Mangues lagos e lagoas - PANTANAL MATO-GROSSENSE (2)

Em 02 de fevereiro de 1971 realizou-se na cidade iraniana de Ramsar, na Ásia, a Convenção sobre Zonas Úmidas, conhecida também como Convenção de Ramsar, quando os países participantes assinaram o primeiro tratado global sobre conservação das chamadas zonas úmidas, definidas como áreas “de pântano, charco, turfeira ou água, natural ou artificial, permanente ou temporária, com água estagnada ou corrente, doce, salobra ou salgada, incluindo águas marinhas cuja profundidade na maré baixa não exceda os seis metros”.

 

O Brasil detém a maior área úmida continental de água doce do planeta: o Pantanal. Ali, quando as águas do rio Paraguai e seus afluentes transbordam no período da cheia, entre novembro e março, levam nutrientes a essa imensa planície alagável com cerca de 210 mil km² , que se estende pelo Brasil, Bolívia e Paraguai (140 mil km² no Brasil e 70 mil km² na Bolívia e Paraguai).

 

Para o pantaneiro e escritor corumbaense Augusto César Proença, "No Pantanal tudo depende das águas. São elas que condicionam os diversos tipos de vida, levam o homem a ter necessidade de mudanças nas grandes enchentes, modificam os solos, obrigam certas aves a migrar para outros lugares do planeta, empurrando o gado para cima das cordilheiras, quebram a monotonia da planície, ilhando muitas fazendas, obrigando ao emprego de canoas que substituem os cavalos para conduzir a criação aos lugares mais altos e, portanto, livres do desespero das águas. Não é um mundo cor-de-rosa como a mídia tanto propaga. Quem vive no Pantanal e dele depende sabe o quanto é difícil adaptar-se a essa natureza inconstante e até certo ponto bravia. Paga a sua cota de provação e, sobretudo, tem que se sujeitar aos caprichos tão repentinos e imprevisíveis das águas, que muitas vezes exageram em transbordar".

 

O Pantanal também funciona como um corredor de conexão entre a Bacia Amazônica e a do Prata, com formações que lembram diversas outras regiões (como cerrado, mata atlântica, bosque seco, Amazônia e caatinga), conferindo-lhe valor biológico inestimável. O ciclo hidrológico e sua dinâmica são fundamentais para garantir a biodiversidade e manter o funcionamento ecológico de toda região. Graças a essa alternância de cheias e secas, são encontrados no Pantanal espécies animais e vegetais de ambos os períodos, mas apesar das inundações alternadas com períodos de seca, o clima do Pantanal é semi-árido, comparável ao da caatinga nordestina. Suas águas provêm principalmente das partes altas, das cabeceiras dos rios, onde as chuvas são mais intensas, especialmente ao Norte, nas nascentes do rio Paraguai. Lá, durante as épocas chuvosas, as águas transbordam dos leitos dos rios e essa inundação desce lentamente rumo ao Sul.

 

A relação mantida no Pantanal entre as águas e as rochas, resulta num ambiente único no mundo, transformando-o em um santuário de reprodução e refúgio da fauna, em reserva de alimentos e água, rico em biodiversidade e diversidade cultural. As várias formações rochosas ao longo do Pantanal contribuem com o equilíbrio de um ciclo natural de cheias e secas anual, conhecido cientificamente como pulso de inundação. Uma das mais belas paisagens pantaneiras é a Serra do Amolar, formação rochosa localizada na fronteira do Brasil com a Bolívia, entre Cáceres (MT) e Corumbá (MS), a uma distância de 100 km de cada cidade. É a maior em altitude e extensão (80 km). Quando a serra abraça as águas do rio Paraguai, diminui sua velocidade. No entorno da Serra do Amolar estão, no Brasil, o Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense e três Reservas Particulares do Patrimônio Natural - RPPNs. Na Bolívia, existe o Parque Nacional de Otuquis e a Área Natural de Manejo Integrado San Matías.

 

As comunidades pantaneiras da região da Serra do Amolar apresentam características próprias, uma vez que os povos do Pantanal adaptaram-se ao ciclo natural de cheias e secas e até hoje retiram do meio ambiente o seu sustento, sem comprometer os recursos naturais de forma permanente.

 

Discorrendo sobre o Pantanal em sua edição de 26/10/2003, no suplemento Cadernos de Viagem, o Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, esclarece que “A adversidade entre as estações seca e chuvosa no Pantanal é incrível. São cenários singulares dentro do mesmo espaço geográfico. Durante a época de chuvas, que vai de novembro a março, com exceção das áreas mais altas, a região fica totalmente alagada. O tipo de solo e o terreno plano dificultam a absorção da água, formando, com a chuva abundante, várias bacias. Logo depois, vem a vazante, estação intermediária entre as cheias e a seca, que vai de abril a junho. Durante estes meses, pequenas lagoas tornam-se abundantes em quantidade de peixes, formando um generoso banquete para uma infinidade de aves. O cenário também atrai algumas espécies de mamíferos, que podem saciar o apetite nas verdes pastagens. Já na seca, que vai de junho a outubro, a paisagem muda radicalmente. Para quem teve a oportunidade de conhecer o Pantanal somente na estação das chuvas, fica até difícil acreditar na brusca mudança de ambiente entre uma estação e outra. O número de mamíferos triplica e as aves migratórias praticamente desaparecem. Árvores como a piúva e para-tudo, típicas da região pantaneira, colorem de rosa e amarelo as florestas no mês de setembro”.

 

E complementa: “A fauna é assombrosa para quem vive na cidade grande e nunca se deparou com tamanha quantidade de bichos. No Pantanal não faltam onças, difíceis de serem flagradas, mas que estão sempre rondando as fazendas em busca de presas, como pequenos novilhos. Antas - maiores mamíferos brasileiros - quatis, tamanduás-bandeira, lobinhos, tatus, cervos e veados pantaneiros, macacos e mais de uma multidão de animais de médio e pequeno porte convivem em harmonia. As aves, pequenas ou grandes, de cores diversas e de pios distintos estão espalhadas por todo Pantanal na cheia e disputam centímetros de galhos para poder construir seus ninhos. Os répteis também fazem sucesso. Destaque para jacarés, lagartos e cobras, que encantam os visitantes. Mas nem tudo são flores. Enquanto os mosquitos são os maiores inimigos na época da cheia, os carrapatos surgem  em abundância na seca. Pequenos do tamanho de pintas, costumam atacar as pernas sem piedade. Mas vale a pena relevar. Afinal, a recompensa oferecida pelo Pantanal é grande”. 

 

Fonte: www.riosvivos.org.br

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