I a M - JANGADEIRO, O - Pescador destemido
A jangada é um dos elementos típicos do litoral nordestino brasileiro. Construída com cinco ou seis troncos de madeira leve, ligados por peças transversais da mesma madeira, mede geralmente sete metros de comprimento por dois de largura. Embora essas primitivas embarcações se destinem à pesca próximo ao litoral, e requeiram grande destreza e coragem da tripulação, o nordestino aventura-se nelas até mesmo em alto mar, percorrendo assim grandes distâncias.
Quando os portugueses chegaram ao Brasil viram que os indígenas também usavam um tipo de balsa a que davam o nome de igapeba, ou piperi, feita com paus roliços amarrados com cipó, muito semelhante às jangas que eles haviam conhecido na Índia. Passaram, então, a chamá-las de xanga, cujo aumentativo acabou dando em jangada.
Ela pode ter tamanhos diferentes. Nas pequenas trabalham o mestre e o ajudante, enquanto as maiores têm tripulação de quatro homens: mestre, proeiro, rebique e bico de proa. Mestre é o que comanda a embarcação, colocando-se geralmente entre o banco de governo e os espeques (três paus presos diante do banco e atravessados por um outro, a “travessa”. É o depósito da jangada. O terceiro pau, mais saliente, é chamado de “forquilha”). O proeiro é o que fica próximo ao samburá (cesto de boca apertada onde se guarda o peixe), sustenta a corda da jangada, molha a vela, quando vai de terra para o alto-mar. Rebique é o pescador que está colocado na parte mais anterior da jangada, e o bico de proa aquela aquele que fica atrás do rebique, na bolina; molha a vela quando a jangada vem do mar para a terra. As embarcações são rudimentares, mas versáteis, navegando em qualquer direção, e é assim que os pescadores procuram os cardumes, fogem das tempestades, saem do caminho dos navios e retornam para casa. A profissão de jangadeiro é cansativa e perigosa, capaz de matar quem se aventura em águas profundas, mas também transformar em heróis os que aprendem a dominar as ondas.
Descrevendo o jangadeiro e sua embarcação característica, o folclorista Joaquim Ribeiro, em seu livro “Os Brasileiros”, explica que “Por se apresentarem de forma mais típica e original, os jangadeiros do norte têm sido mais celebrados que qualquer outro agrupamento de pescadores. São eles homens simples, que mesmo praticando o heroísmo cotidiano de enfrentar mares bravios, desconhecem a jactância ou a fanfarronada. Não usam embarcações de bom calado nem se valem dos recursos modernos da arte de navegar. São, além do mais, os seus meios os mais rústicos e rudimentares, pois jangada pode ser considerada um fóssil de embarcação. Esse curioso instrumento de flutuação é fabricado por eles mesmos, que em uma de suas histórias místicas atribuem sua invenção a São Pedro, o pescador”.
“A jangada é o produto cultural mais típico da vida dos praieiros nordestinos. e constitui um verdadeiro símbolo da civilização material do nosso litoral nortenho Compõe-se, regularmente, de seis paus de piúba, podendo, às vezes, ser composto de cinco se o do meio for assas grosso. Os dois paus do centro chamam-se meios, os dois imediatos bordos, e os dois últimos memburas. . Os acessórios da jangada, de popa a proa, possuem terminologia pitoresca, como “banco de vela” (serve para sustentar o mastro grande e a vela); “carlinga” (tabuleta com furos embaixo do banco da vela, em que se prende o pé do mastro, mudando-se de um para outro conforme a conveniência da ocasião); “ligeira” (corda presa à ponta do mastro e nos espeques, para segurar aquele); “bicheira” (grande anzol preso num cacete, com que se puxa o peixe pescado para cima da jangada, a fim de não quebrar a linha); “araçanga” (cacete com que se mata o peixe pescado); “ipu” (arame com que é presa a linha ao anzol, para o peixe não cortá-la), e outros mais".
Embora seja considerada a mais antiga das embarcações, a jangada conserva até hoje as mesmas características e finalidade primitivas. Apesar de já terem sido contadas aos milhares, as tradicionais, feitas de pau roliço, mas de curta duração, estão reduzidas agora a algumas poucas dezenas, substituídas que foram pelas de tábua, de construção mais cara, porém mais duráveis. Apesar disso, os jangadeiros tentam manter os processos de navegação e pesca que herdaram dos seus antepassados, e que sonham agora legar às gerações futuras. Deles, diz o poeta cearense Adriano Espínola, professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Ceará: “Jangadas amarelas, azuis, brancas, / logo invadem o verde mar bravio, / o mesmo que Iracema, em arrepio, / sentiu banhar de sonho as suas ancas. / Que importa a lenda, ao longe, na história, / se elas cruzam ligeiras, nesse instante, / o horizonte esticado da memória, / tornando o que se vê mito incessante? / As velas vão e voltam, incontidas, / sobre as ondas (do tempo). O jangadeiro / repete antigos gestos de outras vidas / feitas de sal e sonho verdadeiro. / Qual Ulisses, buscando, repentino, / a sua ilha, o seu rosto e o seu destino”.
A história guardou o nome de alguns jangadeiros que se tornaram famosos. Como o do cearense Francisco José do Nascimento, ou Chico da Matilde, que em 1884, após recusar-se a transportar escravos dos navios negreiros para terra firme, navegou de sua praia ao Rio de Janeiro, ganhando por isso o apelido de Dragão do Mar. Ou de outro cearense, Manuel Olimpio Meira, o Jacaré, que com três companheiros, Jerônimo André de Souza (Mestre Jerônimo), Raimundo Corrêa Lima (Tatá) e Manoel Pereira Silva (Manoel Preto), repetiu o feito em 1941, a fim de reivindicar junto ao governo Getúlio Vargas melhores condições para a comunidade de pescadores da sua terra. Eles se tornaram célebres, a ponto de Orson Welles, diretor e ator norte-americano, ter vindo ao Brasil para filmar episódios do longa-metragem “It’s all true””, mostrando a aventura do quarteto. Infelizmente, durante a filmagem das cenas que reconstituíam a chegada dos jangadeiros à baía da Guanabara, a lancha que rebocava a jangada São Pedro colidiu com ela, jogando seus ocupantes ao mar. Três deles se salvaram, mas Jacaré afundou e seu corpo jamais foi encontrado.
Em 22/10/2008. o Instituto Chico Mendes elaborou o projeto Barcos do Brasil, que visa resgatar a tradição da construção e uso de barcos artesanais no país, estando incluído no mesmo a retomada da antiga técnica de construção das jangadas feitas com troncos de piúba, árvore preservada em uma reserva extrativista da Bahia. Falta, agora, fazer com que a idéia saia do papel e se transforme em realidade.






Boa tarde. \r\n\r\n Após ter efetuado um passeio inesquecível de jangada pelos mares do Ceará, fiquei matutando quanto a utilidade, de se molhar com uma certa constância, a vela da embarcação. Gostaria que me fosse explicada a necessidade de tal procedi- mento. Atenciosamente.