Período republicano - 1894 - CHACINA DE ANHATOMIRIM, A
Em 28 de julho de 2002 o jornal A Notícia, de Florianópolis, SC, publicou matéria sobre a chamada Chacina de Anhatomirim, classificando-a como o desfecho da Revolução Federalista. Ao longo do texto, que inclui depoimentos de descendentes dos que morreram nesse episódio, diz o autor que:
“Desde a proclamação da república, em 1889, até 1894, o país viveu um período turbulento. Depois que os militares instalaram o novo regime e baniram a família real, o primeiro presidente republicano, o marechal Deodoro da Fonseca, foi pressionado a renunciar ao cargo. Quem assumiu então foi o vice-presidente, Floriano Peixoto, seu genro. Floriano deveria convocar novas eleições, mas não o fez. Houve oposição militar e civil em relação à atitude do "marechal de ferro". A uns e outros, Floriano puniu. Reformou os generais e desterrou os civis e outros militares para as fronteiras amazônicas.
Floriano enfrentou várias revoltas, como a Revolução Federalista, no Rio Grande do Sul, e a Revolta da Armada, no Rio de Janeiro. Ao derrotar as tropas federalistas e as da Armada, os governistas cometeram atrocidades, como fuzilamentos sumários, especialmente em Santa Catarina, segundo atestam os historiadores José Jobson de Arruda e Nelson Piletti, em "Toda a História", da editora Ática, e Maurício de Oliveira em “Chacina em Anhatomirim”, da editora Terceiro Milênio. Apesar da informação de que foram mortos 185 catarinenses em Anhatomirim, o historiador Dante Martorano, já falecido e um dos criadores do Comitê Pro-Mudança do Nome da Capital, dizia que o número de vítimas chegava a 300. Consta que os militares eram fuzilados e os civis enforcados. Grande parte dos mortos era de oficiais do Exército, mas havia desembargadores, juízes e engenheiros, sendo três deles franceses”.
O site www.brasilimperial.org.br/florianópolis também trata desse assunto. Nele está publicado que em uma das dezenas de ilhotas ao redor da Ilha de Florianópolis, ergue-se a Fortaleza de Santa Cruz, onde 185 homens foram fuzilados, degolados ou enforcados em abril de 1894 acusados de conspiração contra o presidente Floriano Peixoto. O lugar tem o nome de Anhatomirim, que em tupi-guarani significa Pequena Ilha do Diabo (na ilustração acima), e os funcionários que lá trabalham falam de sons que parecem passos nos assoalhos, de madeira rangendo ou de correntes sendo arrastadas. "Se eu disser que assombração não existe, elas podem aparecer só para provar o contrário” - afirma um deles. Na verdade, diz o texto “os fantasmas de Anhatomirim estão mais vivos do que nunca na memória de moradores da ilha que é a capital de Santa Catarina”.
Esses fantasmas de hoje faziam parte do grupo de revoltosos da marinha de guerra brasileira, que nos turbulentos anos que se seguiram à proclamação da república se insurgiram contra o governo e tentaram derrubá-lo. Enquanto a insurreição era combatida no Rio de Janeiro (Revolta da Armada), seis navios dos rebeldes zarparam de lá rumo à ilha do Desterro - antigo nome da capital Florianópolis -, aonde chegaram no final de setembro de 1893, apossaram-se dela e a declararam capital da nova república. Três meses depois, o encouraçado Aquidaban, à época o maior navio da Marinha do Brasil, trazia Custódio de Melo, o líder da revolta”.
Mas o marechal Floriano Peixoto reagiu: adquirindo no exterior, às pressas, uma nova frota, ele a enviou com cerca de quinhentos homens liderados pelo coronel Moreira César (abril de 1894), para reconquistar a cidade em mãos dos rebeldes. Missão cumprida, os prisioneiros feitos foram levados para Anhatomirim, onde passaram por humilhações e tortura antes de serem executados sem julgamento. “Entre eles estavam dezenas de moradores acusados de colaboração com os revoltosos, gente que fazia parte da elite social e intelectual da cidade, como o juiz Joaquim Lopes de Oliveira e o comerciante Caetano Nicolau de Moura, além de militares - o marechal Manoel de Almeida Gama d'Eça, o Barão do Batovi, um herói da Guerra do Paraguai, foi uma dessas vítimas”.
Na seqüência dos acontecimentos, o deputado Genuíno Vidal, em abril de 1894, propôs que a vitória do presidente fosse homenageada pelos moradores da ilha com a troca do nome da cidade para Florianópolis, alegando também, mas equivocadamente, que o nome Desterro se originara do fato de a ilha ter sido usada como prisão para criminosos portugueses. Como ninguém contestou a idéia do parlamentar, a ilha do Desterro foi rebatizada, e somente “dois anos depois, quando os jornais de oposição voltaram a circular, foram registrados os primeiros protestos. Em editorial na edição de 3 de julho de 1896, o jornal ‘O Estado’ deu o tom: ‘O tal nome, semelhante a um escarro cuspido em nossa capital, bateu na lâmina limpa de sua cútis, escorreu para baixo e veio emporcalhar aquele que o cuspira".
Muitos anos depois, o movimento Cem Anos de Humilhação reuniu historiadores, advogados e jornalistas em defesa da substituição do nome, admitindo, inclusive, algumas alternativas, como Ilha de Santa Catarina, Ondina, Várzea, Meiembipe (nome dado à ilha pelos índios carijós e que significa Montanha Dentro do Mar) e, até mesmo, a oficialização do apelido Floripa, que para muitos seria suficiente para desvincular a imagem da cidade da de Floriano Peixoto. Mas essa articulação esbarrou na Lei Orgânica do Município, que estabelece que isso só pode ser feito por plebiscito convocado pela Câmara de Vereadores.
O nome Desterro era uma simplificação de Nossa Senhora do Desterro, escolhida para padroeira da povoação fundada pelo bandeirante paulista Francisco Dias Velho em 1675. O desterro de Nossa Senhora deu-se quando Herodes decretou a morte de todas as crianças com menos de dois anos, e Maria fugiu para o Egito a fim de salvar Jesus.





