Textos - DITOS POPULARES EM LINGUAGEM JURÍDICA

Recebi de um amigo o material que ora publico. O título é o mesmo, com a observação, porém, de que se tratava de “Analecto enviado pelo considerado Ruy Paneiro”. Como eu não sabia o que era analecto, tratei de decifrar a charada, e descobri que essa palavra misteriosa significa “coleção de máximas ou de textos escolhidos, tirados de obras de um ou de vários autores”. Quanto a Ruy Paneiro, a quem não conheço, trata-se de jornalista (ex-Jornal do Brasil), que trabalha atualmente como freelancer e colabora com jornais eletrônicos.

 

O analecto do jornalista satiriza o pedantismo com que certos autores escrevem seus textos, jurídicos ou não. Mario de Andrade (1893-1945) fez o mesmo em Macunaíma (1928), com a Carta aos Icamiabas, que diz: "Às mui queridas súbditas nossas, Senhoras Amazonas. Trinta de Maio de Mil Novecentos e Vinte Seis, São Paulo. Senhoras: Não pouco vos surpreenderá, por certo, o endereço e a literatura desta missiva. Cumpre-nos, entretanto, iniciar estas linhas de saudade e muito amor, com desagradável nova. É bem verdade que na boa cidade de São Paulo - a maior do universo, no dizer dos seus prolixos habitantes - não sois conhecidas por "icamiabas", voz espúria, senão que pelo apelativo de Amazonas; e de vós, se afirma, cavalgardes ginetes belígeros e virdes da Hélade clássica; e assim sois chamadas. Muito nos pesou a nós, Imperator vosso, tais dislates da erudição porém eis de convir conosco que, assim, ficais mais heróicas e mais conspícuas, tocadas por esta plátina respeitável da tradição e da pureza antiga. Mas não devemos esperdiçarmos vosso tempo fero, e muito menos conturbarmos vosso entendimento, com notícias de mau calibre; passemos, pois, imediato, ao relato dos nossos feitos por cá" (Capítulo IX, pág. 71).

 

Postos os pingos nos is, vamos aos ditos, realmente muito interessantes.

 

- A fêmea ruminante deslocou-se para terreno sáfaro e alagadiço (A vaca foi para o brejo).

 

- Desejo veementemente que V.Sa. receba contribuições inusitadas em vossa cavidade retal (Vá tomar no c.).

 

- Desejo veementemente que V.Sa. performe fornicação na imagem de sua própria pessoa (Vá se f.).

 

- Creio que V.S. apresenta comportamento galhofeiro perante a situação aqui exposta (Você está de sacanagem).

 

- Prosopopéia flácida para acalentar bovinos (Conversa mole pra boi dormir).

 

- Romper a face (Quebrar a cara).

 

- Creditar um primata (Pagar um mico).


- Inflar o volume da bolsa escrotal (Encher o saco).

 

- Impulsionar a extremidade do membro inferior contra a região glútea de outrem (Dar um pé na bunda).

 

- Derrubar, com a extremidade do membro inferior, o suporte sustentáculo de uma unidade de acampamento (Chutar o pau da barraca).

 

- Deglutir um batráquio (Engolir um sapo).

 

- Colocar o prolongamento caudal em meio aos membros inferiores (Meter o rabo entre as pernas).

 

- Derrubar com intenções mortais (Cair matando).

 

- Eximir de qualquer tipo de sorte (Azarar).

 

- Aplicar a contravenção do Senhor João, este deficiente físico desprovido de um dos membros superiores (Dar uma de João sem braço).

 

- Sequer considerar a utilização de um longo pedaço de madeira (Nem a pau).

 

 

- Sequer considerando a possibilidade da fêmea bovina expirar fortes contrações laringo-bucais  (Nem que a vaca tussa).

 

- Sequer considerando a utilização de instrumentos metálicos (Nem ferrando).

 

- Derramar água pelo chão por meio de tombamento violento e premeditado do seu recipiente (Chutar o balde).

 

- Retirar o filhote de eqüino da precipitação pluvial (Tirar o cavalinho da chuva).

 

- Quando um quadrúpede da família dos eqüídeos parlamenta, seu subalterno abaixa as abas auditivas e se posta em submissa posição para ouvi-lo (Quando um burro fala, o outro abaixa a orelha).

 

Colaboração de Lucas Durand

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