N a Q - NUM-SE-PODE - Teresina - Piauí

Teresina, capital piauiense, foi fundada em 16 de agosto de 1852 (Ilustração). Situada na margem direita do rio Parnaíba, a cerca de 500km, aproximadamente, do litoral, ela foi criada para tornar-se sede da administração estadual, condição até então pertencente à cidade de Oeiras. O maior responsável por essa mudança foi José Antônio Saraiva, o Conselheiro Saraiva (1823-1895), que assumira a presidência do Piauí em 23 de junho de 1850, seu primeiro cargo de relevo, com apenas 27 anos de idade. A nova capital recebeu inicialmente o nome de Vila Nova de Poti, mudado depois para Imperatriz Teresa Cristina (transformado posteriormente em Teresina ), homenagem prestada por seu diligente idealizador à esposa do imperador D. Pedro II.

 

Teresina foi a primeira capital planejada do país (depois dela, aconteceu o mesmo com Aracaju, Belo Horizonte, Goiânia, Palmas e Brasília). Segundo historiadores que preservaram a história do nascimento da cidade, o projeto de seu traçado urbano, feito por João Isidoro França, um Mestre-de-Obras português, e pelo próprio Saraiva, propunha a construção de ruas com cerca de um quilômetro de extensão no sentido norte-sul, cruzando-se em ângulo reto e estendendo-se da Praça do Quartel do Batalhão (atual Estádio Municipal Lindolfo Monteiro) até a Rua do Barracão (atual Avenida José dos Santos e Silva), enquanto no sentido leste-oeste "as casas iniciavam-se na margem do Rio Parnaíba e terminavam pouco além das atuais Praças Saraiva e Marechal Deodoro, as únicas existentes naquela época”.

 

No entanto, para que tal planificação pudesse tornar-se realidade muitas discordâncias tiveram que ser contornadas pelo Conselheiro Saraiva. O carioca Paulo José Cunha, jornalista, poeta e professor, fala de uma delas em seu livro A Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês, onde diz que cidadãos oeirenses levaram ao imperador uma garrafa de água barrenta do rio Parnaíba, tentando provar dessa forma a suposta insalubridade do local que o recém-nomeado presidente da província propunha para erguer a nova capital. Mas D. Pedro II agiu com sabedoria: deixou os reclamantes falarem até o barro se depositar naturalmente no fundo do copo em que a água fora colocada; quando ela se tornou aparentemente limpa, ele a bebeu, e em seguida comentou satisfeito: "mais saborosa que esta, nunca bebi".

 

O Piauí é uma terra de muitas lendas, histórias inexplicáveis, misteriosas ou sobrenaturais, criadas pela imaginação popular e transmitidas de geração para geração. Entre elas a de  estranhas figuras como Cabeça-de-Cuia, Porca do Dente de Ouro e Mindem e Zabelê. Também a do Num-se-Pode, um dos mitos mais conhecidos da cidade de Teresina, que fala de uma fantasmagórica criatura cujas aparições sempre acontecem depois da meia-noite, em plena madrugada, que é quando as assombrações de todo tipo costumam realizar suas caminhadas em busca sabe-se lá de quem, ou do quê.


A lenda do Num-se-Pode tem algumas versões diferenciadas por pequenos detalhes que mantêm em comum, porém, o fato que há muitos anos, nas imediações da praça Conselheiro Saraiva e da antiga rua do Barracão, uma mulher de boa altura, magra e bonita, costumava caminhar sozinha em horas avançadas da noite, vestida com roupas de boa qualidade e de cor preferentemente vermelha, que de tão longas varriam o chão por onde ela passava. Naquele tempo os administradores valiam-se de lampiões a gás para manter iluminadas durante a noite as principais vias públicas da cidade, e era em um desses postes que aquela estranha caminhante noturna costumava encostar-se quando percebia que um homem dela se aproximava.

 

Esse alguém chegava sem hesitação, provavelmente interessado em algo mais que simplesmente saber se a notívaga precisava de ajuda, porque àquela hora, e naquela região, outra coisa não poderia ser imaginada. Quando os dois se viam frente a frente, ela dizia ao abordador que desejava fumar, e assim que era atendida, algo surpreendente acontecia: vagarosamente a mulher ia aumentando de tamanho, aumentando, até alcançar a chama que brilhava no alto do ponto luminoso, a três metros de altura, e ali acendia o cigarro recebido. Ao ver aquilo seu pretendente saía correndo apavorado, enquanto a misteriosa criatura se punha a gargalhar e a gritar repetidas vezes um Num-se-Pode, Num-se-Pode, Num-se-Pode, que ecoava pela escuridão como lúgubre aviso ou lembrete de que realmente existem muito mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.

 

Marina Campelo é uma poetisa que relata em versos as lendas de Teresina. Sobre a do Num-se-Pode, ela os inicia dizendo que “Nas noites de Teresina / muita coisa pode se encontrar / Cabeça-de-cuia, Mulher-de-branco / até alma querendo fumar. / Tô falando de Num-se-Pode / que veio para nos desafiar / Amigo, não se assuste / com o que acabei de dizer. / Faz parte do nosso folclore / isso você precisa saber. / Se nunca ouviu falar, / agora eu vou descrever./ Num-se-pode é uma moça / que gosta muito de fumar / à noite sai pelas ruas / um cigarro a procurar / sem cerimônia ela o pede / a quem encontrar...”. E termina seu trabalho poético aconselhando: “Se acaso você encontrar / pelas ruas de Teresina / em altas horas da noite / essa interessante menina / não morra de medo / nem culpe a sua sina / Ao amigo vou alertar / que ninguém lhe acode. / Quando vir um vulto / não pense que é um bode. / Abra os ouvidos e escute: / Num-se-pode! Num-se-pode!”.


O grupo musical Candeia, já extinto, também gravou música de Zé Rodrigues e Rubeni Miranda, tendo essa lenda como tema. Sua letra diz: “À meia-noite, sem ser lobisomem / Num-se-Pode é assombração / Ela me pede um cigarro sorrindo / como quem quer pegar na minha mão / Ela me pede meu fogo sorrindo / mas eu não quero aproximação / No pé do poste é moça bonita / mas se estica até o lampião / Assusta até os cabras machos do sertão / Num-se-Pode pode ser que seja / desencantada por uma paixão / Num-se-Pode pode ser que seja / talvez a dona do meu coração”.

 

 

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Comentários:

  1.   Giovanna  diz:

    De verdade eu nunca entendi a lenda num-se-pode,alguem pode me explicar pq ela fala num se pode