Mundo Misterioso - EL MIRADOR
A Guatemala é um país da América Central, limitado a oeste e norte pelo México; a leste, pelo Belize, oceano Atlântico e Honduras; e ao sul por El Salvador e oceano Pacífico. Dois terços de seu território, aproximadamente, são montanhosos e em parte vulcânicos, e as baixas terras litorâneas cobertas por rica floresta. Antes de ser descoberta pelos europeus, era habitada pelos índios quichés (aparentados com os maias do Iucatã, no México), que ali deixaram lindas construções, como pirâmides, palácios, templos, colunas, torres, fortalezas, pontes e esculturas.
Os quichés desenvolveram uma adiantada civilização nos territórios localizados no Iucatã (ou Yucatan, em castelhano), uma grande península que adentra o oceano Atlântico no extremo sudeste do território mexicano, e que foi o berço de grandes civilizações pré-colombianas*. Em 1523/24, Pedro de Alvarado, um dos oficiais de Fernando Cortês, iniciou a conquista da região travando violentos combates com os índios que ofereciam feroz resistência, tanto que somente em 1697, em uma ilha do lago Petén, os últimos maias foram finalmente submetidos.
O império maia (que dominou a região de 1.000 antes de Cristo a 1672 depois de Cristo) se estendia por uma área de 325.000 quilômetros quadrados (abrangendo alguns dos atuais estados mexicanos, a maior parte da Guatemala e Honduras). Embora seu povo não tivesse o desenvolvimento urbano dos egípcios ou astecas, pois a população de suas maiores cidades não ia além dos 200.000 habitantes, nem tampouco dominado plenamente o uso dos metais, os maias construíram uma civilização comparável à do Egito e Mesopotâmia. Dessa antiga civilização restam hoje as ruínas de algumas dezenas de cidades perdidas na vegetação tropical (das quais apenas 18 foram estudadas), e uma delas é a de El Mirador, um sítio arqueológico muito extenso localizado ao norte do departamento de El Petén, na Guatemala.
Descoberta em 1926, e fotografada de um avião em 1930, a antiga cidade maia ainda permaneceu escondida pela floresta durante muito tempo, até que em 1962 alguns pesquisadores visitaram o local e elaboraram um mapa do que haviam encontrado. Dezesseis anos depois, em 1978, arqueólogos de duas universidades americanas iniciaram um estudo detalhado das ruínas, constatando que muitas das construções ali existentes haviam sido erguidas em período anterior ao surgimento das grandes cidades maias como Tikal, por exemplo, um dos maiores centros populacionais e culturais da civilização inca, com construção iniciada no século 4 antes de Cristo e abandonada no século 10 da era cristã.
Com o prosseguimento das investigações os arqueólogos concluíram que a cidade de El Mirador desenvolveu-se a partir do século 6 antes de Cristo, atingindo seu apogeu entre os séculos 3 antes de Cristo e 1 depois de Cristo, quando a população que ali se abrigava talvez tenha chegado ao pico de 100 mil pessoas, a julgar pelo tamanho e extensão da força de trabalho necessária para o levantamento das construções maciças que lá foram feitas. Estendendo-se por uma área de 26 km2, a cidade de El Mirador possui algumas dezenas de estruturas, entre elas 35 grandes plataformas de altura reduzida, sobre as quais erguem-se pirâmides em forma de escadaria. Desses complexos, os mais notáveis são os de El Tigre, La Danta (o templo) e Los Monos. No primeiro, a pirâmide mais alta chega a 55 metros, enquanto no segundo a de maior altura (72 metros) é também uma das maiores do mundo, se incluída a grande base (18.000m2) em que se assenta o monumento; quanto ao Los Monos, um pouco menor que as outras, alcança 48 metros.
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Para erguer as paredes laterais da grande maioria das estruturas, os maias usavam blocos de pedra retangulares revestidas com pinturas e esculturas representando as divindades da sua mitologia. Os arqueólogos sugerem que os grupos arquitetônicos dos quase trinta sítios já descobertos na região do Mirador, como templos principais e monumentos esculpidos, alinhavam-se com a trajetória do Sol e da Lua, o que, na opinião dos mesmos, “reflete a importância do planejamento urbano e dos espaços sagrados desde a chegada dos primeiros povoadores de El Mirador”. Um dos diretores do atual projeto de exploração arqueológica da bacia do Mirador acredita que essa região “dá à Guatemala o direito de intitular-se o berço da civilização maia”.
Alguns historiadores estimam que a construção de El Mirador tenha se iniciado por volta do século 8 antes de Cristo. A cidade cresceu durante centenas de anos, tornou-se importante na sua época, mas foi repentinamente abandonada pela população em 150 antes de Cristo, sem que até hoje se encontre uma explicação plausível para essa debandada em massa. Nos anos 700 da nossa era, ou seja, centenas de anos depois de El Mirador ter sido deixada para trás por seus antigos moradores, os maias retornaram ao local e por lá ficaram durante um período histórico relativamente breve, já que por volta do ano 900 a área tornou-se deserta mais uma vez, inexplicavelmente, e assim permanece até os dias de hoje. Além das pequenas construções feitas pelos novos moradores entre as ruínas do grande centro abandonado, a maior estrutura erguida nesse período de tempo foi uma muralha que supostamente teria até oito metros de altura, como proteção para os lados norte, leste e sul da parte oeste da cidade, o que permite a dedução de que uma possível ameaça havia sido percebida pelos moradores.
Embora contenha exemplos marcantes da civilização maia pré-clássica, a remota localização de El Mirante, e a dificuldade de se chegar a ela, tem impedido que a cidade se transforme em um ponto turístico popular. Apesar disso, a pergunta que intriga a todos continua sem resposta adequada: o que será que aconteceu de tão importante em El Mirador, a ponto de provocar o êxodo da população em duas épocas distintas de sua história, separadas por um intervalo de 200 anos?
* Pré-colombiano é o período da história ocorrido antes do descobrimento da América pelo navegador genovês Cristóvão Colombo. O evento da descoberta, entretanto, não é o marco fixo delimitador deste período, já que vastas extensões de terra e muitas populações só vieram a ser atingidas posteriormente. Assim, a expressão "período pré-colombiano" designa a história ou o estado cultural dos habitantes das Américas, antes de seu encontro com os europeus.





