Período colonial - 1808 - CAÍQUE BOM SUCESSO II
Recebi do leitor Henrique Alexandre da Fonseca (www.fonsecas&netcabo.pt), de Lisboa, Portugal, um e-mail dizendo: “Amigos: sou português, algárvio, descendente de um dos tripulantes do caíque. Pertenço a um grupo que está a estudar a viabilidade de repetir no verão de 2008, esta viagem numa embarcação propriedade da Câmara de Olhão e réplica do caíque Bom Sucesso. Precisamos de apoios aí no Brasil. Sabem indicar-nos possíveis interessados (pessoas e empresas) em patrocinar esse evento cultural? Agradeço me contatem e me enviem os vossos comentários. Cumprimentos”. (O verão, no Hemisfério Norte, acontece no período que vai de 21 de junho a 23 de setembro).
Respondi recomendando-lhe que procurasse um conhecido navegador solitário porque ele talvez se interessasse pelo projeto. Não sei no que deu, mas como o amigo Fonseca, gentil e educado como costumam ser todos os portugueses que me honram com sua atenção, também enviou um texto seu - A Viagem do Caíque Bom Sucesso – De 6 de julho a 22 de Setembro de 1808) -, por sinal muito mais minucioso e esclarecedor do que aquele que escrevi sobre o mesmo assunto, tomo a liberdade de publicá-lo da forma como o recebi, porque ele merece realmente tornar-se acessível a quantos desejem conhecer maiores detalhes da arriscada aventura vivida pelos intrépidos marinheiros algarvienses. Vamos a ele, então:
No início do século XIX Portugal vivia uma situação política muito delicada. Sob a pressão simultânea da França e da Inglaterra, o Príncipe Regente D. João, futuro D. João VI, procurava desesperadamente manter-se neutral. Mas neutrais são os países fortes, que o podem ser, e não aqueles que apenas o desejam... e o dilema político era fácil de equacionar. Uma aliança com a França significava o fim do lucrativo comércio com o Brasil, a perda da colônia e das ilhas adjacentes, e – como então aconteceu com a cidade de Copenhaga – o possível bombardeamento de Lisboa e a destruição de nossa esquadra pela “Royal Navy”. A manutenção dos tradicionais laços com a potência marítima, a Inglaterra, contudo, não teria conseqüências menos gravosas: uma possível invasão do reino por tropas francesas e a queda da dinastia de Bragança. E foi o que veio a acontecer no outono de 1807. O imperador dos franceses, Napoleão, insatisfeito com a forma tímida e pouco empenhada como o governo português deu cumprimento ao “bloqueio continental”, determinou a invasão de Portugal por tropas francesas e espanholas, sob o comando do general Junot. E no tratado de Fontainebleau acordou com a Espanha a queda da Casa de Bragança e a divisão de Portugal em três pequenos estados.
A entrada de tropas estrangeiras em território nacional forçou o Príncipe Regente a tomar a decisão de transferir a Corte para o Brasil, dando corpo a um plano há muito gizado e a que a Inglaterra dava seu apoio. Assim, mais de 10.000 pessoas, os seus haveres pessoais, os arquivos do Estado e muitas riquezas embarcaram na Esquadra e nos navios mercantes surtos no Tejo. Esta imensa frota, de mais de cinqüenta navios, saiu a barra a 29 de novembro de 1807, para desespero de Junot, que entrou em Lisboa no dia seguinte e que de Oeiras... “ficou a ver navios”...
Embora o Príncipe Regente tivesse dado ordens para que não houvesse resistência, a ocupação de Portugal por tropas francesas e espanholas não se fez pacificamente. Junot dissolveu o exército português, enviando os seus melhores quadros – a Legião Lusitana – para França e demitiu a Junta de Regência, que D. João havia nomeado; lançou pesados impostos, a que acresciam os desmandos, roubos e saques que a maioria dos franceses, do soldado ao general, se não coibiam de fazer. O espírito de revolta das populações, o desejo de liberdade, sempre latentes, começaram a crescer... Entretanto, sucedem-se em Espanha curiosos desenvolvimentos políticos: o Rei e o Príncipe herdeiro desentendem-se por causa do primeiro-ministro, Manuel Godoy, e Napoleão, num gesto de aparente apaziguamento, chama ambos a Bayona; mas tudo não passava de uma armadilha, pois ali mesmo os dois foram feitos prisioneiros. O Imperador nomeou então o seu irmão José Bonaparte, rei de Espanha. Os espanhóis, porém, reagiram violentamente: as manifestações de Madrid deram origem aos massacres do “Dos de Mayo”, pelas províncias surgiram diversas “Juntas de Governo”, e começou a guerrilha dando início à “Guerra da Independência”.
