Mangues lagos e lagoas - LAGOA RODRIGO DE FREITAS - Rio de Janeiro
A lagoa Rodrigo de Freitas está situada na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, entre os bairros da Gávea, Jardim Botânico, Ipanema e Leblon, e embora receba a vazão de alguns rios que descem das encostas que a cercam, suas águas são salgadas. Acredita-se que sua existência tenha relação com um braço de mar que ali existiu em tempos remotos, mas quando este desapareceu em virtude da ação dos ventos e das correntes marinhas, interrompeu a ligação entre ela e as águas oceânicas (na ilustração, à esquerda, como era o contorno da lagoa no século 16; à direita, seu contorno nos dias de hoje).
Data de 1575, ano em que Antônio Salema, desembargador português, assumiu o governo da capitania do Rio de Janeiro, o primeiro registro a respeito da lagoa. Na época, as terras da região eram habitadas pelos índios tamoios, mas o governador decidiu aproveitá-las para o plantio da cana-de-açúcar. Como os indígenas recusavam-se a abandonar a área, Salema espalhou por perto da água roupas antes usadas por doentes de varíola, artifício que deu resultado porque os índios as recolheram e vestiram, sendo então contaminados pelo mal e exterminados por ele. Resolvido esse problema, o governador iniciou a plantação desejada e também a da montagem do Engenho D’El Rey no lugar onde hoje funciona o Centro de Recepção aos Visitantes do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
Para isso ele solicitou a Dom Sebastião, rei de Portugal, um empréstimo de 3 mil cruzados, mas descobriu-se depois, em 1578, que o custo das obras realizadas só havia alcançado pouco mais de 10% desse valor. Apesar disso, o que se fez foi transferir a propriedade, em 1598, para o vereador Diogo de Amorim Soares, que mudou o nome do engenho para Nossa Senhora da Conceição da Lagoa e ergueu uma capela no local. A lagoa, por sua vez, passou a ser conhecida como Lagoa de Amorim Soares, mas dez anos depois, em 1609, Diogo foi expulso da cidade por corrupção, sendo a propriedade vendida a seu genro Sebastião Fagundes Varela.
Que não se fez de rogado. Adquiriu terras ao redor das suas, algumas de forma pouco recomendável, de forma tal que anos depois, em 1620, já era dono de área que ia do atual bairro do Humaitá ao Leblon, incluindo a lagoa, então conhecida como do Fagundes. Mais adiante, em 1702, uma bisneta de Sebastião, de nome Petronilha Fagundes, herdeira daquela imensa propriedade, casou-se com Rodrigo de Freitas Castro. Ela já havia chegado aos 35 anos de idade, enquanto ele ainda não havia ultrapassado os 18, mas mesmo assim os dois acabaram se unindo em matrimônio algumas semanas após se terem conhecido.
Doze anos mais tarde, já viúvo, Rodrigo de Freitas retornou a Portugal, onde passou a viver das rendas que suas terras proporcionavam. Morreu em 1748, rico e ainda sozinho, tendo legado seu nome à lagoa como que para eternizar na história um dos golpes do baú mais bem dados em terras cariocas. Seus herdeiros passaram a arrendar a terceiros os imóveis que possuíam, vivendo apenas das gordas rendas que elas proporcionavam. O que levou o engenho a definhar no final do século 18.
Em 1808, quando a família real portuguesa chegou ao Brasil, o príncipe regente ordenou a construção de uma fábrica de pólvora em terras próximas à lagoa, para que suas tropas pudessem ter condições de defender a cidade contra possíveis invasores. Isso foi feito, mas como em 1826 uma explosão derrubou suas instalações, ela foi transferida para a Raiz da Serra, aos pés da serra de Petrópolis. Mais à frente, a crise que atingiu os produtores de cana-de-açúcar em meados do século fez com que os terrenos dos engenhos da lagoa fossem loteados como chácaras, o que aumentou a população residente na área. Em 1890, por exemplo, os atuais bairros da Lagoa, Jardim Botânico, Gávea, Ipanema, Leblon, Vidigal, São Conrado e parte da Barra da Tijuca, abrigavam pouco mais de 4.000 moradores.
Já no século 20 os prefeitos Pereira Passos (1902/1906) e Paulo de Frontin, (janeiro a julho de 1919) tentaram sanear a lagoa então considerada prejudicial à saúde pública, porém foi na administração Carlos Sampaio (1920/1922) que ela passou por grandes transformações. Nesse tempo seu espelho chegava às ruas Humaitá e Marquês de São Vicente, mas a partir daí foi perdendo espaço para construção de avenidas e casas, além da instalação de associações esportivas como o Jóquei Clube Brasileiro. Outro problema era a mortandade de peixes em seu interior, e para dar fim a ela a solução empregada foi o aumento da salinidade de suas águas. Para tanto foi construído o aterro onde hoje está o Jardim de Alah, bem como os aterros de toda a margem de Ipanema. Enormes trechos do Jardim Botânico também foram aterrados, retificando o litoral desde o Humaitá até o Largo das 3 Vendas, atual Praça Santos Dumont. E com isso, mais os aterros anteriores, a lagoa perdeu a metade de seu tamanho.
Na década de 1980 foram apresentados vários projetos voltados para a despoluição de suas águas, sendo alguns deles colocados em prática. Apesar disso, só em meados da década de 1990 os cariocas puderam apreciar os efeitos desse esforço, o que transformou a Lagoa Rodrigo de Freitas, com seus 2,4 milhões de metros quadrados de área circundada por ciclovia pavimentada, em uma das principais atrações turísticas da cidade do Rio de Janeiro. Tombada pelo patrimônio histórico do município, suas margens abrigam o maior centro gastronômico ao ar livre da América Latina. Distribuídos numa área com 204 mil metros quadrados, os que a freqüentam encontram 03 Parques com ampla área de lazer, diversão e quadras esportivas, 25 quiosques com as mais diversas especialidades gastronômicas, 03 estacionamentos com cerca de 1750 vagas, além de banheiros públicos. Com isso ela se tornou a área de lazer mais visitada da cidade, reunindo em média 120 mil pessoas em cada final de semana.





