Período republicano - 1935 - MITO OLGA BENÁRIO, O
Olga Gutmann Benário, nascida em 1908 em Munich, já aos 15 anos entrava para a Juventude Comunista Alemã. Aos 20 comandou o cinematográfico seqüestro de seu namorado e experiente militante comunista, Otto Braun, da prisão de Moabit, em Berlim, fugindo com ele para a União Soviética. Separaram-se logo depois, pois Olga se tornara uma fanática comunista enquanto Otto, exímio escritor, não tinha o mesmo fanatismo, vindo a ocupar cargos menores até 1961, quando se tornou Primeiro Secretário da Associação dos Escritores Alemães (da Alemanha comunista). Olga, novamente casada, entrou para a Academia Militar Soviética e tornou-se uma profissional do serviço secreto militar, assumindo a Diretoria de Agitação e Propaganda. Sua função internacional era escolher novos dirigentes comunistas para os países nos quais a URSS tentava se infiltrar e tomar o poder.
Três anos depois dela Luís Carlos Prestes, que entre 1924/1927 fizera parte da marcha comandada por Miguel Costa, depois conhecida como “Coluna Prestes”, chegou a Moscou. Ele se exilara na Argentina em 1928, onde estudou marxismo, e foi para a URSS a convite do governo. Em 1934, já membro do Comitê Executivo do Komintern, só foi aceito pelo Partido Comunista do Brasil por pressão do governo soviético, que o preparara para uma espetacular ação militar de tomada do poder no Brasil. Prestes havia exagerado consideravelmente a extensão do seu prestígio político no Brasil, e assim fornecido ao Komintern a expectativa - completamente errônea, como se veria - de um levante comunista vitorioso. Olga é designada para acompanhar e fazer a segurança de Prestes, mantendo-o fiel à linha do Partido. Em 1935 ela abandona o marido por ordem superior, recebe passaporte falso como esposa de Prestes (“Antônio Vilar”) e com o nome de Maria Bergner Vilar, chegando com ele ao Brasil, via Nova York.
Em julho Prestes divulgou um manifesto incendiário propondo a derrubada do governo Vargas, desencadeando a revolução que ficou conhecida como Intentona Comunista. A tentativa de golpe foi realizada à revelia da liderança formal do PCB, e em articulação direta com a direção do Komintern, que mantinha junto a Prestes um grupo de militantes comunistas internacionais, composto, além de Olga, do argentino Rodolfo Ghioldi, os alemães Arthur Ernest Ewert (“Harry Berger”) e sua mulher Elise, Ranieri Gonzales, Inês Túlchniska, Abraham Gurasky e outros militantes ligados ao Comitê Executivo do Komintern , num total de 22 agentes coordenados por Páviel Vladimírovich Stuchiévski e Sófia Semiônova Stúchskaya. O movimento foi desencadeado principalmente em Natal, Recife e Rio de Janeiro, onde foi deflagrado, simultaneamente no 3º Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha, no 2º Regimento de Infantaria e no Batalhão de Comunicações, na Vila Militar e na Escola de Aviação, no Campo dos Afonsos. Só no primeiro pereceram 28 militares. Mas o governo os derrotou facilmente. Dos agentes estrangeiros apenas 9 foram presos, inclusive Olga. Ela foi deportada para a Alemanha, e lá nasceu sua filha Anita Leocádia em 1936. Depois de passar pelo campo de Lichtenburg, acabou morrendo na câmara de gás do campo de concentração de Ravesnbrück em 1942.
Até aqui os fatos. Lentamente a esquerda os foi mudando para criar o mito. Primeiro, a paixão entre Prestes (na ilustração) e ela. As cartas de amor com declarações apaixonadas são um velho truque conhecido quando espiões querem se fazer passar por amantes e não camaradas reunidos para executar funções do Partido. Note-se que não há documento algum comprovando o casamento deles, só os passaportes falsos mencionados. Oficialmente, Olga continuou casada com Nikitin, que foi obrigado a acatar as ordens do Partido para não morrer. Provavelmente as cartas foram redigidas pelos agentes do Komintern que realmente dirigiam o PCB, Páviel Vladimírovich e Sófia Semiônova. Não obstante, todos os fatos estão submersos em montanhas de desinformações através de livros, filmes, mini-séries, e novelas, para glamurizar a relação profissional entre eles, negando que entre comunistas na clandestinidade, em termos sexuais, ninguém é de ninguém, e todos são de todos. No meu último artigo mencionei uma amiga, esposa de ex-companheiro da AP, que o abandonou porque não topou este estado de coisas.
O segundo ponto para despertar o sentimentalismo é o fato de Olga ter descoberto na prisão, ainda no Brasil, que estava grávida de Prestes, e quando foi repatriada para a Alemanha estava com sete meses de gestação. Veio a dar à luz na prisão de mulheres da GESTAPO na Barnimstrasse e estranhamente para um regime cruel e assassino como o nazista, foi permitido que a filha permanecesse com ela até o fim do período de amamentação, e depois entregue sã e salva a sua avó, mãe de Prestes, quando milhões de judeus de todas as idades, inclusive bebês de colo, foram gaseados e queimados. É bem verdade que a “Solução Final” ainda não estava em funcionamento, mas há algum mistério nesta “bondade” da GESTAPO. O fato de ter sido deportada grávida, notem bem, de uma futura cidadã de nacionalidade brasileira, é mostrado como ilegal. Estranho... Não são os mesmos comunistas que defendem o aborto livre porque o feto ainda não tem existência legal?
O embuste continua pelo fato de Olga ser judia. Depois do Holocausto, não há judeu que não se sinta justificadamente solidário aos seus; e nenhuma pessoa de bem que não se condoa do tratamento dado a inocentes que eram trucidados pelo simples fato de serem judeus. Mas Olga não foi morta por isso: ela era agente de uma das organizações mais assassinas de todos os tempos, quantitativamente mais eficiente do que a que a matou, e infinitamente pior do que o regime de Getúlio, que queria derrubar. Era, portanto solidária e co-responsável pelos seus crimes. No seu caso houve julgamento do pedido de extradição pelo Supremo Tribunal Federal. Ela era uma pessoa procurada por condenação em seu país durante um regime democrático e com justiça independente, a República de Weimar (...) e que estava no Brasil para implantar aqui o regime criminoso e apátrida que teria mergulhado o país num banho de sangue. Mesmo o regime brasileiro sendo ditatorial à época, submeteu o pedido ao STF.
Heitor di Paola, o autor deste texto, é escritor e comentarista político, membro da International Psychoanalytical Association e ex-Clinical Consultant, Boyer House Foundation, Berkeley, Califórnia, Membro do Board of Directors da Drug Watch International, e Diretor Cultural do Farol da Democracia Representativa. Possui trabalhos nas áreas de psicanálise e comentários políticos publicados no Brasil e exterior. E é ex-militante da organização comunista clandestina, Ação Popular.