A esta altura era Olhão apenas uma pequena povoação de pescadores, uma freguesia recente, mas em rápido crescimento. A sua população, de cerca de 5.000 habitantes, vivia da pesca e do comércio marítimo. Uma pequena guarnição de 24 franceses fazia cumprir as ordens de Junot, que proibiam as viagens para longe, para Gibraltar e Marrocos, e que taxavam fortemente a pesca, para grande insatisfação dos olhanenses. O primeiro sinal de revolta foi dado por João da Rosa, Escrivão do Compromisso Marítimo, que contrariando as ordens em vigor destapou, na Igreja Matriz, quando das festas de Santo Antonio, as armas reais dos Bragança. Mas só alguns dias depois a revolta eclodiu, mais exatamente a 16 de junho. O Coronel Lopes de Souza, ao aproximar-se da Igreja Matriz para assistir à Missa dominical, ouviu ler um edital de Junot, e logo de viva voz se insurgiu, dizendo mesmo que “já não havia portugueses como os de outrora...”. Levantou-se então grande burburinho e logo ali a população o nomeou seu Capitão, dirigindo-se todos em seguida para o quartel da guarnição francesa a fim de os prender, como efetivamente aconteceu.
O Governador francês do Algarve, ao saber destes acontecimentos, procurou concentrar suas forças em Faro, para submeter os revoltosos. Sabendo destes movimentos os olhanenses atacaram de surpresa três embarcações que navagavam pela ria, vindas da Vila Real de Santo Antônio, capturando cerca de 80 franceses e, mais importante, o respectivo armamento e munições. Em seguida, montaram com sucesso uma emboscada na ponte de Quelfes, provocando a uma coluna de cerca de duzentos granadeiros, muitas baixas entre mortos e feridos. Na tarde desse mesmo dia, 18 de junho, na Maia-Légua, entre Faro e Olhão, defrontaram-se de novo as milícias olhanenses e as forças francesas, registrando-se algumas baixas de ambos os lados. No dia seguinte, 19 de junho, revolta-se também a população de Faro, situação que depois se estendeu a todo o reino do Algarve, o que obrigou as forças francesas a fugirem sem demora para lá da serra do Caldeirão.
Constituiu-se então em Faro um Supremo Conselho de Regência, sob a liderança do Conde de Castro Marim, que organizou a defesa e tomou as primeiras medidas de caráter político-militar. Mas tornava-se necessário levar ao Príncipe Regente, no Rio de Janeiro, a notícia do patriótico levantamento no reino do Algarve, bem como solicitar a sua concordância para as decisões entretanto tomadas. Um olhanense, Miguel de Ó, membro do Conselho de Regência, cede a sua embarcação, o caíque “Bom Sucesso”, e de imediato se voluntariam 17 “algarvenses”, como os jornais da época lhes chamaram, para fazer a arriscada viagem, levando como piloto Manuel de Oliveira Nobre, e como mestre Manuel Martins Garrocho.
O caíque era uma embarcação muito comum na costa do Algarve, de cerca de 18 metros de comprimento e 5,5 metros de boca, deslocando cerca de duas mil arrobas, ou trinta toneladas. O casco tinha formas alongadas, a proa era ligeiramente levantada, a popa baixa e rasa possuía um convés corrido. Armava dois mastros pequenos e fortes, divergentes para cima, onde trabalhavam dois bastardos. As suas duas velas latinas tinham uma superfície vélica de cerca de 150m2, e em situações de calmaria podiam também armar três pares de remos. A sua característica armação vélica, semelhante à das caravelas, tornava-os velozes e de fácil manobra, e o pano latino permitia-lhes bolinar, ganhando caminho contra a direção do vento. Eram estas embarcações as mais usadas na pesca do alto, ao largo da costa do Algarve, mas também nos mares de Larache e noutras áreas de Marrocos. Os “caíques de carrego” transportavam pessoas e mercadorias em viagem de cabotagem ao largo da costa portuguesa. E algumas fortunas em Olhão se terão feito, certamente, com o contrabando e o tráfego para Gibraltar, quando dos diversos cercos a que esta praça esteve sujeita no século XVIII.
