Antiguidade – 4000 a.C. a 476 - IDADE DO FERRO

Os gregos antigos viam de maneira muito pessimista o desenvolvimento do gênero humano. Distinguiam quatro fases na história de sua lenta decaída: as idades do ouro, da prata, do bronze e do ferro. Nos tempos áureos, os homens eram doces e os costumes puros; na idade da prata começaram a perder a inocência; na do bronze, o mal se instalou; e na do ferro, todos os excessos e todos os crimes transbordaram.

 

A arqueologia moderna, contudo, não é pessimista nem otimista: ela apenas constata fatos da evolução humana segundo métodos rigorosamente científicos, e um dos critérios empregados para distinguir as etapas de desenvolvimento é o da complexidade do material utilizado pelo homem para dominar a natureza. Assim, as idades da Pedra, do Bronze e do Ferro correspondem a estágios tecnológicos bem diferentes, com profundas implicações na vida dos povos.

 

A Idade do Ferro constitui verdadeira revolução. Em seus primeiros cinco séculos acarretou mais progressos do que nos 1.500 anos anteriores da Idade do Bronze. Material muito mais barato, abundante e resistente, o ferro constituiu um elemento democratizador entre os povos antigos, pois qualquer camponês ou artesão poderia adquirir implementos desse metal e com isso libertar-se, até certo ponto, de suas vinculações com os senhores, reis e sacerdotes.

 

O bronze continuou a ser amplamente utilizado, mas tornou-se material aristocrático, enquanto o ferro passou a servir para a produção em massa de vários instrumentos, principalmente agrícolas. O comércio cresceu, tendo como conseqüência maior intercâmbio entre os povos, o que, por sua vez, acelerou processos de uniformização das culturas.

 

Paralelamente a isso a tecnologia do ferro produziu alterações radicais no equilíbrio das potências imperiais da Antigüidade. Aquelas cujos exércitos permaneceram no estágio do bronze foram facilmente derrotadas pelos povos até então inferiores e que, subitamente, revelavam um poderio insuspeitado. Como aconteceu quando os assírios submeteram o Egito, a Babilônia e os sírios; ou quando do longínquo norte surgiram as tribos cimérias e citas, e na Ásia, formou-se o império persa. Enquanto isso, a colonização grega chegou à Ásia Menor, ao Helesponto, à Sicília e ao sul da Itália. Cartago e Etrúria surgiram como grandes potências, e finalmente, os ilírios, trácios, celtas e germanos relacionaram-se com os povos da Europa central e do Mediterrâneo, estabelecendo comércio entre as três regiões e intercâmbio de elementos culturais.

 

Todas essas transformações ocorreram em momentos diferentes, pois a tecnologia do ferro não obedece a uma cronologia única, tendo variado de uma região para outra. Tem, contudo, um ponto de partida e uma causa imediata no século 12 antes de Cristo, quando o império hitita foi destruído. Enquanto conseguiu manter seu poderio, esse povo guardou em segredo os processos de fabricação que conhecia, consciente das vantagens proporcionadas pelas armas de ferro. Para os estrangeiros exportavam apenas adagas, ornamentos pessoais e outros objetos destinados a presentear governantes de outros povos. No entanto, não foram eles os criadores dos processos de fabricação, pois já no terceiro milênio antes de Cristo o ferro tinha sido forjado no Egito e na Mesopotâmia, mas sem ser suficiente para produção em massa e de boa qualidade.  O meio adequado para isso é a fundição, descoberta, ao que tudo indica, por uma tribo da Armênia, de onde passou para os hititas. Com a queda desse império, o segredo foi difundido.

 

Por volta de 850 antes de Cristo este era considerado um metal de grande valor, empregado como meio de troca e utilizado na fabricação de utensílios agrícolas, domésticos e armas. Esse período caracterizou-se na Grécia pelo comércio intenso em outras regiões, pelo desenvolvimento da indústria e das cidades (cada vez mais dependentes do comércio de ultramar) e pelo lançamento dos alicerces que permitiram erigir a cultura da Grécia antiga. Cerca de um século após ter-se implantado em terras gregas através dos dórios, o ferro fez sua entrada na península italiana - há testemunhos arqueológicos disso no vale do Pó, onde floresceu a chamada cultura vilanovana, caracterizada pelos cemitérios crematórios (na ilustração, típico povoado da Península Ibérica na Idade do Ferro, Castro de São Lourenço, localizado em Vila Chã, Portugal).

 

As transformações acarretadas pela tecnologia do ferro foram inúmeras e profundas. No Oriente, as monarquias teocráticas conseguiram preservar-se, mas na Europa e no Mediterrâneo, a Idade do Ferro transformou os antigos Estados em repúblicas, como entre os gregos. Os grandes proprietários de terras foram obrigados a dividir o poder com uma nova classe de comerciantes e industriais.

 

A vitória na guerra já não dependia de um rico senhor com o seu carro, mas de armamentos distribuídos por todo um exército, ao passo que a escrita alfabética fenícia estendeu os conhecimentos a camadas mais amplas da população. Novas soluções foram encontradas para os problemas, não na revelação religiosa, mas na razão dos filósofos. A Idade do Ferro, em todas as regiões por onde se estendeu, criou uma civilização mais complexa, cosmopolita e menos ritual que a da Idade do Bronze.

 

 

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