N a Q - PULO DO GATO, O
Fábulas são narrativas fictícias que visam dar representação concreta principalmente a um conceito moral, e se diferenciam das parábolas porque ao contrário destas, que não ultrapassam os limites do provável, procuram sempre emprestar uma característica real àquilo que é fantástico. O desenlace dessas narrativas alegóricas reflete sempre uma lição moral, e sua temática, além de variada, contempla tópicos como a vitória da fraqueza sobre a força, da bondade sobre a astúcia e a derrota de presunçosos.
Geralmente as fábulas transferem para os animais as qualidades e os sentimentos que são próprios do homem, fazendo, por isso mesmo, largo emprego da prosopopéia, ou seja, da figura de linguagem que dá movimento, ação, vida e voz a coisas inanimadas e põe a falar indivíduos ausentes e mortos. Essa representação de pensamento, muito comum nas literaturas antigas, se manifesta de três formas diferentes: na prosopopéia propriamente dita, onde se atribui aos animais e aos seres inanimados a propriedade de falar, como se fossem humanos; no dialogismo, que implica num diálogo entre vários seres, ou mesmo num monólogo de quem no mundo real não poderia fazê-lo; e na idolopéia, que introduz no discurso a fala de divindades.
As fábulas já eram contadas no século 18 a.C., na Suméria, império que existiu às margens do rio Tigre, e a cujo povo é atribuída a invenção da escrita cuneiforme. Os fabulistas ocidentais antigos nos deixaram obras claras e singelas, e dentre eles, o grande divulgador do gênero certamente foi o grego Esopo (século 6 a.C.), considerado o inventor do apólogo, mas a quem são atribuídas muitas narrativas que não são de sua autoria. A primeira coleção das suas fábulas, feita pelo estadista e filósofo grego Demetrio de Falero, em 320 a.C., continha apenas duzentas, das setecentas que circulam hoje. Entre os romanos, Fedro imitou as produções de Esopo, e já na Idade Média, La Fontaine reviveu esse tipo de literatura, dando-lhe algumas características inerentes à época. Existem, ainda, coleções famosas de fábulas orientais baseadas diretamente no sânscrito, idioma primitivo da Índia.
Também no Brasil podem ser encontrados registros de fábulas assemelhadas, e uma delas é a da onça, que admirada com a extraordinária habilidade demonstrada pelo gato, pediu-lhe que a ensinasse a saltar e pular da mesma forma como fazia. O gato não se fez de rogado e passou a dar aulas à onça, ensinando-lhe como fazer para tornar-se igual a ele na arte de dar pulos, até que esta, achando que finalmente já era doutora no assunto, resolveu transformar o seu professor em refeição. Mas no momento em que deu o bote, a caça pulou para trás e rapidamente desapareceu do cenário. Passados alguns dias os dois animais se reencontraram, e foi então que a onça comentou meio sem jeito: “é, amigo gato, aquele pulo você não me ensinou!”. E o bichano respondeu: “Pois é, dona onça, graças a ele é que estou vivo até agora”.
Foi daí que nasceu a expressão “pulo do gato”, para alertar o profissional em alguma coisa de quem nem tudo deve ser ensinado ao aprendiz, sob o risco de amanhã ele pretender vir a substituí-lo. E essa forma de procedimento não é novidade no mundo de hoje porque se tornou bem mais comum do que a princípio se possa pensar. Trocando em miúdos, na acirrada e impiedosa competição que caracteriza a mercado de trabalho dos dias de hoje, o princípio prevalecente é o do salve-se quem puder - e souber...





