Período republicano - 1932 - INTEGRALISMO - Começo
Em outubro de 1932 o jornalista Plínio Salgado (1901-1975) fundou a Ação Integralista Brasileira, movimento que nascia em meio à crise política e econômica de um país agitado pelas transformações que a revolução de 1930 provocara. Em conseqüência, não era pequeno o número dos que reclamavam por medidas que atendessem os interesses nacionais, entre eles muitos dos que haviam apoiado o levante, mas o governo do presidente Getúlio Vargas tomava novos rumos e deles se afastava cada vez mais, enfraquecendo sua força política. Desse contexto surgiram dois movimentos de caráter radical que polarizaram a vida política brasileira nos anos seguintes, até o Estado Novo. Um era a Aliança Nacional Libertadora, e outro, o integralismo, que se apresentava como movimento de caráter nacional, mas inspirava-se no fascismo vigorante na Itália.
“O homem italiano acha-se no máximo de sua integridade. O conceito de fascismo será a luz de uma nova época”, diria Plínio Salgado depois de visitar aquele país. Sob essa influência a ideologia integralista tomou como base a supervalorização dos conceitos de autoridade, nacionalidade e centralismo político, contrapondo-se ao liberalismo e ao socialismo. Ela atacava o capitalismo internacional, o comunismo, a subordinação econômica em que considerava estar o país, e também o governo de Vargas, tachado de “fraco”, ao mesmo tempo em que preconizava a centralização da administração; o fim da luta de classes; o controle econômico e a nacionalização das indústrias e serviços considerados essenciais; além de justiça gratuita e moralização. “Numa palavra, o ideal cristão”, na opinião de Gustavo Dodt Barroso (1888-1959), advogado, professor, político, contista, dono da cadeira 19 da Academia Brasileira de Letras, anti-semita declarado, e um dos líderes intelectuais do movimento.
Usando a letra grega sigma como distintivo, o movimento pretendia “somar e integrar” os esforços dos brasileiros em torno de idéias que o slogan “Deus, Pátria e Família” pretendia expressar. O partido organizou-se nas zonas urbanas através de células distritais, cada uma com cem pessoas supervisionadas por um chefe local cuja idade variava de 30 a 45 anos. A vida dos seus integrantes era rigorosamente regulamentada; a pontualidade e a obediência consideradas valores fundamentais a serem rigorosamente respeitados; e a militância, a exemplo do nazismo e do fascismo, reforçada por uma organização de características militares, devendo os integralistas ostentar sua filiação através do uso do distintivo, do uniforme (uma camisa verde) e de uma saudação, anauê, tirada da língua tupi, e que significa “você é meu irmão”.
O Hino Nacional iniciava todas as reuniões para salientar o alegado comprometimento nacionalista. Todos os filiados recebiam um livro de trabalho e um “catecismo” partidário com perguntas e respostas que deveriam ser aprendidas de cor. O extremo da participação integralista foi a organização de milícias paramilitares representadas por uma grande milícia nacional suplementada pelas que cada célula organizava. A ostentação do poder militar era elemento importante do movimento, e a milícia bem treinada chegava a ser temida pelo povo quando fazia demonstrações em praça pública. No mais alto nível da organização estava o Conselho Supremo cujos membros eram escolhidos por Plínio Salgado. Esse conselho, de funções administrativas, indicava os componentes da Câmara dos Quarenta (a primeira delas incluía profissionais liberais, militares, membros do governo e representantes da industria, do comércio e das finanças). Abaixo desta, havia a Câmara dos Quatrocentos, espécie de assembléia do partido.
O apelo do integralismo exerceu atração principalmente na classe média urbana, conquistando funcionários de escritório, profissionais liberais, oficiais de patente inferior das Forças Armadas, etc. O movimento procurou influenciar escolares dos cursos primário e secundário através de clubes com promoções esportivas, culturais e sociais, organizando, a partir de 1935, uma federação feminista que com as mesmas promoções conseguiu recrutar simpatizantes em setores urbanos ainda não atingidos, como escolas noturnas e bairros pobres. O recrutamento estendia-se a pequenos municípios do interior, mas os líderes locais lamentavam freqüentemente a dificuldade em fazer os adeptos se interessarem pela doutrina integralista devido a seu baixo nível de instrução, e inclusive ao analfabetismo.
A força do movimento estava na classe média urbana dos estados de São Paulo, Ceará, Rio de Janeiro - próximo do então Distrito Federal, onde se localizava a sede do movimento -, Bahia e Alagoas, notadamente nos centros de imigração alemã e italiana do sul do país. Embora defendesse valores fortemente tradicionalistas e religiosos, o integralismo nunca obteve apoio formal da igreja católica, apesar de tê-lo solicitado várias vezes, recebendo apenas pronunciamentos isolados de bispos externando uma simpatia pessoal por ele. Ao que tudo indica, a influência do integralismo nos meios intelectuais e acadêmicos da época, foi menor que o da Aliança Nacional Libertadora, um grupo político nacionalista onde o Partido Comunista exercia grande influência.
Muitos aderiram ao partido simplesmente porque o acanhamento da vida cultural brasileira e os sentimentos de inferioridade em relação à Europa, despertavam a atenção para o que pareciam ser novas experiências de organização política. O brasilianista Robert M. Levine (1941-2003), observou que “a despeito do elevado prestígio de alguns de seus simpatizantes, a AIB manteve-se numa postura arrogante em face das questões intelectuais. Atacava grosseiramente os moderados e liberais, e ridicularizava a liberdade acadêmica. Puritana, opunha-se ao que considerava influências decadentes da vida moderna: ao cinema, à educação secularizada, à música popular. Como czar cultural, Gustavo Barroso pronunciava conferências sobre temas históricos e intelectuais sob o patrocínio da AIB, durante as quais usava o distintivo da milícia integralista”.
Veja também: BRASIL - 1938 - INTEGRALISMO - Desfecho
Fonte: Enciclopédia Brasileira