A viagem iniciou-se no dia 6 de julho de 1808, precedida de solene missa de despedida na igreja de Nossa Senhora do Rosário. A primeira escala foi na cidade de Funchal, onde ganharam um tripulante adicional: um jovem praticante de piloto, Francisco Domingos Machado, que ali se lhe juntou. As informações que existem sobre a viagem não são muitas. Parece que não dispunham de instrumentos de navegação e apenas de uma carta de grande escala. Navegando para sul e para oeste, arrostando com tempestades e calmarias, a embarcação foi sendo levada pelos ventos gerais e pelas correntes te a costa da América do Sul. Verificaram então estarem na Guiana, perto de Caiena, colônia francesa e, portanto, inimiga. Tiveram assim de se fazer de novo ao mar e progredir para sul, contra a corrente e com ventos adversos, certamente com longos períodos vencidos a reme. Mas passado o cabo Santo Agostinho voltaram a ter ventos e correntes favoráveis e escalaram Pernambuco, após mais de mês e meio entre mar e céu. E continuaram para o sul, ao longo da costa, até ao Rio de Janeiro, porto aonde deram entrada a 22 de setembro de 1808, concluindo assim com sucesso a missão que lhes havia sido confiada.
A sorte protege os audazes, diz-se, e assim foi o caso. Uma pequena embarcação de pesca do alto fez mais de cinco mil milhas em mar aberto, arrostando com ventos fortes e mares encapelados, e atravessando áreas freqüentadas por navios negreiros e onde operavam numerosos corsários franceses. Esta viagem suscitou grande admiração na época, designadamente no Rio de Janeiro, sendo a guarnição do caíque alvo de muitas homenagens. Até José Agostinho de Macedo, padre e escritor famoso, celebrizou a façanha dedicando-lhe um poema épico, “O Novo Argonauta”, publicado em 1809, de que se transcrevem os seguintes versos:
“Talvez ignore o frígido Tamisa,/ e o Sena transformado em sangue e luto, / que o Atlântico mar banhe a pequena / e mal sabida Olhão: he esta a pátria / do novo heroe, do vencedor dos mares / Co’as frágeis armas d’hum batel pequeno / cuja façanha audaz deixa esquecidos / de América, e Colombo o nome, e os feitos.
O Príncipe Regente D. João recompensou com generosidade a guarnição do caíque: comprou-lhes a embarcação por seis mil cruzados; o piloto Oliveira Nobre foi nomeado capitão do porto de Olhão, e a muitos outros tripulantes foram atribuídas outras funções autárquicas. Foi-lhes ainda concedido o hábito da Ordem de Cristo com uma tença (pensão) anual, bem como postos na Marinha de Guerra e – talvez o mais importante para pescadores – as suas embarcações passaram a ficar isentas do imposto do pescado. Reconhecendo as ações patrióticas dos olhanenses, D. João respondeu ainda ao pedido de alvíssaras, atribuindo o estatuto de Vila a Olhão, que desde então se passou a designar por “Vila de Olhão da Restauração”. Além disso, D. João fez do Conde de Castro Marim o primeiro marquês de Olhão.
Algumas famílias tradicionais de Olhão, descendentes destes valorosos mareantes, conservam ainda hoje as relíquias deste tempo, tais como espadins e medalhas oferecidas pelo Príncipe Regente, e pergaminhos amarelecidos pelo tempo com os alvarás de nomeação para cargos autárquicos ou para isenção do imposto do pescado. Quem não tem passado, não tem presente, e quem não tem presente, não tem futuro! O espírito de coragem e determinação que os olhanenses mostraram no passado estará certamente presente, duzentos anos volvidos, nos desafios atuais e na afirmação de “Olhão da Restauração”, hoje já cidade, como um dos municípios mais prósperos e desenvolvidos do Portugal do futuro.
Lisboa, 27 de dezembro de 2007
Henrique Alexandre da Fonseca
(Naa ilustrações feste texto, vistas do porto de Olhão)





