Greco-romana - HÉRCULES 03 - CORÇA DE CERINÉIA, A
Segundo a mitologia grega, as Plêiades, ou Atlântidas, filhas do titã Atlas com a ninfa Pleione, eram sete, embora outras versões enumerem quinze. Essas divindades dos bosques, dos montes, dos rios e dos campos, chamavam-se Maia, Electra, Taígeta ou Taígete, Astérope ou Asteropo, Mérope, Alcíone e Celeno. Por serem alegres e encantadoras elas atraíram o interesse masculino de Orion, o maior caçador de todos os tempos, e este, desejando tê-las para si, passou a perseguí-las de forma implacável. Cansadas dessa situação desconfortável e constrangedora, as ninfas então pediram a Zeus que as transformasse em uma constelação, no que foram prontamente atendidas, passando a formar um aglomerado estelar visível tanto no hemisfério sul, como no hemisfério norte.
Diz a lenda que Atlas, punido por Zeus por ter se insurgido contra ele, recebeu como castigo eterno a tarefa de ter que carregar o globo terrestre sobre seus ombros (como a 1ª vértebra cervical suporta o peso de nossa cabeça, ela é chamada de Atlas, para lembrar o sacrifício imposto ao deus grego), e que o único consolo do titã era ver suas filhas brilhando no céu, o que aliviava sua dor e lhe diminuía o pesar por se ver obrigado a cumprir tal pena.
Duas versões explicam a lenda da corça de Cerinéia, cidade que por volta de 400 anos antes de Cristo era um baluarte da Acaia, região da Grécia antiga, ao norte do Peloponeso. Na primeira, Taigete, uma das plêiades, passeava por aquela região levando consigo uma pequena corça. Em dado momento ela foi assediada por Zeus, o deus mulherengo que andava procurando amor terreno, mas Ártemis (Diana), a deusa protetora dos campos que por casualidade encontrava-se nas proximidades, escutou os lamentos da ninfa e interveio prontamente, evitando que o estupro divino fosse concretizado. Agradecida, Taigete entregou a corça à deusa, e como o pequeno animal dali em diante passava a ter proteção sobrenatural, nenhum caçador poderia fazer-lhe mal. Em outra explicação, Taigete foi transformada por Ártemis em uma corça, para assim poder escapar da investida de Zeus, mas como os registros antigos revelam que Lacedemon, rei de Esparta, era filho do deus maior com Taigete, depreende-se daí que a moça não conseguiu safar-se a tempo.
Seja como for, o fato é que a corça de Cerinéia tornou-se famosa porque além de possuir chifres de ouro e cascos de bronze, era capaz de correr em velocidade insuperável por longo tempo, sem se cansar. O rei Euristeu sabia que ela era consagrada a Ártemis (Diana), e talvez por isso exigiu de Hércules (orientado por Hera, esposa de Zeus, segundo alguns autores) que seu terceiro trabalho fosse a captura do animal. O herói grego surpreendeu-se com a indicação dessa tarefa, e só concordou em cumpri-la depois do rei ter concordado com que a corça fosse capturada viva, e colocada em liberdade logo depois de ter sido mostrada a ele, em seu palácio de Micenas. E foi isso, realmente, o que aconteceu.
Para executar esse trabalho Hércules precisou de muito esforço, de muita atenção, de muita perseverança. Durante um ano inteiro ele percorreu planícies, bosques, campos e montanhas, sempre no rastro de sua presa, sem qualquer esmorecimento, mas como ela era veloz como o vento, jamais permitiu que o caçador se aproximasse o bastante para tentar alguma coisa que pudesse ajudá-lo na captura. De vez em quando ele avistava a corça parada ao longe, a observá-lo com aparência de pouco caso, como se estivesse se mostrando apenas para dar a entender que, contra a sua vontade, o caçador que a perseguia não conseguiria pôr-lhe as mãos. E foi dessa forma que a perseguição continuou dia após dia, mês após mês, por regiões conhecidas e desconhecidas, indo até, no dizer de Píndaro (522-443 a.C.), venerado na Grécia antiga como poeta lírico nacional, ao país dos Hiperbóreos, no extremo norte da Terra, ou seja, os confins do mundo conhecido.
Até que um dia, a corça finalmente cansou. Parada à beira do rio Ládon, na região do Peloponeso, ela tratava de beber água e descansar um pouco daquela correria desenfreada em que sua vida havia se transformado já havia muitos meses. Hércules percebeu a oportunidade e se aproximou sorrateiro, decidido a não perder a chance que o momento lhe oferecia. A partir desse ponto, a descrição sobre o desfecho da caçada é apresentada pelos mitólogos de duas maneiras diferentes: em uma, o animal, ao sentir-se ameaçado, jogou-se nas águas do rio para transpô-lo a nado, quando então foi aprisionado pela rede que Hércules lhe atirou; em outra, o herói grego disparou contra a corça uma flecha que a feriu sem muita gravidade em uma das patas dianteiras, o que impediu sua fuga e imediata captura.
De acordo com a lenda, Hércules estava levando a corça ao palácio do rei Euristeu quando Ártemis (Diana) lhe apareceu. Mostrando-se bastante irritada com a captura do pequeno animal a ela consagrado, a deusa lhe disse que ele não poderia ter feito o que fizera, mas o herói explicou que a corça fora aprisionada para satisfazer a exigência de Euristeu, mas que estava viva e seria libertada tão logo fosse mostrada ao rei de Micenas. Satisfeita, Ártemis permitiu que Hércules prosseguisse em seu caminho, colocando um bem sucedido ponto final nesse seu terceiro trabalho.





