Língua Portuguesa - GERÚNDIO
Gerúndio é a forma nominal invariável do verbo que exprime, geralmente, circunstância de tempo, causa ou modo. É usada também na formação dos verbos que indicam ação repetida ou amiudada (e por isso são chamados freqüentativos), terminando, geralmente, em ear, ejar, içar, inhar, iar. Além destes verbos freqüentativos, pode-se empregá-la para formar conjugações perifrásticas (perífrase é o processo que consiste em exprimir com muitas palavras o que poderia ser dito em uma só, como em “astro-rei, o centro do sistema planetário”, ao invés de se dizer simplesmente Sol; com os verbos estar ou andar, incluindo-se, nesse caso, frases como andar ou estar trabalhando ou a trabalhar. O gerúndio também é usado na conjugação dos verbos incoativos (os que exprimem princípio de ação, ação começada e não acabada, ou ação progressiva, como envelhecer, florescer, etc.), e suas formas são, respectivamente, nas três conjugações, ando, endo e indo.
Apesar de pouco conhecido dos que o usam em seu conversar corriqueiro, sem ter a menor idéia de que estão se valendo dele para exprimir pensamentos, palavras e ações, o gerúndio volta e meia recebe maior ou menor destaque por motivos que nada têm a ver com a sua área de atuação, que é a gramatical. Como no caso da sua demissão determinada por decreto publicado em 01 deste mês de outubro de 2007, na página 19 do Diário Oficial do Governo do Distrito Federal.
O inusitado decreto assinado pelo governador José Roberto Arruda no dia 28 do mês anterior, é definitivo logo em seu artigo primeiro: "Fica demitido o gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal". E o artigo segundo do decreto continua firme no ataque ao tempo do verbo, ligando-a à deficiência verificada no serviço público: "Fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de ineficiência". Curioso, é que o texto seguiu o padrão de todos os decretos e estabeleceu, em seu artigo quarto, o lugar comum "Revogam-se as disposições em contrário". Não se tem notícia de que algum decreto anterior tenha obrigado o uso do gerúndio nas repartições do Distrito Federal.
Sobre o mesmo assunto, o Correio Brasiliense, de Brasília, publicou excelente matéria com o título de “E o gerúndio foi demitido”, cujo teor nos permitimos transcrever abaixo:
“O governador José Roberto Arruda (DEM) baixou um decreto que dividiu os seus subordinados entre incrédulos e temerosos. O chefe do Executivo local mandou publicar na edição de ontem do Diário Oficial do Distrito Federal (DODF) a demissão do gerúndio, tempo verbal que entre outros possíveis significados expressa ação contínua. Exemplo: fazendo, elaborando, preparando, terminando… Todas palavras têm em comum as últimas três letras (ndo) e o sentido metafórico de longo prazo”.
“O decreto número 28.314 'demite o Gerúndio e dá outras providências' especificadas em quatro artigos. Entre eles, o 2º, 'fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de ineficiência', e o 4º, 'revogam-se as disposições em contrário'. O teor nada convencional do decreto foi recebido com desconfiança entre os destinatários da mensagem, os subordinados de Arruda, e pegou muitos assessores de surpresa. 'Eu não tinha idéia e cheguei a pensar que fosse uma brincadeira até ver cópia do Diário', contou o secretário de Cultura, Silvestre Gorgulho. Ele, no entanto, disse: 'Deveria ser um decreto federal, porque na minha opinião quem usa muito gerúndio quer enrolar', apoiando a idéia do chefe".
“Na manhã de ontem, o secretário de Governo, José Humberto Pires, externou para colegas do Buritinga a preocupação de que a medida virasse chacota entre a opinião pública. O secretário de Esporte, Aguinaldo de Jesus, que também despachava no Centro Administrativo, demonstrou, no episódio da demissão do gerúndio, preocupação com a própria pele. 'Antes ele do que eu', disse Aguinaldo”.
“O presidente do Tribunal de Contas do DF (TCDF), Paulo César Ávila, opinou, em tom descontraído, que a medida do governador é 'caso para um pedido de exame de sanidade mental'. O governador, no entanto, reforçou durante entrevista à reportagem do Correio em Washington suas motivações para o decreto publicado ontem. 'Esse é um recado bem-humorado para a minha equipe contra a ineficiência. No meu governo, a variável tempo tem de estar incluída em todas as discussões', explicou. 'É preciso sempre estabelecer metas e cumpri-las num determinado prazo', acrescentou”.
“Arruda decidiu assinar o documento um dia antes de embarcar para os Estados Unidos, na sexta-feira. Ele alega ter perdido a paciência com alguns assessores que estão sempre 'fazendo', 'providenciando', 'estudando', 'preparando', 'encaminhando'. Mas nunca concluem um trabalho ou jamais estabelecem um prazo para a finalização. O governador deu como exemplo de 'enrolação' um administrador regional que um mês depois de receber as reivindicações dos moradores numa rodada do 'Governo nas Cidades' ainda não havia tomado as devidas providências. 'Nessa cidade, mais de 80% das ações não tinham saído do papel', afirmou”.
Para Rosa Pessina, vice-presidente do Conselho de Educação do Distrito Federal, "O decreto merece uma correção. O governador teria de ter demitido o gerundismo, que é um modismo idiota, e não o gerúndio, que é um tempo verbal". Na sua avaliação, o gerundismo, uso abusivo do gerúndio, é um "modismo idiota, uma imitação da língua inglesa, que se expandiu no Brasil com as atividades de telemarketing”.
Já para Adriano Jordão, conselheiro cultural da embaixada portuguesa em Brasília e diretor do Instituto Camões no Brasil, o decreto foi uma "provocação bem-humorada do governador com uma intenção de praticidade. A idéia é ’vamos fazer’ e não ’vamos fazendo’. E acredito que vai dar resultado na prática, vai pôr os serviços públicos a funcionarem". O conselheiro cultural disse ter achado 'muita graça' ao decreto e que a medida só é possível num país tão criativo e tão imaginativo como o Brasil.





