E a H - ESPÁRTACO

O pacato trabalho do jovem Espártaco certamente não lhe reservava o lugar que ocupa na história - nada indicava que o pastor trácio viesse a liderar milhares de homens na maior revolta armada de escravos de que se tem notícia. E foi Roma, a vítima de sua rebeldia,  que o iniciou na vida militar: quando, no século 1 antes de Cristo, os romanos invadiram a região balcânica da Trácia, pilhando e escravizando os vencidos, Espártaco emigrou para a Ásia e, ao que parece, alistou-se no exército de Mitrídates, rei do Ponto. Aprisionado numa batalha da Ásia Menor, foi automaticamente escravizado. O romano Lêntulo Batiato, que possuía em Cápua a melhor escola de gladiadores de toda a Itália, comprou-o, impressionado com seu vigor e sua habilidade no manejo das armas (na ilustração, Espártaco por Denis Foyatier, 1830, Museu do Luvre, Paris).

 

Os espetáculos de gladiadores e feras, na arena dos circos, eram então muito comuns. Os patrícios pretendentes a cargos públicos ofereciam-nos à plebe, a fim de angariar seus votos. Os gladiadores eram escravos, naturalmente bem alimentados e cuidados, mas sujeitos ao resultado das lutas de que participavam - muitas vezes a derrota significava a morte. Bom gladiador, Espártaco ganhou prestígio entre seus colegas e logo passou a incutir o espírito de rebeldia contra sua condição de escravos. Num dia do ano de 73 antes de Cristo, juntamente com Crixo e Enomau, originários da Galácia, antiga região da parte central da Ásia Menor, ele liderou a fuga de todos os 74 escravos da escola de Batiato, organizando com eles um bando armado. Durante uns dois anos, à frente de seu pequeno exército, Espártaco viveu de assaltos a vilas romanas, pilhando e massacrando seus proprietários. Logo outros escravos fugitivos vieram juntar-se a ele, nascendo, assim, a história épica de um dos mais célebres chefes rebeldes de todos os tempos.

 

O número de escravos nos domínios romanos era enorme. Embora muitos deles já tivessem nascido sem liberdade (os vernae), a maior parte era constituída pelos mancipia, ou seja, homens livres escravizados. Não só os prisioneiros de guerra contra povos estrangeiros eram escravizados - o mesmo ocorria com cidadãos romanos vencidos em guerras civis e com os devedores que não conseguiam saldar suas dívidas no prazo combinado. O bando de gladiadores, acampado nas encostas do Vesúvio, recebeu a adesão de centenas de escravos e também de plebeus famintos, entre os quais era igualmente grande a insatisfação. Para desbaratá-los, um exército romano com cerca de 3.000 homens cercou o Vesúvio, mas os rebeldes romperam o cerco sem muita dificuldade e dispersaram os sitiantes. A partir dessa vitória, em pouco tempo os quinhentos homens do Vesúvio já somavam mais de mil. Com eles Espártaco organizou um verdadeiro exército e marchou em direção ao sul, para a província montanhosa de Lucânia.

 

Quando esses homens destruíram a cidade de Nola, o Senado romano compreendeu o alcance da ameaça que pesava sobre a capital do mundo e sua ordem escravista, e por isso entregou ao cônsul Públio Verínio Glaber a tarefa de combatê-la. Este, à frente de suas tropas, marchou ao encontro do inimigo, sendo derrotado, porém, em sucessivas batalhas. Chegando a Túrio, o exército rebelde acampou nos arredores da cidade, estabelecendo um acordo com os comerciantes e com a prefeitura da cidade. Emissários de Espártaco agitavam todo o sul da Itália, trazendo novos reforços aos rebeldes, que agora somavam 70.000. Os historiadores romanos Apianc e Salústio relatam que no acampamento os rebeldes tinham vida austera: o ouro, símbolo da corrupção, tinha sido abolido. Os ex-escravos mais cultos, em sua maioria sírios e gregos,  instruíam os que desejassem. Segundo Salústio (83-35 a.C.), Espártaco era “grande no corpo e na alma, agindo principalmente pela persuasão, e não pelos métodos da feroz e desumana disciplina militar” (na ilustração, estátua de Espártaco no Jardins das Tullerías, em Paris).

 

Em Túrio, através de um de seus informantes, Espártaco soube que um grande exército romano, comandado pelos cônsules Gélio Publícola e Cornélio Lêntulo, preparava-se para atacar os insurretos. Não se intimidando com essa informação, o ex-escravo marchou com seus homens rumo ao norte, para enfrentar o inimigo. Seu companheiro Crixo, que chefiava uma das tropas rebeldes, venceu a batalha de Gárgano, mas logo após foi massacrado. No Sâmnio, Espártaco conseguiu desbaratar as legiões romanas, e, às margens do Pó, decidiu avançar sobre Roma. Dominada pelo pânico, a cidade só foi salva pela hesitação dos invasores, o que permitiu a recomposição militar dos romanos comandados por Marco Licínio Crasso (114-53 a.C.). Este afastou os atacantes, e pouco a pouco os foi encurralando no extremo sul.

 

Mais uma vez, contudo, Espártaco realizou façanha notável. Valendo-se da escuridão noturna ele lançou pontes pré-fabricadas sobre as trincheiras que Crasso mandara escavar e tinha como inexpugnáveis, rompendo o cerco e fugindo para o norte com seu exército faminto e já pouco numeroso. Imaginando que os adversários atacariam Roma, Crásso mandou chamar Pompeu (106-48 a.C.) e suas legiões, na Espanha. Ameaçado por este exército que penetrava na Itália, pela Gália, ao qual se juntou o de Crasso, que avançava para o norte, Espártaco travou, então, a última batalha, que aconteceu às margens do rio Silaro, na Lucânia, no ano de 71 antes de Cristo. Debilitado pelas derrotas anteriores e enfrentando forças muito superiores, foi finalmente vencido. Sobre tal desenlace, o historiador Salústio assinalou que “Os rebeldes morreram como guerreiros, e não como escravos”.

 

 

 

 

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