Universo - ESTRELAS CADENTES (03)
O primeiro grande avanço no reconhecimento da queda de meteoritos surgiu em 1794, quando E.F. Chladni, advogado e físico alemão, escreveu o livro “Observações Sobre uma Massa de Ferro Encontrada na Sibéria pelo Professor Pallas e Outras Massas desse Tipo, com Algumas Conjecturas Relativas à Conexão com Certos Fenômenos Naturais”.
Nele Chladni relacionava as conhecidas "bolas de fogo" aos meteoritos, mostrando claramente que a origem extraterrestre para estes era a única hipótese que se podia formular diante dos fatos disponíveis. As idéias de Chladni não foram aceitas de imediato. Alguns químicos e mineralogistas do século 18 apresentaram outras idéias, chegando até a sugerir que os meteoritos ou eram provocados por trovoadas atmosféricas. ou então rochas ejetadas por vulcões violentos. A controvérsia foi levada à Academia de Ciências de França, e durou até 26 de Abril de 1803, quando um novo fenômeno veio esclarecer as dúvidas: na aldeia de l´Aigle, na Normandia francesa, uma chuva de fragmentos de um grande meteorito caiu na aldeia e foi observada por centenas de habitantes, na sua maioria homens do campo.
Ao tomar conhecimento da ocorrência a Academia de Ciências de França enviou o físico Jean Baptiste Biot investigar o assunto, e este, no detalhado relatório apresentado em 1807, estabeleceu que as pedras caídas em l´Aigle provinham de uma gigantesca "bola de fogo". O estudo de Biot convenceu a comunidade científica de que Chladni estava correto, e que os meteoritos eram rochas vindas do espaço exterior.
É oportuno referir que em 1796, dois anos após o livro de Chladni, o poeta inglês Robert Southey visitou um tio seu em Lisboa. Quando regressou à sua terra, publicou um escrito sobre um fenômeno que lá observara: "Na tarde do dia 19 de Fevereiro de 1796, próximo de Évora, uma pedra de 10 libras caiu do céu". Chegou mesmo a fazer uma descrição detalhada da amostra, cujo paradeiro hoje é desconhecido, mas escusado será dizer que ninguém acreditou no seu relato. A certeza de que do céu caíam pedras só foi estabelecida dez anos mais tarde pelo físico Jean Baptiste Biot, depois da "chuva" de três mil pedras na vila de l´Aigle.
As “estrelas cadentes” podem ser divididas em dois grupos: as esporádicas, que parecem provir de todas direções, e as radiantes, ou enxames, que resultam do cruzamento da Terra com correntes de meteoróides relacionados com as órbitas de alguns cometas. É o caso do enxame das Perseidas (ilustração acima), que ocorre anualmente em 11 de Agosto, quando todos os meteoros parecem provir da constelação de Perseu. Periodicamente, a Terra, na sua órbita em torno do Sol, encontra enxames de partículas cometárias, produzindo-se, para os observadores noturnos, um inesquecível fogo de artifício celeste.
Talvez a maior “chuva de estrelas” dos tempos históricos, tenha sido em 1833 quando, aos olhos de observadores do Leste dos Estados Unidos, as fagulhas pareciam ser espessas como flocos de neve, e os menos avisados pensaram que as estrelas estavam a cair do céu e o mundo estava chegando ao fim. Os primeiros relatos ocidentais sobre “chuvas de estrelas”, parecem ter sido feitos em Portugal. A página 245 do tomo 3º do ano histórico, encontrado na Torre do Tombo, conta que:
“Reinando em Portugal el-rei D. Pedro I, se viram na noite de 27 de Outubro, ano de 1366, portentosos sinais no céu. Alta noite começaram a mover-se as estrelas com grande velocidade do levante a poente: logo se juntaram umas com as outras, e outra vez se dividiram para diferentes partes também com arrebatado movimento; depois se via que desciam do céu, como grandes poeiras, e que nele ficavam vazios os espaços de onde as estrelas faltavam. Durou este horrendo espetáculo largo espaço à vista de infinitos olhos, de gente infinita, que cheia de temor e horror, cria que se acabava o Mundo.
Alguns enxames apresentam periodicamente autênticas “tempestades de meteoros”. Essas tempestades, na maior parte das vezes imprevisíveis, geram uma média de milhares de meteoros por hora, como aconteceu na noite de 9 de Outubro de 1933 e da qual existem fantásticos relatos visuais. Nesse dia, o céu da Europa Ocidental foi riscado pelos rastos dos meteoros da cabeça do Dragão, uma constelação polar facilmente reconhecível. No dia seguinte o “Jornal de Notícias”, da cidade do Porto, relatou o fenômeno da seguinte maneira:
“A noite de ontem, luminosa, permitiu ver um fenômeno conhecido, mas que sempre infunde os maiores receios às populações. Desde que anoiteceu, o espaço foi cruzado por milhares de estrelas cadentes, constituindo um espetáculo magnífico, presenciado por toda a população. Os aerólitos luminosos cortaram a atmosfera de todos os lados, do nascente para o poente e de norte para sul. Em algumas cidades vizinhas - Rio Tinto, S. Mamede, Águas Santas, etc. - a população veio às ruas com algum sobressalto. Alguns populares quiseram ver no fenômeno “sinais de guerra” ou castigo dos Deuses”…
Essa “tempestade”, conhecida como Dracônidas ou Giacobinidas (ilustração acima), está associada ao cometa Giacobini-Zinner, sendo o seu número irregular e de difícil previsão.
Das “chuvas de meteoros” mais importantes as Perseidas são, sem dúvida, as de maior destaque. Seus rastos permanecem visíveis durante duas a três semanas, com maior intensidade em 12 de agosto, quando é possível observar, em média, cerca de 70 meteoros por hora, e sua atividade está relacionada com a órbita do cometa Swifft-Tuttle. Também importante são as Leônidas, associadas ao cometa Tempel-Tuttle, que nos últimos anos tem mostrado uma apreciável atividade.





