Período republicano - 1968 - DISCURSO QUE MUDOU O BRASIL - (2)

Em setembro de 1968, um discurso do deputado Marcio Moreira Alves (na ilustração acima), pronunciado no pinga-fogo da Câmara, que em geral não obtém maiores repercussões, virou motivo para uma radical e desproporcional reação dos setores militares que só cessaria com a edição do AI-5, quatro meses após. Márcio propunha um boicote nas festas militares de setembro por parte dos pais impedindo os filhos de desfilar e namoradas de dançar com cadetes e jovens oficiais. Além de fazer críticas aos militares.

 

A partir do discurso de Márcio, o Congresso viveu em torno das suas conseqüências, diante da valorização que setores radicais da área militar deram ao fato. Era também a oportunidade de endurecer o regime (trecho transcrito do site Política para Políticos).

 

O pronunciamento do deputado Márcio Moreira Alves, que serviu como ponto de partida para a mudança que ocorreu no país, teve o seguinte teor: 

 

Senhor presidente, senhores deputados,

 

Todos reconhecem, ou dizem reconhecer, que a maioria das forças armadas não compactua com a cúpula militarista que perpetra violências e mantém este país sob regime de opressão. Creio ter chegado, após os acontecimentos de Brasília, o grande momento da união pela democracia.

 

Este é também o momento do boicote. As mães brasileiras já se manifestaram. Todas as classes sociais clamam por este repúdio à polícia. No entanto, isto não basta. É preciso que se estabeleça, sobretudo por parte das mulheres, como já começou a se estabelecer nesta Casa, por parte das mulheres parlamentares da ARENA, o boicote ao militarismo.

 

Vem aí o 7 de setembro. As cúpulas militaristas procuram explorar o sentimento profundo de patriotismo do povo e pedirão aos colégios que desfilem junto com os algozes dos estudantes. Seria necessário que cada pai, cada mãe, se compenetrasse de que a presença dos seus filhos nesse desfile é o auxílio aos carrascos que os espancam e os metralham nas ruas.

 

Portanto, que cada um boicote esse desfile. Esse boicote pode passar também, sempre falando de mulheres, às moças. Aquelas que dançam com cadetes e namoram jovens oficiais. Seria preciso fazer hoje, no Brasil, que as mulheres de 1968 repetissem as paulistas da Guerra dos Emboabas e recusassem a entrada à porta de sua casa àqueles que vilipendiam-nas. Recusassem aceitar aqueles que silenciam e, portanto, se acumpliciam.

 

Discordar em silêncio pouco adianta. Necessário se torna agir contra os que abusam das forças armadas, falando e agindo em seu nome. Creia-me, senhor presidente, que é possível resolver esta farsa, esta democratura, este falso impedimento pelo boicote. Enquanto não se pronunciarem os silenciosos, todo e qualquer contato entre os civis e militares deve cessar, porque só assim conseguiremos fazer com que este país volte à democracia.

 

Só assim conseguiremos fazer com que os silenciosos que não compactuam com os desmandos de seus chefes, sigam o magnífico exemplo dos 14 oficiais de Crateús que tiveram a coragem e a hombridade de, publicamente, se manifestarem contra um ato ilegal e arbitrário dos seus superiores.

 

 

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