R a U - TUDO COMO DANTES NO QUARTEL DE ABRANTES
Segundo alguns autores, Abrantes é uma cidade portuguesa construída sobre os restos arqueológicos de um tipo de povoado da Idade do Ferro - os “castros”, ou povoados fortificados -, cujas habitações predominantemente circulares eram feitas com pedras. Ela teria surgido no ano de 130 a.C., durante a Invasão romana da Península Ibérica, por decisão do cônsul Decimus Junius Brutus, cognominado Galaico, ou Galego, que entendendo ser aquele sítio uma encruzilhada de vias terrestres, achou por bem instalar ali, na margem direita do médio rio Tejo, uma guarnição militar.
Em 711 os árabes desembarcaram em Gibraltar, tomaram o sul da Espanha e marcharam para Toledo. De lá, avançaram em direção ao nordeste e ao norte e invadiram a região central de Portugal. Três anos depois, em 714, a maior parte da península ibérica já estava ocupada pelos mouros. Em 1118, ou 1148, Abrantes foi retomada pelas forças de D. Afonso Henriques (1112-1185), que determinou a reconstrução das defesas. Em 1179, sua bem sucedida resistência a uma nova tentativa de invasão árabe foi recompensada com a Carta de Foral, documento que lhe concedia aforamento ou foro jurídico próprio, libertando-a do poder senhorial e colocando-a sob jurisdição exclusiva da Coroa Portuguesa.
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Descontentes com o insucesso árabe em revigorar os estados muçulmanos na Península Ibérica, bem como em suster a reconquista cristã, os adeptos de uma nova potência berbere surgida em Marrocos no século 12 (os almoadas, ou “os que crêem em Deus”) conquistaram o Norte de África, reocuparam grande parte da Espanha e Portugal e ali ficaram até 1492, quando foram definitivamente expulsos das terras que haviam invadido, encerrando, assim, um domínio de quase oitocentos anos.
Entre o que restou fisicamente desse passado encontra-se o Castelo de Abrantes, também denominado Fortaleza de Abrantes, palco e cenário de alguns episódios da história portuguesa. Como o da sua reedificação, por exemplo, ocorrida no quarto final do século 16, ou a adaptação de suas instalações, acontecida no século 18, quando ali se aquartelou um regimento da cavalaria real, ou, ainda, sua ampliação e ocupação pela legião comandada por D. Pedro José de Almeida Portugal (1754–1813), 5.º conde de Assumar e 3º marquês de Alorna. De todas essas passagens históricas a mais importante, devido à sua influência direta e decisiva na história brasileira, teve como fato gerador as guerras napoleônicas, época em que Portugal sofreu as conseqüências de sua posição de aliado tradicional da Inglaterra.
A chamada Guerra Peninsular, que durou de 1807 e 1814, envolveu Portugal, Espanha, Grã-Bretanha e França. Entre os acontecimentos que a precederam, o acordo secreto de Tilsit, firmado com a Rússia em 7 de junho de 1807, previa em seu artigo 2º, que “Cessarão de existir as dinastias dos Bourbon, em Espanha, e dos Bragança, em Portugal. Um príncipe da família do Imperador Napoleão será revestido da Coroa destes Reinos”.
Em Agosto de 1807, representantes da França e da Espanha solicitaram a Dom João, príncipe regente de Portugal, que ele não só aderisse ao bloqueio continental decretado pela França contra a Inglaterra, mas também fechasse os seus portos à navegação britânica e declarasse guerra aos ingleses, prendendo os residentes em Portugal e seqüestrando os seus bens. Mas a decisão portuguesa de manter a neutralidade não satisfez Napoleão, e este, em represália, ordenou em 18 de outubro que o general Jean Andoche Junot (ilustração) invadisse Portugal com 28 mil homens. As tropas francesas entraram, então, na Espanha, atravessaram seu território, alcançaram a fronteira portuguesa em 20 de novembro, e quatro dias depois chegaram a Abrantes, distante de Lisboa cerca de 152 quilômetros. Em todo o percurso os invasores não encontraram qualquer resistência.
O general Junot decidiu parar por ali mesmo para recompor suas tropas desgastadas com a viagem em ritmo forçado, mas ordem expressa de Napoleão o obrigou a continuar marchando em direção a Lisboa. E foi o que ele fez, após selecionar os soldados em melhores condições físicas, deixando o restante aquartelado na cidade recém-ocupada. No dia 30 do mesmo mês, às 9 horas da manhã, o general Junot entrou em Lisboa liderando um exército de 25 mil homens, tendo à sua frente um destacamento da cavalaria portuguesa que se rendera e se pusera às suas ordens. Um dia antes, porém, a Família Real e a corte portuguesa, num total de quinze mil pessoas, haviam zarpado para o Brasil em naus, fragatas, brigues e escunas, deixando para trás apenas uma declaração do príncipe regente, que dizia a certa altura:
(...) Vejo que pelo interior do meu reino marcham tropas do imperador dos franceses e rei da Itália, a quem eu me havia unido no continente, na persuasão de não ser mais inquietado (...) e querendo evitar as funestas conseqüências que se podem seguir de uma defesa, que seria mais nociva que proveitosa, servindo só de derramar sangue em prejuízo da humanidade, (...) tenho resolvido, em benefício dos mesmos meus vassalos, passar com a rainha minha senhora e mãe, e com toda a real família, para os estados da América, e estabelecer-me na Cidade do Rio de Janeiro até à paz geral.
Abandonada pela Corte a população finalmente reagiu em diversos pontos do país, o que permitiu o desembarque de tropas inglesas em solo português e o inicio da luta que resultaria na expulsão dos invasores. Apesar disso, nada mudou em Abrantes durante algum tempo, já que a cidade e o castelo transformado em alojamento militar, continuavam em mãos dos franceses. Por isso os locais, quando perguntados, respondiam que tudo permanecia como dantes no quartel de Abrantes, frase que transmitia o sentimento de inoperância e inconformismo diante da realidade a que se viam sujeitos.
A frase “tudo como dantes no quartel de Abrantes” é usada até hoje para indicar que a lembrança de dias ou situações insatisfatórias permanece viva na memória de alguém.





