Greco-romana - ALCESTES

Asclépio (Esculápio) filho de Febo (Apolo), foi dotado pelo pai de tal habilidade na arte de curar que chegava até mesmo a restituir a vida aos mortos. Hades (Plutão), deus do mundo subterrâneo (ou reino dos Infernos), aborreceu-se com isso e conseguiu que Zeus (Júpiter) o fulminasse com um raio. Apolo indignou-se com a morte do filho e tratou então de vingar-se nos inocentes trabalhadores que haviam construído o raio.

 

Eram os ciclopes, gigantes dotados de extraordinária força física e com um único olho no centro da testa, que tinham sua oficina sob o monte Etna, na Sicília, de onde estão constantemente saindo as chamas e a fumaça provindas dos fornos usados por eles. Apolo desfechou suas setas contra os ciclopes, o que irritou Júpiter a tal ponto que o fez condenar o agressor à pena de tornar-se servo de um mortal durante um ano. Assim, o deus penalizado foi servir a Admeto, rei da Tessália, tomando conta de seus rebanhos nas verdejantes margens do rio Afrisos.

 

Admeto era um dos que pretendiam tomar como esposa a jovem Alcestes, filha de Pélias, prometida pelo pai àquele que a fosse procurar num carro puxado por leões e javalis. O soberano realizou essa tarefa com a ajuda de seu divino pastor, e diante disso levou a jovem princesa consigo, para os seus domínios. Porém, não muito tempo havia decorrido quando ele adoeceu seriamente, e como estava muito mal, praticamente às portas da morte, Apolo, que ainda continuava como seu servo, conseguiu convencer as Parcas a poupá-lo, desde que alguém se dispusesse a morrer em seu lugar. Alegre com essa esperança, Admeto não se preocupou muito com o resgate, talvez se lembrando dos protestos de dedicação que ouvira muitas vezes da boca dos cortesãos e dos servos.

 

Pensou que seria muito fácil encontrar um substituto, mas tal não se deu. Guerreiros valentes, que de boa vontade arriscavam a vida por seu príncipe, recuavam ante a idéia de morrer por ele num leito de enfermo, e os servos que lhe deviam benefícios e que se encontravam a serviço de sua casa desde a infância, não se dispunham a sacrificar os poucos dias que lhes restavam para mostrar sua gratidão. “Por que um de seus pais não se sacrifica”, perguntavam. “De acordo com as leis da natureza, eles não poderão viver muito mais. E quem estará mais indicado que eles para resgatar uma vida a que deram origem?”.

 

Contudo os pais, por mais pesarosos que estivessem ante a iminência de perder o filho querido, não atendiam ao apelo para salvá-lo. Foi então que Alcestes, com admirável abnegação, não hesitou em apresentar-se como substituta. Admeto, por mais amor que tivesse à vida, não desejava mantê-la a tal custo, mas infelizmente não havia remédio. A condição imposta pelas Parcas fora atendida, e como o decreto era irrevogável, Alcestes adoeceu. E enquanto ela se aproximava rapidamente da sepultura, Admeto recuperava a saúde completamente (na ilustração, pintura de Pierre Peyron-1794 retratando a morte de Alcestes).

 

Justamente nessa ocasião Hércules chegou ao palácio de Admeto e encontrou todos os moradores muito pesarosos ante a iminência do falecimento da dedicada esposa e querida senhora. Como para o herói grego não havia trabalho árduo, ele resolveu tentar salvar a rainha. Ficou na porta do seu quarto e, quando a Morte chegou à procura da presa, agarrou-a e obrigou-a a desistir de sua vítima. Alcestes restabeleceu-se e foi restituída ao marido.

 

Sobre essa passagem mitológica, o Soneto sobre a esposa morta, de Milton, faz alusão a Alcestes com os seguintes versos:

 

Tive a impressão de ver minha esposa querida

Voltando a consolar a minha desventura.

Como Alcestes também roubada à sepultura

Pelo filho de Jove, pálida e abatida.

 

 

Fonte: O Livro de Ouro da Mitologia, de Thomas Bulfinch

 

 

 

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