Língua Portuguesa - GALICISMO

O galicismo - ou francesismo - é um vício de linguagem em que se usa uma palavra ou frase derivada diretamente do francês, constituindo o estrangeirismo mais comum em português, apesar do uso cada vez maior de anglicismos ou, particularmente, americanismos típicos, ao invés das expressões equivalentes existentes em nossa própria língua. A grande ocorrência de galicismos deve-se, sobretudo, às estreitas relações culturais que por muitos anos Portugal e Brasil mantiveram com a França, e muitos deles se tornaram tão consagrados pelo uso que acabaram se incorporando ao vernáculo nacional (na ilustração, o pau-brasil).

 

Sobre essa influência lingüística o Jornal da USP, edição 675, de 16 a 22 de abril de 2004, publicou texto assinado por Cricia Giamatei, com o título Luzes refletidas entre Paris e São Paulo, que principia dizendo que: “Dos vôos de Santos Dumont em Paris, às visitas de franceses como Lévi-Strauss e Blaise Cendrars a São Paulo, a mostra - 'São Paulo-450-Paris' ­ em cartaz no Instituto Tomie Ohtake ­ reconta o período de forte influência francesa na capital paulista no início do século 20”. E afirma mais adiante:

 

“Enquanto os salões de festas e de idéias em São Paulo refletiam luzes francesas, os brados modernistas chocavam em favor de uma identidade nacional. Uns dos primeiros artistas que defenderam e resgataram cores, letras e sons brasileiros eram os mesmos que foram se inspirar na Cidade Luz. E também eram os mesmos que receberam um 'empurrãozinho' de franceses, chamando-lhes a atenção para a importância da cultura de seu próprio país. São contradições como essas que marcam a relação entre brasileiros e franceses, especialmente no início do século 20. Nesse período, o fascínio da belle époque se espalhava por todo o mundo, e não poderia deixar de chegar ao Brasil e à cidade que crescia, e se internacionalizava, com a exportação do café. Nas ruas de São Paulo, os vestidos eram art déco, os móveis remetiam ao estilo Luís XV, a arquitetura de largas avenidas imitava os boulevards, os livros eram simbolistas. A língua chic e culta em São Paulo era, claro, o francês, símbolo de cultura”.

 

Hoje, as opiniões dos gramáticos variam quanto à legitimidade do emprego de galicismos, mas, de modo geral, admite-se como aceitável o seu uso, e também o de estrangeirismos (na ilustração abaixo, alguns exemplos), em geral, que designem conceitos para os quais não haja, em nosso idioma, termo adequado, tais como boné, bicicleta, polainas, patim, e outras mais. Na opinião de Paulo Hernandes (www.paulohernandes.pro.br), professor de Lingüística e Língua Portuguesa:

 

“Ainda que os galicismos (e outros barbarismos em sentido restrito) devam ser evitados, não os podemos considerar erro. Quem assim age demonstra desinformação. Aos leigos isso é perdoável, mas os professores não podem incorrer nesse equívoco. A importação para a nossa língua de palavras e expressões francesas tem origem muito antiga. O recebimento de galicismos data da Idade Média, dada a influência que a literatura daquela região, notadamente a provençal, exerceu nas letras portuguesas. Muito tempo depois, no século XIX, tal influência foi proeminente no Brasil. Por essa época, era chique (outro galicismo) falar francês e usar roupas e consumir produtos vindos de Paris”.

 

Exemplos de galicismos, conforme esclarece o referido professor, são as palavras abajur (de “abat-jour”), buquê (de “bouquet”), carnê (de “carnet”), crochê (de “crochet”), filé (de “filet”); as expressões cair das nuvens, guardar o leito, golpe de Estado, perder a cabeça, ter lugar; o verbo “acontecer” com o sentido de “ocorrer”: “A comemoração acontecerá em 10 de setembro” (em vez de “ocorrerá”). São construções francesas: “Isso não é para qualquer um” (em vez de “qualquer pessoa” ou “uma pessoa qualquer”) e “Vende-se casas” (em vez de “vendem-se”), em que o “se” é sujeito indeterminado por ser morfologicamente classificado como partícula de indeterminação do sujeito. Equivale ao “on” francês. É também considerado galicismo o emprego indiscriminado da preposição “a”, especialmente quando pode ser substituída por “com”, “de” ou “em”, como em “chocolate ao leite” (com leite), “entrega a domicílio” (em domicílio), “equação a duas incógnitas” (de duas incógnitas), “falar ao telefone” (no telefone) e “situado à avenida 7” (na avenida).

 

Segundo o filólogo João Ribeiro (1860-1934), a palavra brasil foi o primeiro galicismo praticado em nossa terra, ainda na época do descobrimento. Conhecida desde a Idade Média, ela designava um tipo de madeira da qual se extraía tintura de cor vermelha. Na descrição do médico e historiador Augusto Carlos Teixeira de Aragão (Lisboa, 1860/1934), “O conhecimento do pau-brasil parece remontar ao século IX pelos itinerários dos árabes El-Hacem e Abuzie, publicados por Renandot nas ‘Antigas Relações com as Índias’, e onde se designa com o nome persa Bakham, que ele traduziu em latim Bresilium. O pau-brasil é muito parecido nas qualidades com uma planta de Samatra, donde se extrai também tinta da mesma cor. Tanto esta droga como o pau-brasil eram importados para a Europa pelos árabes, vindos do Oriente pelo mar Vermelho, e por terra atravessando o Egito. O pau-brasil tinha grande consumo, servindo principalmente para tingir de encarnado as lãs, algodões, sedas. Diz Muratori que nas alfândegas de Ferrara, 1139, e nas de Módena, em 1316, aparecem notícias da droga para tingir os tecidos de encarnado, chamada, na Itália, de Brezil, Brecilis, Bracire, Brasilly, Brazilis e Brazili. O pau-brasil começou a ser importado em Espanha nos anos de 1221 a 1243...”

 

Apesar do interesse que despertou no passado, hoje em dia ninguém, ou quase ninguém mais conhece a árvore que deu seu nome à nossa pátria. O que é lamentável.

 

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