Língua Portuguesa - LIPOGRAMA

Lipograma é uma palavra formada pelo prefixo lipo (que se emprega com o significado de insuficiência, de falta, como em lipodonte, animal a que faltam um ou mais dentes) mais o sufixo grama (que tem o sentido de letra, figura, desenho, palavra , etc., como em cronograma), usada para classificar as composições literárias em que se procura evitar o uso de uma ou mais letras do alfabeto. A técnica oposta, ou seja, quando todas as letras do abecedário são utilizadas em um determinado texto, chama-se pangrama (prefixo pan, que significa igual a tudo, todo, universal, etc., como em pan-americano, e grama, igual a figura, etc.).

 

Segundo consta, o poeta grego Trifiodoro, que viveu no século 5 a.C., foi um dos primeiros mestres nessa difícil técnica literária, pois escreveu o poema épico “Destruição de Tróia”, prescindindo, em cada um dos seus 24 livros, de uma letra do alfabeto grego vigente na época. Mas segundo alguns autores, antes dele (século 6 a.C.), Laso de Hermione, também poeta grego, teria escrito “Ode aos Centauros” sem usar a letra sigma, que é a décima oitava do alfabeto grego e correspondente ao nosso “s”. Depois dele, Nestor de Laranda, mais um filho da Grécia, reescreveu a Íliada, de Homero, eliminando a letra alfa (correspondente à letra “a” nas línguas latinas) no primeiro canto, a letra beta (correspondente à letra “b” nas línguas latinas), no segundo, e assim por diante.

 

Daí para frente, outros poetas e escritores também se valeram desse expediente em seus textos. Entre eles o espanhol Alonso de Alcalá y Herrera (1599-1682), que escreveu cinco novelas curtas em forma de lipograma: na primeira, “Los Dos Soles de Toledo”, ele suprimiu a letra “a”; na segunda, “La Carrozza com las Damas”, foi a vez da letra e”; na terceira, La Perla de Portugal, o “i” foi deixado de lado; e nas duas últimas, “La Peregrina Hermitana” e “La Serrana de Sintra”, as letras omitidas foram o “o” e o “u”, respectivamente. Também existem registros de que poeta alemão  Walter Gottlob Burmann teria escrito, no século 18, cerca de 130 poemas sem a letra “r”, e de que na mesma época, o também alemão Frans Rittler fez coisa idêntica no romance “Die Zwillinge! (com 3ª edição datada de 1820), não usando o “r”, a letra mais comum na língua alemã.

 

Já em período mais recente (1939), o norte-americano Ernest Vicent Wright escreveu a novela “Gadsby” - cujo texto contém mais de 50.000 palavras - sem ter usado a letra “e”, a mais utilizada na língua inglesa. Anos depois, o francês George Perec (1936-1982) repetiu a proeza em seu romance “La Disparition” (O Desaparecimento), uma obra com cerca de 300 páginas, sem ter usado uma única vez.a letra “e”, que assim como no idioma inglês, tem grande emprego no léxico francês. Perec (na ilustração), um dos fundadores do grupo Oulipo (Oficina de Literatura Potencial, em francês), que se dedicava  a jogos verbais e literários, era um escritor excêntrico, tanto que três anos após ter publicado “La Disparation”, editou um outro livro, “Les Revenentes”, no qual a única vogal usada era o “e”, explicando jocosamente que ele equivalia a uma resposta às outras vogais, que reclamavam da labuta excessiva dada a elas no livro anterior. Pouco antes de morrer, George Perec publicou um palíndromo com nada menos que  1.249 palavras.

 

No Brasil, existem, também, registros de lipogramas. Um deles é o poema “Sem a letra A”, de autoria do poeta Virgilio Gomes Nogueira (?)¸ coletado por Maria Lucia Bellezzi em um antigo almanaque encontrado em uma farmácia do interior paulista. Diz ele:

 

No cume de um belo morro, / meu domicílio erigi, / Cheio de flores silvestres  / E ninhos de juriti.

 

Corre por entre os rochedos, / num burburinho terno e doce, / um ribeirinho mimoso, / como se espelho ele fosse.

 

Deus tudo fez de perfeito / (nele o perfeito consiste). / Criou o mundo e nos deu / todo o bem que nele existe.

 

Nos centros de movimentos, / o viver nos é penoso. / Nos bosques tudo é sossego, um Éden cheio de gozo.

 

Logo rompe o sol no céu,   / em seu brilho sedutor. / E todo o meu domicílio / tem um perfume de flor.

 

Como é ditoso viver / bem longe do burburinho, / entre o perfume de flores / longe do mundo... sozinho.

 

Vivendo em belo retiro, / no cume de um belo monte, / o nosso espírito sente / como é risonho o horizonte.


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