis. Eu sou servo do Jesus Cristo, meu redentor, e nele confiando me pus no meio de vós para dar o meu testemunho da verdade”.
Imediatamente preso, tentaram fazê-lo renegar a fé que sentia aplicando-lhe vários tipos de tortura, mas ao final de cada uma, quando perguntavam se adoraria os deuses romanos, ele voltava a declarar: “Não! Eu sou servo de um Deus vivo, e somente a Ele eu temerei e adorarei”. Finalmente, como não conseguiam convencê-lo a mudar de fé, o imperador ordenou que o degolassem, o que foi feito em 23 de abril de 303. Os restos mortais de São Jorge foram transportados para Lida (antiga Dióspolis), e lá sepultados.
Depois disso a devoção a São Jorge tornou-se popular rapidamente, principalmente no Oriente, onde seu culto se difundiu de forma extraordinária. Durante o tempo das Cruzadas ele também acabou tendo grande penetração no Ocidente, tanto que se tornou padroeiro de países como Portugal, Inglaterra, Lituânia e Geórgia, além de inúmeras outras cidades e regiões. Sua imagem mais conhecida é aquela em que aparece montado um cavalo branco, vencendo um grande dragão, o que simboliza suas grandes vitórias contra Satanás.
A origem dessa forma de devoção tem pelo menos duas explicações: uma conta que numa cidade da Líbia, Jorge soube que lá existia um dragão cujo hálito venenoso matava qualquer um, e que sua pele não podia ser perfurada por lança ou espada. Disseram-lhe, também, que todos os dias a fera exigia o sacrifício de uma donzela, só restando, no lugar, a filha do rei, de nome Sabra, que seria sacrificada no dia seguinte, ou dada em casamento a quem matasse o dragão. Jorge decidiu salvar a princesa, e assim, quando o dia amanheceu, ele dirigiu-se ao vale do monstro, chegando ao local no momento em que um cortejo de mulheres levava a moça para o lugar do sacrifício. O guerreiro convenceu a princesa a voltar para casa, mas tão logo isso aconteceu o dragão saiu de sua caverna e investiu contra o seu desafiante, mas Jorge o matou com uma lançada na garganta. Mas o rei não queria ver sua filha casada com um cristão e por isso ordenou que seus homens o matassem, mas Jorge livrou-se do perigo, levou Sabra para a Inglaterra, onde os dois se casaram.
Na outra versão, Jorge havia acampado com forças romanas nas proximidades de Salone, na Líbia, lugar em que o povo vivia aterrorizado por um dragão devorador de pessoas. Estas haviam buscado refúgio por trás das muralhas da cidade, de onde ninguém podia entrar ou sair porque o monstro logo as atacava. O hálito da criatura era tão venenoso que matava qualquer um que o respirasse, e para mantê-la longe da localidade seus moradores ofereciam-lhe uma ovelha a cada dia. Porém, como não existia mais nenhum desses animais, as crianças já estavam sendo sacrificadas.
Jorge chegou ao lugar justamente no dia em que a má sorte caíra sobre Sabra, a filha do rei, uma menina de quatorze anos. Vestida como se estivesse indo para o seu próprio casamento, ela já havia deixado a muralha e quedara-se à espera da criatura maligna, mas o cavaleiro decidiu resgatá-la. Chegando ao local e defrontando-se com a fera, ele logo a atingiu com sua lança, mas esta se quebrou no impacto com a pele invulnerável do animal. Desequilibrado, Jorge caiu do cavalo, mas rolando o corpo até uma árvore, ali se recompôs. O dragão investiu contra ele novamente, mas aí o cavaleiro o feriu mortalmente com a espada, na junção da asa com corpo, lugar desprotegido de escamas, e aí a besta caiu a seus pés. O guerreiro então lhe cortou a cabeça e a levou até a cidade, cujos moradores, a partir desse episódio, se tornaram cristãos.
Nessas lendas o dragão simbolizaria a idolatria destruída com as armas da fé, enquanto a donzela representaria a província da qual o santo extirpara as heresias. Já a relação entre ele e a lua viria de uma lenda antiga que se tornou crença de muitos. Segundo a tradição, as manchas da lua representam o santo pronto para defender com a lança e a espada aqueles que buscam sua ajuda.
Em muitas casas e lojas comerciais a imagem de São Jorge aparece em quadros ou estátuas, mas apesar de ser tão querido e respeitado ele é um dos 200 santos cassados pelo papa Paulo VI em 1969, no Concílio do Vaticano II. A polêmica decisão só considera santo aquele cuja existência tenha comprovação, ou que não seja acompanhado por lendas estranhas (no caso de São Jorge, o dragão), e assim, por um ou outro motivo, entre os 200 cassados estão Santa Bárbara, São Cristóvão, São Lázaro e Santo Expedito.





