A a D - DEBAIXO DESSE ANGU TEM CARNE
Segundo o receituário da culinária tradicional, o angu é a massa consistente de fubá, de farinha de mandioca ou farinha de arroz, com água e sal e escaldada ao fogo, mas no sentido figurado a mesma palavra significa complicação, confusão, coisa embaraçada, intriga e mexerico. Como alimento, o prato era a refeição que nos tempos coloniais se servia com certa habitualidade aos escravos nas fazendas, porque sendo de custo baixo, não causava tantos estragos à bolsa dos fazendeiros seus senhores. Porém, já naquela época existiam os "apadrinhados", e por isso as cozinheiras - também escravas - costumavam esconder debaixo do angu servido aos companheiros mais simpáticos, alguns pedaços da carne reservada aos feitores, para lhes melhorar a "bóia". Por isso, quando um deles demonstrava cuidado acima do normal com a sua porção de comida, os outros escravos logo desconfiavam dessa diferença de tratamento. Nasceu assim a expressão "debaixo desse angu tem carne", usada nos dias de hoje para sugerir disfarce ou atitude suspeita naquilo que alguém esteja fazendo.
A partir desses tempos de escravatura o angu foi se tornando sempre mais presente nas cozinhas das cidades históricas mineiras, sendo quase sempre acompanhado de torresmo, couve e ora-pro-nobis, uma verdura selvagem muito comum por aquelas bandas. E tanto isso é verdade que certo povoado de Minas tinha o nome de Madre-de-Deus-do-Angu. Quando os deputados mineiros daquela época discutiam entre si a necessidade desse nome ser alterado, a situação chegou a tal ponto que o poeta Bernardo Guimarães (1825-1884) não se conteve e tratou do assunto em um divertido poema que começa com os seguintes versos:
Diga-me cá, meu compadre, se na sagrada escritura
já encontrou, porventura, um Deus que tivesse madre?
Não pode ser o Deus-Padre, nem tampouco o Filho-Deus.
Só se é o Espírito Santo de que falam tais judeus.
Mas esses mesmo, entretanto, de que agora assim se zomba,
deve ser pombo, e não pomba, segundo os cálculos meus.
Para haver um Deus com madre, era preciso um Deus fêmea,
mas isso é forte blasfêmia que horroriza mesmo a um padre.
Por mais que a heresia ladre esse dogma tão cru
- de um Deus de madre de angu, - não é obra de cristão,
e não passa de invenção dos filhos de Belzebu.
E termina da seguinte forma:
Vai aqui oferecida uma emenda supressiva:
suprime a madre, que é viva, fica o angu, que é comida.
A Comissão - convencida
pelos conselhos de um padre que conversou com a comadre -
propõe que desde este dia, chame-se a tal freguesia
a do Angu de Deus, sem madre".
Por causa do poema Madre-de-Deus-do-Angu (cidade cujo nome foi alterado mais tarde para Angustura, distrito de Além Paraíba), escrito em 1865 e publicado em 1883, Bernardo Guimarães foi criticado por autoridades e fiéis da Igreja Católica, que mais horrorizados que o padre dos versos, acusaram o poeta de ter cometido heresias em seu trabalho.





