Jogos de azar - JOGO DO BICHO - Origem
Foi em 1892 que João Batista Viana Drumond, Barão de Drumond, capitalista nascido em Itabira, Minas Gerais, fundador do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro e do bairro de Vila Isabel, na mesma cidade, se viu diante da necessidade de captar recursos financeiros para a manutenção do parque animal que havia criado. Apesar de muito rico ele não possuía investimentos em outras áreas, e por isso decidiu aceitar a proposta que lhe fazia um mexicano muito astuto, Manuel Ismael Zevala, para a implantação de um sistema de sorteio baseado no jogo das flores que ele já havia tentado criar na cidade, mas sem sucesso, garantindo que essa providência certamente atrairia um número bem maior de pessoas ao empreendimento mantido pelo barão.
Assim, a partir do dia 3 de julho de 1892, os visitantes que cruzavam o portão de entrada do Jardim Zoológico passaram a receber um talão onde anotavam o nome de um dos vinte e cinco animais em exposição naquela área, habilitando-se, dessa forma, ao sorteio que poderia premiar o ganhador com uma quantia vinte vezes superior ao preço do ingresso pago pelo mesmo. Ao final do dia, a indicação do animal sorteado era feita através de uma placa colocada no alto de um mastro, na entrada do jardim. Sobre o fato, o jornal O Tempo publicou a seguinte matéria: "A empresa deste importante estabelecimento de criação do benemérito barão de Drumond vai hoje inaugurar diferentes divertimentos ao público fluminense, que ali terá diariamente um passatempo. O senhor M.I. Zevada, gerente da empresa e conhecedor de vários estabelecimentos europeus e americanos idênticos ao Jardim Zoológico, dá esperanças de engrandecer aquela instituição de mérito nacional".
Sobre a inauguração, o Jornal do Brasil, de 04 de julho de 1892, publicou a seguinte reportagem:
"A empresa do Jardim Zoológico realizou ontem um magnífico passeio campestre ao seu importante estabelecimento, situado no pitoresco bairro de Vila Isabel. Em bondes especiais dirigiram-se os convidados e representantes da imprensa àquele local e depois de visitarem o hotel, que se acha nas melhores condições, os jardins, as gaiolas em que se acham os animais e aves, tomaram parte em um lauto jantar, em mesa de mais de 60 talheres, presidida pelo digno diretor daquela empresa, o sr. barão de Drummond. O 1º brinde foi levantado pelo sr. Sergio Ferreira ao sr. barão de Drummond, que em seguida com toda a gentileza brindou à imprensa, sendo correspondido pelo nosso representante. Trocaram-se ainda outros brindes, sendo o último ao sr. vice presidente da República".
"Como meio de estabelecer a concorrência pública, tornando freqüentado e conhecido aquele estabelecimento que faz honra ao seu fundador, a empresa organizou um prêmio diário que consiste em tirar à sorte dentre 25 animais do Jardim Zoológico o nome de um, que será encerrado em uma caixa de madeira às 7 horas da manhã e aberto às 5 horas da tarde, para ser exposto ao público. Cada portador de entrada com bilhete que tiver o animal figurado tem o prêmio de 20$. Realizou-se ontem o 1o sorteio, recaindo o prêmio no Avestruz, que deu uma recheada poule de 460$000".
"A empresa tem em construção um grande salão especial para concertos, bailes públicos, e vai estabelecer no jardim jogos infantis e outros diversos para o público. Às 9 horas voltaram os convidados, pessoas de alta distinção, penhorados todos à gentileza do sr. barão de Drummond e seus dignos auxiliares. Foi uma festa esplêndida".
A inovação foi um sucesso, e o jogo do bicho, ou simplesmente o bicho, transformou-se em divertimento da alta sociedade fluminense, como informava o Diário do Comércio em sua edição de 11 de julho: “Venceu ontem o gato. A empresa pagou prêmios na importância de 1:420$000. O Jardim Zoológico foi visitado por 1.350 pessoas. O senhor Ministro da Guerra também visitou ontem o Jardim Zoológico e foi testemunha da forma como são sorteados os prêmios estabelecidos pela empresa a fim de animar a concorrência daquele estabelecimento”.
Entretanto, poucos dias depois, em 23 de junho, o jornal O Tempo divulgou a seguinte matéria:
"Ao Dr. 2o delegado dirigiu ontem o Dr. Chefe de Polícia o seguinte ofício: No empenho de procurar atrair concorrência de visitantes ao Jardim Zoológico, solicitou o seu diretor para certo recreio público licença, que lhe foi concedida pela polícia, em vista da feição disfarçadamente inocente que da simples primeira descrição do divertimento parecia se deduzir. Entretanto, posta em prática essa diversão, se verifica que tem ela o alcance de verdadeiro jogo, manifestamente proibido. Os bilhetes expostos à venda contém a esperança puramente aleatória de um prêmio em dinheiro, e o portador do bilhete somente ganha o prêmio, se tem a felicidade de acertar com o nome a espécie do animal que está erguido no alto de um mastro".
"Esta diversão, prejudicial aos interesses dos incautos, que com a esperança enganadora de um incerto lucro se deixam ingenuamente seduzir, é precisamente um verdadeiro jogo de azar, porque a perda e o ganho dependem exclusivamente do acaso e da sorte. Como semelhante divertimento não pode por mais tempo ser tolerado, e conquanto maior fundamento quanto é certo que muitas queixas me têm sido dirigidas pelas pessoas lesadas, assim intimarei ao diretor do Jardim Zoológico para que suspenda imediatamente a continuação do aludido jogo, sob pena de ser processado na conformidade dos artigos 369 e 370 do código penal".
O governo Floriano Peixoto passou a ser menos tolerante com esses sorteios, e desde então o jogo do bicho vive em permanente conflito com a Lei.





