Língua Portuguesa - CACÓFATO

Cacófato é a forma viciosa de linguagem resultante da união de sons desagradáveis ao ouvido, ou cuja assonância dá idéia de sentido diferente, em geral ridícula ou agressiva ao decoro e aos bons costumes. Você, que ouve e lê qualquer coisa, diariamente ou pelos menos de vez em quando, é massacrado por essas infelizes uniões de sílabas sem que nem sempre as perceba, como na frase de uma economista em artigo publicado no jornal: “Mais uma má notícia. Não fomos nós que derrubamos a bolsa de Nova York. Foi a Mônica Lewinsky”.  Umamá aí presente pode não ter sido observado por muita gente, mas trata-se do cacófato a que se refere a definição apresentada aí acima, que por sinal, é a que consta em todos os dicionários do país.

 

Outro exemplo? “A empresa é dirigida pela dona Maria”. Ou “Emagreci graças ao copper feito diariamente”.  No primeiro, desnudaram a coitada da Maria (pela dona), que de empresária talvez seja convidada a se tornar capa de revista masculina; e no segundo, alguém fala de seus atributos físicos (cooper feito) sem se dar conta de que bem pouca gente estará interessada em tomar conhecimento desse seu detalhe anatômico. Infelizmente, os revisores das revistas e jornais nem sempre estão atentos para esse tipo de problema, e é por isso que se tornou comum a presença de cacofonias em suas edições, como no título "Fulano marca gol de bicicleta", na página esportiva, ou então "Governo confisca gado de fazenda em Mato Grosso", na página de economia, a primeira certamente se referindo ao gol contra (marca gol) perpetrado por um  jogador em tarde infeliz, e a segunda provavelmente fazendo alusão à pouca sorte (confisca gado) de algum criador que é da outra banda, entenderam?

 

Os exemplos são muitos, inclusive de gente graúda em literatura. Como aconteceu com o escritor português Camilo Castelo Branco ao escrever essa incoerência: Nunca te tinha conhecido esse aleijão - porque te tinha não rima com aleijão, não é mesmo?  É dele, também, a frase “um por cada vez”, fazendo referência (por cada), quem sabe, a alguma criação de suínos. Ou ainda do sempre festejado Camões, que inicia um de seus sonetos dizendo “Alma minha gentil que te partiste”, lamentando, talvez, a perda de algo que apreciava em sua ex-namorada (alma minha).

 

Os cacófatos nada mais são que descuidos na construção das frases, pois uma simples mudança na ordem das palavras, ou a substituição de uma por outra, é suficiente para eliminá-los. Como na frase "Nenhum segurança havia dado falta do objeto”, onde a masculinidade dos seguranças (havia dado) é posta em dúvida; ou em "Não me teria sentado à mesa com aquela mulher se soubesse que o marido dela era tão ciumento!", na qual a insinuação maldosa (me teria sentado) poderia ter influência perniciosa na reputação da dama envolvida na história. Experimentem fazê-lo.

 

Quanto aos nomes, então, nem é bom falar. Armando Pinto, Caio Pinto e Mônica Gava são exemplos do descuido com que a combinação de nomes e sobrenomes é proposta por homens e mulheres. Inclusive na área comercial, que abrigou, certa feita, uma empresa cuja razão social era H. Romeu & Grita. Fora isso, os cacófagos vivem dando sopa por aí, machucando olhos e ouvidos: Tirei da boca dela; Não pensei nunca nisso; Quero a mala; É mulher que se disputa, Chuta Neneca, gol! e tantos outros, a ponto de certa feita ter sido proposto o apóstrofo (na escrita) em expressões como u’a mão, para evitar o som mamão na fala.

 

Em www.sualingua.com.br o professor Cláudio Moreno, publica um delicioso texto sobre cacófatos, do qual tomamos a liberdade de extrair alguns trechos:

 

“No início do século passado, antes da 1a. Grande Guerra, o estudo da Língua Portuguesa no Brasil era dominado por um bando de corvos barulhentos, de pouca ou nenhuma ciência, que passavam seu tempo a procurar 'defeitos' na linguagem dos outros e a acusá-los, com o dedo em riste, como se fossem criminosos hediondos. 'Galicismo!', bradava um; Errou a mesóclise!', gritava outro; e a vítima, o autor desses 'erros', tinha de vir a público fazer sua defesa, apoiar-se nos clássicos, invocar autores consagrados que lhe avalizassem a frase suspeita. (...)".

 

"(...) “Pois uma das preocupações desses censores eram os cacófatos - palavras torpes, obscenas ou ridículas (esta adjetivação é da época) formadas por aqueles encontros casuais das sílabas finais de um vocábulo com as iniciais do outro. 'Não pense nunca nisso' - pronto! Falou caniço. 'Já que tinha resolvido ...' - pronto! Falou jaquetinha. 'O irmão pôs a culpa nela' - pronto! Falou panela. 'Existe uma herdeira' - pronto! Falou merdeira. Sou obrigado a reconhecer, nesses fanáticos, uma imaginação exacerbada e uma extrema sensibilidade para o mau vocábulo. Dir-se-ia que eles, como o Joãozinho da anedota, andavam a pensar apenas em sem-vergonhice, ou a procurá-la por toda parte. (...)".

 

"(...) Hoje só se admite uma certa preocupação com os cacófatos no caso da TV e do rádio, e, mesmo assim, dificilmente o ouvinte vai fazer essas segmentações tendenciosas. Só mesmo quando o efeito é gritante; Sérgio Nogueira fala da transmissão do jogo Brasil e Coréia, em que ouviu 'Fábio Conceição pediu a bola e Cafu deu' - bom, aí é um petardo que não podemos deixar de ouvir. (...) Fora disso, tenho visto é aquele uso maroto do cacófato, que o autor faz questão de sinalizar para que todos percebam. Lembro de (...) um quadro do Moacyr Franco, no programa A Praça é Nossa, em que ele interpretava um tal de Jeca Gay. (...) Agora sim, parece que encontraram o verdadeiro tratamento que o cacófato merece, diferente daquela visão repressiva, obscurantista, do Brasil de antigamente: ele é um jogo criativo com a linguagem, safado, moleque, presente nas brincadeiras verbais do colégio e nas genuínas piadas do Casseta & Planeta. E é com esse espírito que relembro uma pequena estrofe que costumávamos recitar, no meu tempo de ginásio:

 

"Lá, onde  / Abunda a pita, / E a doce flor / No cume cheira." 

 

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