Textos - CAUSO DAS ESCRITURA, O

Não sei se contei procês os causo das Escritura Sagrada. Se não contei conto agora. A história é meio cumprida, mais vale a pena contá pru causa das controversa. De Adão e Eva acho qui não é perciso contá os causo pruquê todo mundo sabe qui os dois foi corrido do Paraíso pru modi de tomá banho pelado num poço d’água do ribeirão. Na saída, a Eva pegô uma maçã da boca de uma cobra...

 

Naqueles tempo esse mundão todo era uma terra só sem dono, e num era de ninguém. O primeiro cabra a cercá uma varza cum arame farpado foi um tar de Abé. Mais nem chego a istendê o primêro fio pruquê levo um balaço nos corno do irmão dele, o tar de Caim, que tava meio disconforme com a partia. O Caim, antonces, ameaçado de processo feio, fugiu pra Sum Paulo. Deixô o fio dele, um tar de Noé, tumando conta da fazenda. A fazenda ficava na beira de uma corredêra e o Noé, uns ano adispois, pegô uma enchente muito feia pela frente. Coisa muito braba, mermo... Caiu água uma barbaridade! Caiu tanta água que tinha inté capiau pescando lambari em cima do morro. O Noé intonce botô as criação incima de uma barsa e se jogô nas correnteza. A enchente era tão braba qui quando o Noé se deu pru conta, a barsa tava atolada num brejo chamado Diluve. Foi aí qui um tar de Moisés varô aquela água toda com vinte junta de boi e tirô a barsa do atolêro.

 

Aí, com aquele disporpósito, as famia ficô amiga. A fia mais véia do Noé se casô com o fio mais novo do Moisés, e os dois foi morá numa fazendona muito linda, chamada Fazenda da Babilônica. Tavam as famía ali, tomando café no garpão, quando chegô um cabra chamado Golias, cum mais de trinta cearense do lado dele. Abriro a sanfona e quisero obrigá as muié a dançá um baião. Foi quando os véio, que era muito respeitoso, ficô brabo e foi aquela briga danada. Briga braba, moço! O cabeça-chata do Golias, gritando arto, já foi e degolô de um corte só o Noé e o véio Moisés. E já tava dano de gostoso pra cima das muié quando um mulequinho dos seus dez ano, ou pouco mais, chamado Davi, mandô um bodocaço no meio dos corno do infeliz, qui num teve nem graça. Foi um Deus nos acuda e tava morto o cabra da peste. Aí a tuima toda animô e degolô os cearense. Dois qui tinha disrespeitado as muié foi degolado com o lado cego do facão, Foi uma sanguêra danada. Tanto qui inté hoje aquele lugá é chamado de Mar Vermeio.

 

Mais intonces foi nomeado um delegado, um tar de majó Salomão. Homi de cabelo nas venta, esse majó Salomão. Nem conto procês! Um dia, o baiano tava tirano uma soneca quando duas véia se jogaro incima dum guri de uns seis ano, que tava vendendo pasté. O majó Salomão, muito amigo du minino, passô a mão no facão e de um taio só cortô as véia no meio. Esse causo é muito falado, o do Perjuízo do Salomão qui contam puraí. Mais pru essas razão, o majó Salomão, o qui tinha de brabo, tinha de muierengo. Eta cabra da peste bão, moço! Adonde andava, já deixava fio feito. E como vivia zanzano, teve fio qui Deus nos guarde. E tudo cum fucinho dele, qui era pru mode não havê discordança. Só qui quando Deus Nosso Sinhô qué, inté égua véia pari gemo... Logo, a fia das pridileção do majó Salomão, a tar de Maria Madalena, fugiu da fazenda e foi sê muié de caridade - muié da vida. Uma vergonhêra pra famía. Mas ela puxô a mãe, qui era uma baiana meio alegre qui nunca tomô jeito na vida. O pobre do majó Salomão se matô de sentimento, com uma pistola Eclesiaste de dois cano.

 

Mais veja só cumo é a vida. Pois essa mesma Maria Madalena se casô treis ano adispois com um tar de coroné Ponciano Pilatos. Foi ele que tirô ela da vida. Eu cunheço uns treis causo do mesmo feitio e nenhum deles deu certo. Como dizia muito bem o meu finado pai, muié quando conhece outro homi, nunca mais se acostuma com um só. Mais nesses disvaneio inté qui houve uma contrapartida. O coroné Ponciano Pilatos e a Maria Madalena tivero doze fio, os tá de apósto, qui são muito conhecido pelas caridade qui fizero. Foi inté na casa deles qui Jesus Cristo armuçô com a cunhada de Maria Madalena, qui adispois foi santa muito famada, a tar da Santa Ceia.

 

Pois era um tempo muito mal definido. Andava uma seca braba pelos campo. São José e a Virge Maria tinha perdido todo o gado e só tavam com uma mula branca no currá, chamada Samaritana. Um rico animá criado em casa, qui só fartava falá. Pois tivero qui se desfazê da pobre...  E cumo as disgraça quando vem, já vem de braço dado, foi bem aí qui istorô as revolução. Os mardito, chefiado por um tar de coroné Jordão, acampô na intrada da Vila. Só não intrô pruquê tava lá um distacamento comandado pelo tenente Lázo, aquele mermo qui pur duas veiz foi dado pur morto.

 

Mais aí um cabo dos provisóro, um tar de cabo Judas, se passô prus mardito e lá veio uns tar de romano qui tava numas varzas, e ocupô a vila. Nosso Sinhô foi preso pra sê degolado por um preto muito forte e feio chamado Carvário. Pois veja cumo é a vida. Esse memo preto Carvário, degoladô muito mal afamado, era fio da véia Palestina, qui tinha sido cozinhêra da Virge Maria. Degolador é como cobra, desde piqueno já nasce ingrato. Mais intonces butaro Nosso Sinhô na cadeia, junto cum dois ladrão de cavalo, um tar de João Batista e o primo dele, Heródio dos Reis. Os dois tinha brigado pru causa de uma baiana chamada Salomé, e nu intrevêro baleô dois pade, monsenhor Caifás  e o cônego Atanásio.

 

Mais aí veio uma tropa da brigada, comandada pelo coroné Jisus Além, qui era meio parenti do homi por parte de mãe, e cum ele veio mais treis corpo de provisório, e se pegaro cum os cabra da peste. Foi a briga de foice e tiro mais feia qui se tem cunhecimento. Foi quarenta dia e quarenta noite de foice e bala. Morreu treis santo na luta: São Lucas, São João e São Marco. São Mateus ficou treis méis mórri num mórri, mas teve umas atenuantes a favô e si salvô o cabeça-chata. Nosso Sinhô pegou treis balaço, um im cada mão e um qui varô os pé de lado a lado. Ainda levô mais uma punhalada do mais véio dos romanos, o César Romano, na artura das custela. Ferimento muito feio qui Nosso Sinhô curo tomano vinagre na sexta-fêra da paixão...

 

Mais aí Nosso Sinhô desistiu dos homi, subiu na cruz, disse adeus prus amigo e se mandô de vorta pro Céu. Mais deixô os dez mandamento, qui são cinco, e qui se pode muito bem fazê em dois: 1º - Não se mata homi pelas costa; 2º - Nem se cobiça a muié dos ôtro pela frente.

 

(BFranco)

 

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