Período republicano - 1917 - GREVES OPERÁRIAS
Greves operárias é o nome dado ao movimento ocorrido no início do século 20, no Brasil, com trabalhadores reclamando melhores condições de trabalho e de salários, além de garantias trabalhistas. Mas essa não foi a primeira manifestação desse tipo a acontecer no país, porque duzentos anos antes, em 1720, os portuários de Salvador, Bahia, cujo ancoradouro era conhecido na época como “porto do Brasil”, já haviam feito algo semelhante. Mas além desse fato, existe também o registro de que em julho do mesmo ano, fundidores de ouro em Minas Gerais declaravam-se em “greve”; de que os alfaiates da Bahia abandonaram o trabalho em 1782; de que em 1791, no Rio de Janeiro, os operários da “Casa das Armas” cruzaram os braços; e finalmente, de que em 1858, tipógrafos do Rio de Janeiro paralisaram suas atividades em protesto contra as injustiças patronais, e por aumento salarial.
Quanto a esta última, ao relatá-la em seu livro “Contribuição à história das Lutas Operárias no Brasil”, publicado em 1955, o escritor Hermínio Linhares a situa como "a primeira greve do Rio de Janeiro, talvez do Brasil”. E diz:
“Após meses reivindicando aos donos dos três principais diários da Corte (Correio Mercantil, Diário do Rio de Janeiro e Jornal do Commércio) um reajuste em seus salários, (...) os tipógrafos resolveram recorrer à paralisação do trabalho a partir de 09 de janeiro de 1858. O mais interessante da greve é que dela temos registros relativamente amplos, porque os grevistas, apoiados pela Imperial Associação Typographica Fluminense, fundaram o Jornal dos Typographos, de circulação diária, que nas semanas seguintes apresentou os argumentos dos trabalhadores. Nas páginas do jornal, encontramos um grupo profissional relativamente pequeno (o maior dos diários, o Jornal do Commercio, empregava cerca de 37 tipógrafos), que se apresentava como constituído por "artistas", artesãos especializados, empobrecidos pela ganância dos proprietários das folhas que se negavam a pagar-lhes um salário digno. Além disso, a greve chama a atenção pelo papel ativo da associação dos tipógrafos, cujo objetivo principal era o auxílio mútuo, mas que assumiu função de representação dos interesses de seus filiados, intercedendo junto às autoridades e financiando a compra do maquinário para a impressão do jornal dos grevistas”.
Esse movimento reclamatório produziu frutos, tanto que anos depois, em 12 de dezembro de 1890, a greve deixou de ser crime. Uma campanha promovida pelo Partido Operário levou o governo a alterar o Código Penal por meio do decreto n° 1.162, que excluiu a combinação prévia para cessação do trabalho como crime previsto no Código Penal. Antes disso, quem causasse ou provocasse uma ação semelhante, estaria sujeito à prisão por período que variava de um a três meses.
Mais adiante, o desenvolvimento industrial e urbano proporcionou o surgimento de bairros operários em algumas cidades. Mas além da precariedade das condições de vida que desfrutavam em decorrência dos baixos salários recebidos, os trabalhadores que neles habitavam também cumpriam jornada de trabalho estafante, além de não contarem com qualquer garantia trabalhista, o que tornava o problema ainda mais sério. Em virtude dessa situação começaram a surgir procedimentos e manifestações inspiradas nas idéias socialistas e anarquistas que moviam as reclamações operárias em diversos países do mundo, buscando não só a melhoria nas condições de emprego, mas visando, também, objetivos mais amplos, como a derrubada do sistema capitalista e a implantação de uma sociedade mais igualitária. Acompanhando esse exemplo, ocorreram manifestações e greves em vários estados brasileiros, notadamente em São Paulo, onde se concentrava o maior número de indústrias.
Em 1907, trabalhadores da construção civil, da indústria de alimentos e metalúrgicos, reivindicaram a jornada de oito horas diárias de trabalho, paralisando a cidade de São Paulo com uma greve que se estendeu a outras cidades paulistas, como Santos, Ribeirão Preto e Campinas. Mais à frente, em julho de 1917, os operários de duas fábricas têxteis de São Paulo iniciaram um movimento paredista que se espalhou rapidamente e paralisou a cidade, pois contou com a adesão imediata dos trabalhadores do serviço público. Cerca de 50.000 pessoas aderiram a essa manifestação, considerada pelos patrões não como uma questão social e política, mas como caso de polícia. Um exemplo disso foi o grande aparato militar que se formou, em 1918, no Rio de Janeiro, com revistas nos passageiros dos bondes e em todos os operários e populares que transitavam pelas ruas. O Palácio do Catete, sede do Governo Federal, foi cercado por tropas, e a imprensa da época tratava as agitações como anarquistas.
Everardo Dias, em “História das Lutas Sociais no Brasil”, relata dessa forma os acontecimentos: “São Paulo é uma cidade morta: sua população está alarmada, os rostos denotam apreensão e pânico, porque tudo está fechado, sem o menor movimento. Pelas ruas, afora alguns transeuntes apressados, só circulavam veículos militares, requisitados pela Cia. Antártica e demais indústrias, com tropas armadas de fuzis e metralhadoras. Há ordem de atirar para quem fique parado na rua. Nos bairros fabris do Brás, Moóca, Barra Funda, Lapa, sucederam-se tiroteios com grupos de populares; em certas ruas já começaram fazer barricadas com pedras, madeiras velhas, carroças viradas. A polícia não se atreve a passar por lá, porque dos telhados e cantos partem tiros certeiros. Os jornais saem cheios de notícias sem comentários quase, mas o que se sabe é sumamente grave, prenunciando dramáticos acontecimentos".
Relatando os acontecimentos, a imprensa divulgava que “Em 1917, São Paulo parou. Sindicatos anarquistas lideraram uma paralisação contra os baixos salários e por melhores condições de trabalho. O salário médio de um operário era em torno de 100 mil réis. O consumo básico de uma família (homem, mulher e dois filhos) chegava a 207 mil réis. O governo deu ordem de abrir fogo em quem ficasse parado na rua. Operários e polícia entraram em conflitos violentos. Em 11 de julho, morreu o sapateiro Antônio Martinez. O movimento grevista se radicalizou e atingiu toda a cidade. Bairros operários tornaram-se fortalezas de resistência, e barricadas se espalharam pelos bairros da Lapa, Brás, Mooca, Barra Funda e outros. O governo suspendeu a repressão, e iniciaram-se as negociações. A greve foi suspensa após empresários concordarem em dar 20% de aumento salarial, a liberação de grevistas presos e a suspensão de demissões”.





