Baías e enseadas - BAÍA DE TODOS OS SANTOS - BAHIA
Gaspar de Lemos, comandante de um dos navios da frota com que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, havia retornado a Portugal com a missão de levar ao seu rei a carta onde Pero Vaz Caminha lhe dava notícia do achado da nova terra. Mas zarpou de volta no ano seguinte, em 10 de maio de 1501, para uma viagem de exploração, tendo como companheiro o cartógrafo Américo Vespúcio. Meses depois, percorrendo o litoral desconhecido, ele penetrou em um porto abrigado no dia 1º de novembro, consagrado a Todos os Santos na religião católica, onde ancorou sua embarcação. E ali, então, obedecendo à recomendação real, deu ao lugar o nome de Baía de Todos os Santos, que vem sendo usada até hoje.
Mais tarde, em 1503, Vespúcio integrava a expedição de Gonçalo Coelho quando ali esteve novamente, oportunidade em que fez o seguinte registro:
"Resta-me dizer as coisas que vi na quarta viagem ou jornada, e tanto por estar cansado como porque ela se não se fez como levava na tenção, por causa de uma desgraça que nos sucedeu no golfão do mar Atlântico [o naufrágio da Capitânia de Gonçalo Coelho na ilha de Fernando de Noronha, a 10 de agosto de 1503], como Vossa Magnificência não tardará em ver, cuidarei de ser breve (...). Tendo concluído a nossa provisão [em Noronha], partimos com vento Sul e Sudoeste porque tínhamos Regimento do rei ordenando que o navio qualquer que fosse, que se perdesse da frota ou Capitânia, devia ir à terra da viagem passada [1501-1502] quando descobrimos nela um porto que pusemos o nome de Baía de Todos os Santos. E prouve a Deus dar-nos tão bom tempo que em dezessete dias tomamos aí terra, que distava da ilha bem umas 300 léguas. Não encontramos lá nem nosso capitão nem nenhuma outra nau da armada. Esperamos dois meses e quatro dias, e vendo que nada resolvíamos, decidimos a minha conserva e eu correr a costa (...)".
Com superfície de 1.052km2, a Baía de Todos os Santos é a maior do Brasil. Além de agregar duas pequenas baías em seu interior - Iguape e Aratu - tem 56 ilhas, dentre as quais a mais importante é a de Itaparica, apontada como a maior ilha marítima do Brasil. Mas além dela, a de Madre Deus, da Maré, dos Frades, do Medo, de Bom Jesus dos Passos e das Vacas podem ser destacadas. Quanto às demais, a da Maria Guarda, Cajaíba, Olho Amarelo, Carapitubas, Ponta Grossa, Coqueiros, Itapipuca, Grande, Madeira, Monte Cristo, Cal, São Gonçalo e Matarandiba, são algumas que devem ser lembradas porque fazem parte dos roteiros de viagem oferecidos pelas empresas locais que atuam nessa área. Além de suas ilhas e praias constituírem um convite permanente aos turistas, as águas que as cercam permitem a prática de diversos esportes náuticos, como o mergulho, que oferece aos praticantes a oportunidade de observar não apenas os recifes de corais e destroços de naus e galeões naufragados ao longo da colonização brasileira, mas também a grande variedade de vida marinha em cenários submarinos com visibilidade entre 10 e 20 metros.
Em 05/06/1999 o Decreto Estadual nº 7.595 criou na região uma Área de Proteção Ambiental (APA) com 800km2, abrangendo toda a área do Recôncavo, águas e ilhas da baía, na qual estão incluídos os municípios de Cachoeira, Candeias, Itaparica, Jaguaribe, Madre de Deus, Maragogipe, Salinas da Margarida, Salvador, Santo Amaro, São Francisco do Conde, Saubara, Simões Filho e Vera Cruz. O objetivo principal de tal medida, conforme especificado em suas diretrizes, é o de “assegurar a proteção de suas ilhas, ordenando as atividades sócio-econômicas presentes na área e preservando locais de grande significado ecológico e cultural”.
Levantamentos feitos comprovam que em mais de 60% do seu perímetro a baía é bordejada por exuberantes manguezais, principalmente nos estuários dos rios Paraguaçu, Subaé, Jaguaripe e Cobre, motivo pelo qual apresenta uma expressiva riqueza de flora e fauna, com inigualáveis paisagens de paredões rochosos e praias arenosas, restingas e os regionalmente chamados apicuns, definidos como terrenos de brejo na zona costeira, que correspondem, algumas vezes, às zonas marginais de lagunas costeiras que sofrem inundações produzidas pelas marés.
De acordo com divulgações feitas pelo Instituto do Meio Ambiente estadual baiano, a Baía de Todos os Santos possui clima quente e úmido, com chuvas bem distribuídas ao longo do ano. Apresenta temperaturas elevadas em todas as estações climáticas e baixa amplitude térmica. Tem grande importância histórica para o estado da Bahia, além de cultura ainda bem expressiva. Por estar ligada à região costeira, a baía apresenta grande incidência de aves marinhas, abrigando também uma rica fauna que tem como destaque a presença de muitos botos. Mariscos e peixes compõem a fauna dos manguezais, de papel importante na multiplicação e manutenção da biodiversidade marinha. Na restinga é possível encontrar uma grande variedade de répteis, como a cobra verde, por exemplo. Além deles, primatas remanescentes da Mata Atlântica que outrora cobria a região, são encontrados em número razoável, da mesma forma como os mamíferos e demais vertebrados. A unidade possui alguns conflitos ambientais, e deles a agressão mais freqüente é a pesca irregular com bomba: os criminosos jogam um desses artefatos na água, e com isso matam peixes grandes, pequenos e corais, proporcionando um desequilíbrio que altera toda a cadeia alimentar.
Em 1750 os portugueses construíram em Salvador, situada em sua margem direita, a Capela de Boa Viagem, que mais adiante daria origem ao maior evento de caráter religioso da Baía de Todos os Santos: a procissão marítima de Bom Jesus dos Navegantes, cortejo de barcos realizado todos os anos entre os dias 31 de dezembro e 01 de janeiro. Na tarde do primeiro dia a imagem de Bom Jesus dos Navegantes é conduzida na galeota Gratidão do Povo, da Igreja da Boa Viagem até à Basílica da Conceição da Praia, o mesmo acontecendo na manhã do segundo, quando ela vai do Cais do Comando do 2º Distrito Naval às proximidades do Farol da Barra, retornando à Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem.
A Base Naval de Aratu, da Marinha do Brasil, está localizada na península do Paripe, na baía de Aratu, ligada pelo rio Cotegipe à Baía de Todos os Santos. Essa instalação militar possui posição estratégica, pois está situada aproximadamente no meio do litoral brasileiro. Foi utilizada como base aeronaval pelos Estados Unidos, na 2ª Guerra Mundial.





