N a Q - QUIBUNGO
O Quibungo é uma criatura estranha que aparenta ser homem e animal, ao mesmo tempo. No dizer do historiador, antropólogo e folclorista Luis da Câmara Cascudo (1898-1986), “ele é o papão negro que se domiciliou na Bahia, vivendo nas histórias populares”. Sua origem é africana, tendo chegado ao Brasil através dos bantus que para aqui foram trazidos como escravos, mas curiosamente, apesar desses cativos terem se espalhado por várias regiões da então colônia portuguesa, a lenda não os acompanhou, como seria natural, pois permaneceu baiana. Como bem disse Basílio de Magalhães (1874-1957), grande estudioso da História, das tradições e do folclore brasileiro, “nem mesmo Sergipe, que é ‘fruta baiana’, recebeu a visita do animalejo”.
A descrição mais conhecida do Quibungo é a de que se assemelha a um macaco, apoiando-se nos membros superiores para movimentar-se tal como fazem os gorilas. Peludo, de cabeça grande, extremamente voraz e feio, sua característica principal é a grande boca que tem nas costas, que se abre e se fecha conforme ele abaixa e levanta a cabeça. Pouco inteligente, é uma criatura que se deixa apanhar com relativa facilidade, podendo ser morta a tiro, facada, paulada ou qualquer outra arma, sem que para isso seja necessário maior trabalho. Nessas horas, segundo a lenda, ele demonstra que também é medroso e covarde, pois sempre morre gritando apavorado.
Sua alimentação preferida são as crianças, que ele captura e joga dentro da boca nas costas, mas nada o impede de fazer a mesma coisa com mulheres que porventura caiam em suas mãos. Também chamado kibungo, ou chibungo, as histórias a seu respeito quase sempre são apresentadas na forma de conto com trechos cantados, conforme se observa em A menina e o quibungo, uma pequena fábula do médico psiquiatra, folclorista e antropólogo brasileiro, Arthur Ramos de Araújo Pereira (1903-1949), incluída em seu livro O folclore negro do Brasil, publicado em 1935, cujo texto é o seguinte:
“Uma menina gostava muito de sair de noite. A mãe ralhava com ela, chamando-lhe a atenção para o quibungo que pega os meninos de noite. A menina não se importou, e uma noite o quibungo a agarrou e ia levando-a para comer. A menina começou a cantar:
- Minha mãezinha / Quibungo tererê / Do meu coração / Quibungo tererê / Acudi-me depressa / Quibungo tererê / Quibungo quer me comer.
Ao que a mãe da menina respondeu:
- Eu bem te dizia / Quibungo tererê / Que não andasse de noite / Quibungo tererê.
A menina continuou gritando, mas ninguém quis acudi-la. Porém, a avó pegou um tacho com água fervente, e quando o quibungo ia passando jogou-lhe a água em cima. O quibungo deu um pulo e a velha acabou matando-o com um espeto em brasa, salvando assim a sua neta”.
Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906) foi um médico legista, psiquiatra, professor e antropólogo brasileiro. Ele também estudou essa estranha criatura, tendo, inclusive, publicado diversos contos a seu respeito. Um deles, O Kibungo e a cachorra, tem o seguinte texto:
Foi um dia uma cachorra cujos filhos, todas as vezes que ela paria, eram comidos pelo kibungo. Então, para poder livrar os novos filhos do kibungo que queria comê-los, meteu-os num buraco e ficou sentada em cima, vestida com uma saia e um colar no pescoço. Chegando o kibungo e vendo a cachorra assim vestida, a desconheceu e teve medo de aproximar-se. Então, passando o cágado, ele perguntou-lhe:
- Otavi, ôtavi, longôzôê / ilá ponô êfan / i vê pondêrêmun / hôtô rômen i cós / issenta ni ananá ogan / nê sô arôrô ale nuxá.
O cágado respondeu: - Não sei, kibungo.
Passou a raposa. Kibungo fez a mesma pergunta cantando, e a raposa respondeu que não sabia. Passou, então, o coelho, e o kibungo fez-lhe a mesma pergunta; foi quando este disse:
- Ora, kibungo, você não conhece a cachorra vestida de saia e colar no pescoço?
Aí, o kibungo correu atrás da cachorra para matá-la, e esta atrás do coelho. Nesta carreira entraram pela cidade. Os homens mataram o kibungo e a cachorra matou o coelho. Entrou por uma porta saiu pela outra, rei meu senhor, que me conte outra.
Câmara Cascudo, em Geografia dos Mitos Brasileiros, sugere que o Quibungo possa ser uma assimilação do “Homem do Surrão que pega menino”, criatura folclórica que faz parte das histórias portuguesas, e que seria, segundo o folclorista, "um homem velho, esfarrapado, sujo e muito feio, que procura agarrar as crianças vadias ou descuidadas, e metê-las num grande saco de couro, de abertura larga. Não se sabe como morrem as crianças. Se o Homem as come ou mata-as pelo prazer de matá-las. Cada criança que o Homem segura é sacudida no surrão que se fecha. Para este movimento é preciso que o Homem baixe a cabeça. O surrão abre-se. Presa a criança, fechado o saco, o Homem ergue a cabeça. São as atitudes do Quibungo com sua imensa bocarra. Pela descrição, a boca do Quibungo é um saco”.





