Ideologia - ANARQUISMO
Na linguagem popular, a palavra anarquia expressa desordem, caos. Na verdade, ela deriva do grego e significa algo como ausência de autoridade, governo ou coerção, mas não necessariamente desorganização. A utilização desvirtuada da palavra nasce da suposição de que uma sociedade sem Estado, governo ou autoridade, seria, inevitavelmente, desordenada.
As idéias anarquistas possuem uma longa história e sempre se dividiram em duas correntes: o anarquismo individualista e o anarquismo socialista. Para a tendência individualista, o supremo valor da vida consiste na liberdade individual. O homem deve defender-se como puder das imposições e coações do Estado, Igreja, instituições e, se for o caso, de outros indivíduos ou grupos que limitam sua liberdade. A corrente socialista do anarquismo defende a liberdade para todos, de onde a denominação de libertários. O homem deve libertar-se da máquina opressiva do Estado e organizar uma sociedade na qual as relações com seus semelhantes sejam igualitárias, fraternais e livres – isto é, destituídas de coerção. No século 20, o anarquismo tornou-se força expressiva no movimento socialista e operário, dividindo-se em duas alas: reformista e revolucionária.
O desenvolvimento sistemático dessas idéias foi feito por William Godwin, em seu livro Justiça Política (1793). Ele acreditava que a humanidade reconheceria aos poucos a necessidade de liquidar a coação nas relações sociais, o que tornaria obsoleta a tirania do Estado e permitiria à sociedade atingir uma forma de equilíbrio natural, mantendo, porém, o progresso técnico. Isto seria obtido por uma distribuição mais justa de salários e propriedades, e pelo contínuo aperfeiçoamento moral dos homens. Assim, a eliminação do governo, tornado inútil, seria gradual e consciente, e não uma revolução política.
No século 19, Pierre Joseph Proudhon, cuja obra teve forte influência no movimento socialista europeu, defendia idéias semelhantes a esta. Segundo ele, os trabalhadores deveriam organizar um intercâmbio direto entre os produtores, o que tornaria inútil o governo e os capitalistas. Ao contrário dos outros socialistas reformistas, que procuravam eleger deputados e representantes junto ao governo para votar leis em defesa dos trabalhadores, afirmavam os anarquistas que a simples participação na máquina do Estado tendia a perpetuá-lo, e por isso propunham aos reformadores absterem-se da política e trabalharem apenas na organização de sociedades civis (assistenciais, educativas, sindicatos). A dissolução da autoridade ocorreria por si, pela própria evolução das coisas.
Contemporaneamente a essa tendência, o anarquismo revolucionário crescia sustentando a tese de que qualquer transformação gradual e pacífica em direção a uma sociedade anárquica era impossível porque os governos lutariam até o fim contra ela, esmagando sempre qualquer ameaça aos seus privilégios. Por isso, a destruição da máquina do Estado, da Igreja e outras instituições, exigiria o emprego de meios revolucionários. Concordavam nisso com outra tendência revolucionária do socialismo – o marxismo. Mas discordavam num ponto básico: a revolução não deveria ser feita para nacionalizar os meios de produção, nem para criar um novo Estado, mesmo um Estado dirigido por trabalhadores, mas sim para acabar com qualquer Estado e para socializar desde o início os meios de produção. Fábricas e terras deviam pertencer a quem nelas trabalhasse, ficando a cargo dessas unidades de produção determinar o que seria produzido, como seria trocado, etc. Entre as várias unidades produtivas, e entre fábricas e campo, se estabeleceriam fluxos livres de troca, sem qualquer necessidade de coerção.
Uma onda de revolução varreu a Europa em 1848. Na Rússia, destacou-se um jovem oficial de cavalaria que se tornaria o principal chefe anarquista europeu, Mikhail Alexandrovich Bakunin ((1814-1876), que imbuído da experiência adquirida nessa época, passou o resto da sua vida organizando sociedades secretas com a finalidade de produzir levantes onde fosse possível. Admirador de Marx, foi, contudo, seu principal inimigo na Associação Internacional dos Trabalhadores, depois conhecida como Primeira Internacional.
Os anarquistas dispunham de maior influência na Espanha, Itália e França. Após a derrota da Comuna de Paris (1871) – em que os anarquistas exerceram papel importante - a Primeira Internacional, vendo-se perseguida por todo o continente, emigrou para os Estados Unidos e acabou se dissolvendo. No período de refluxo que se seguiu a essa derrota, nasceu uma tendência extremada do movimento. Enquanto os anarco-sindicalistas defendiam a necessidade de se manterem nos sindicatos, apesar das perseguições, entraram em ação vingadores terroristas. Até a Guerra de 1914 (e na Espanha até os anos 30), estes defenderam a teoria da propaganda pelo ato, mote cunhado por Sergei Netchaiev (1847-1922), um discípulo de Bakunin. Com a morte deste, Netchaiev tornou-se - ao lado do russo Pyotr Alexeyevich Kropotkin (1842-1921) e o italiano Errico Malatesta (1853-1932) – o teórico máximo do terrorismo e das sociedades supersecretas e centralizadas. Vários governantes, entre os quais o presidente da França, Sadi Carnot (1837-1894), ministros de polícia, como o russo Stopilin, ou simplesmente burgueses que jantavam em restaurantes, tombaram sob as balas, punhais e bombas dos vingadores. Essa tendência, nascida do desespero, recrutava muitos de seus elementos entre os marginalizados sociais, enquanto outros eram idealistas puros que aceitavam sacrificar-se por uma exigência moral.
Na revolução russa de 1917, os anarquistas tiveram pequena importância inicial, mas logo cresceram, especialmente entre os camponeses. Formou-se na Ucrânia o exército verde de Machno, que de início aliou-se ao exército vermelho (bolchevistas), contra os brancos (contra-revolucionários). Nos anos seguintes, os anarquistas opuseram-se ao crescente autoritarismo que os bolchevistas estavam impondo à nova sociedade, até que os verdes foram esmagados pelos vermelhos.
O último lugar onde o anarquismo manteve influência sobre as massas foi na Espanha. Em 1919, a CNT - Confederação Nacional do Trabalho, espanhola, dirigida por anarco-sindicalistas, aderira à Internacional Comunista de Moscou. Em 1922, separou-se dela. Em junho de 1936, com a explosão da guerra civil, os anarquistas voltaram a aliar-se aos comunistas, agora dirigidos por Stalin, contra os fascistas. E, contra seus princípios, participavam do governo da Frente Popular. Em março de 1938, os trabalhadores anarquistas da CNT insurgiram-se contra o governo do qual participavam seus próprios líderes, alegando que ele traía a revolução, mas foram derrotados. A esse levante seguiu-se uma violenta repressão que liquidou boa parte da liderança desses sindicatos.
No levante de maio de 1968, na França, entre os estudantes, ressurgiu a bandeira negra dos anarquistas com o Movimento 22 de Maio. Na Alemanha, Oposição Extra-Parlamentar, também estudantil. Um renascimento contemporâneo do anarquismo individualista se deu com o movimento hippie, no qual se misturam também elementos de socialismo utópico.
Fonte: Enciclopédia Abril





