Mundo Misterioso - FAUSTO, SUA ALMA E O DIABO
Algumas enciclopédias esclarecem que um certo doutor Johannes Georg Faust, nascido em 1480, provavelmente em Knittlingen, região de Württemberg, Alemanha, teria concluído um pacto com o demônio, vendendo-lhe a alma em troca de 24 anos de juventude, amor, prazeres e poder sobrenatural. Ora apresentado como médico, mágico e alquimista, ora como homem erudito, astrólogo e adivinho, outras vezes como um viajante charlatão que se aproveitou da credulidade e da superstição de pessoas ignorantes, ou ainda como ex-estudante de teologia, o certo é que, segundo a lenda, esse Faust, ou Fausto, em português, deixou-se dominar pela ambição de ter todas as coisas que desejasse, e por isso tratou com o diabo que lhe entregaria a alma em troca de poder, riqueza e conhecimento. Daí em diante, os que acompanharam a vida desse cidadão passaram a ver na sua habilidade em ganhar dinheiro, nas suas ligações com a magia negra, sodomia e adivinhações, e também na sua morte repentina e violenta, a confirmação de que tudo aquilo era fruto do pacto que ele firmara com o dono do inferno.
Na verdade, a lenda de Fausto não foi a primeira a abordar a crença de que alguns homens e Satanás vez ou outra entram em acordo quanto à troca da alma do interessado pelo que de poder e fortuna o demo poderá ofertar-lhe durante determinado tempo de sua existência humana. E bem que o dono do inferno procura gente disposta a ouvi-lo. A própria Bíblia, no Novo Testamento, contém um trecho (São Mateus, 4.8) relatando que o diabo, pretendendo tentar Jesus Cristo, levou-o a um monte muito alto, e de lá, mostrando-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, disse-lhe: “Dar-te-ei tudo isto se, prostrando-te diante de mim, me adorares”. Ao que Jesus, recusando, respondeu: “Para trás, Satanás, pois está escrito: adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás”.
Desde o advento do cristianismo, muitos relatos sobre possíveis “acordos” desse tipo se tornaram conhecidos, mas foi a história de Fausto, também descrito popularmente com um homem obscuro, ambicioso e de má reputação, contemporâneo de gente famosa como Nostradamus. Paracelso e Martinho Lutero, que acabou se consolidando como a mais famosa e influente lenda de todos os tempos, apesar de surgida numa época em que a sociedade era impregnada pela religião, e conseqüentemente, traumatizada pelo medo do novo. Mas mesmo assim acabou gerando contos em todos os níveis sociais, desde narrativas simples e canções folclóricas, até os mais sofisticados trabalhos de poetas, dramaturgos, filósofos e compositores.
Sua primeira versão escrita foi apresentada por Johann Spiess, um livreiro e escritor de Frankfurt, Alemanha, que em um Volksbuch (livro do povo, ou novela popular) impresso em 1587, contou a história de Fausto, revelando como ele se vendera ao diabo, o prazo estipulado, as extraordinárias aventuras vividas pelo mesmo a partir de então, a magia que praticara, e até mesmo sua morte e danação. Apesar de avaliado por críticos e estudiosos como mera doutrinação luterana, esse lançamento popularizou a lenda, ensejando que dois anos depois “A História Trágica do Doutor Faustus”, versão teatral escrita por Christopher Marlowe (1563-1593), tornasse ainda mais forte essa popularização, de tal forma que ela logo se transformou em peças de teatro, poesias e romances, como a peça “El Mágico Prodigioso (1637)”, por exemplo, do dramaturgo e poeta espanhol Pedro Calderon de la Barca (1600-1681).
Depois delas diversas obras literárias e musicais deram consistência e grande desenvolvimento ao mito de Fausto. Quase dois séculos depois, em 1760, Gotthold Ephraïm Lessing (1729 - 1781), um dos maiores escritores alemães do século 18, percebendo em Fausto o símbolo da busca heróica do homem pelo conhecimento e poder, criou uma nova versão dramática para a história, personificando nele o heroísmo do intelecto humano, capaz de por si mesmo triunfar sobre o mal, no caso o diabo. Em 1846 foi a vez do musical “La Damnation de Faust”, de Louis Hector Berlioz (1803-1869), e também da ópera “Faust” (1859), de Charles Gounod (1818-1893), além de outras mais.
A interpretação de Lessing sobre à lenda de Fausto provocou a resposta do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), que ao longo de 50 anos criou um poema épico denominado Fausto, em duas partes (a primeira publicada em 1789, e a segunda após a sua morte) no qual explorou a necessária coexistência do bem e do mal, e cujos versos iniciais (prólogo do autor) são os seguintes Tornai-me a aparecer, entes imaginários, / que me enchíeis outrora os olhos visionários! / Poder-vos-ei fixar?... Tenho inda coração / capaz de se render à vossa sedução? / ...Chegam... que densa turba! Envolve-me... Não posso / furtar-me ao seu triunfo. Eis-me, Visões, sou vosso.
Em 1868, o compositor italiano Arrigo Boito (1842-1918) estreou no Teatro Scala, de Milão, sua ópera Mefistóteles, uma adaptação da composição de Goethe, na qual estendia sua própria investigação da natureza do bem e do mal concentrando-se na figura de um demônio brilhante, irritável e cruel, ao invés do eternamente indagador Fausto. Mas as violentas reações do exigente público milanês, provocadoras de distúrbios nacionalistas nas ruas, determinaram a interrupção das apresentações. Após tais incidentes, Boito realizou inúmeros cortes e revisões na ópera, e quando a nova versão finalmente foi apresentada no Teatro Comunal de Bolonha, em 1876, alcançou grande êxito, passando a integrar o repertório de óperas clássicas. Foi no papel de Fausto que o famoso tenor italiano Beniamino Gigli se tornou célebre.
Quando Johannes Georg Faust morreu, em 1540, muitos juraram que ele se fora porque o diabo tinha vindo buscá-lo, conforme ficara acertado entre ambos. Mas apesar do desaparecimento, seu mito jamais se esgotou, de modo que diversos artistas contemporâneos continuaram valendo-se do personagem como fonte inspiradora. O poeta português Fernando Pessoa (1888-1936), com o “Primeiro Fausto” de sua “Tragédia Subjectiva”, obra inacabada, é um deles, ao lado de Thomaz Mann (1875-1956), romancista alemão, com seu “Doktor Faustus”, editado em 1947.





