A a D - CABOCLO D\'ÁGUA

O vale do São Francisco é rico em histórias sobre seres fantásticos que habitam suas águas. Uma delas fala sobre o caboclo d’água, ou nego d’água (na ilustração ao lado e abaixo, estátua no rio São Francisco, na colônia de pescadores do Angary, em Juazeiro-BA), um gigante que dizem morar numa gruta de ouro existente no lugar mais profundo do rio, e que se diverte prejudicando a vida dos pescadores, afugentando os peixes ou virando suas canoas. Conta a lenda que quando os ribeirinhos se sentem perseguidos por essa entidade fantástica, oferecem a ela um pedaço de fumo: o monstro fica contente com o presente recebido e os deixa em paz. Um outro recurso usado para afugentá-lo é pintar na parte submersa do casco da embarcação uma estrela branca, porque ela mantém o caboclo d’água à distância.  

 

Ninguém sabe dizer quando essa crendice começou, mas conta-se que o chefe de uma tribo de índios das margens do São Francisco resolveu mudar-se para a cidade dos brancos, e que no caminho para lá, quando descansava à noite, foi acordado por uma voz forte que entoava estranha canção. O indígena levantou-se, aproximou-se da margem, e viu um gigante de pé sobre uma pedra no meio do rio. Prestando mais atenção o moço percebeu sob as águas o brilho de uma enorme gruta de ouro iluminada pelo luar. Então ele pensou: “vou guardar bem onde fica esse lugar, e mais para frente, quando eu já tiver feito amizade com os brancos, voltarei aqui para buscar todo esse ouro”.

 

E foi o que ele fez. Meses depois, quando já era conhecido na cidade, o índio entendeu que chegara a hora de buscar o ouro do gigante. Então ele escolheu as pessoas que iriam acompanhá-lo na expedição, mas na véspera da partida foi procurado por uma índia velha que lhe aconselhou a não fazer o que pretendia. E o preveniu: “Não brinque com isso. A essa hora o caboclo d’água já sabe da sua intenção, e se você se aproximar da gruta onde ele mora, não escapará da morte”. Mas o chefe não se importou com o aviso e partiu em busca do tesouro.

 

Os homens chegaram à noite no lugar que buscavam e se ajeitaram para dormir. Mas de manhãzinha eles deram pela falta do índio e por isso trataram de procurá-lo pelas redondezas, gritaram seu nome muitas vezes, mas tudo em vão. Então alguns membros do grupo fizeram uma última tentativa: mergulharam e acabaram encontrando o corpo do desaparecido sob umas pedras, quase enterrado no lodo do rio. O caboclo d’água tinha vindo durante a noite e arrastara o cobiçoso para as profundezas das águas, tal como tinha avisado a velha índia.

 

O site da Prefeitura Municipal de Juazeiro, na Bahia, fornece a seguinte informação sobre essa criatura: “O Nego D’ Água vive no fundo do rio São Francisco. Dizem que ele é meio homem e meio lontra. Conhecido também como compadre das águas, segundo ribeirinhos, ele arrasta as mulheres bonitas que encontra nas margens do rio e leva para o seu reino. Os homens que não ouvem seus apelos, oferecendo-lhe fumo, ele leva-os para o seu reino como escravos. O Nego D’Água gosta de batuque nas proas das embarcações e tem o poder de naufragá-las”. Já o do IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio-Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, esclarece que “A comunidade ribeirinha do Rio São Francisco conta que nas águas dos rios vive uma figura lendária, o Nego D’Água, que vive nas profundezas do rio, importunando lavadeiras e pescadores que não o agradam com presentes como fumo de mascar e pinga. Contam que o Nego D’Água costuma virar as canoas dos pescadores que teimam em pescar durante a Piracema ou que utilizam técnicas de pescaria que prejudicam o ambiente das águas. O Nego D’Água também é um sedutor e costuma fazer amor com as lavadeiras mais ousadas, que aparecem grávidas sem que se saiba quem é o pai da criança”.

 

P.S.: Leia também Nêgo D'água.

 

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Comentários:

  1.   Ingride Carlota Reimer Rossi  ([email protected]) diz:

    Parabéns ao Sr. Fernando Kitzinger Dannemann pela exímia e perfeita forma como apresenta os assuntos, alías todos. Muito bom. Encontrei tudo do que precisava e desejava. A internet e o trabalho de alguns é uma ferramenta deveras importante: ninguem necessita mais se aventurar em bibliotecas incompletas, em viagens aos locais para informações (exceção de fotografias e a emoção de ver!) para conseguir algo de difícil acesso, de outras e tantas regiões do Brasil, e mais, apresentado com detalhes até das origens). É um trabalho gigantesco de pesquisas! Obrigada Sr. Fernando.