Idade Média – 476 a 1453 - CRUZADAS (2)

Por volta do ano 1200 os interesses europeus no Oriente persistiam, e por isso os comerciantes daquele continente necessitavam de rotas que lhes permitissem negociar com os povos do outro lado do mundo. Entre seus objetivos incluía-se a conquista de Bizâncio (ou Constantinopla, atualmente Istambul), que não reconhecendo mais a autoridade do papa (pois havia adotado a religião ortodoxa), recusava-se a colaborar com os italianos e franceses no plano comercial.

 

Durante o período da dinastia dos Comnenos, iniciada por Alexis Comneno, em 1081, o império bizantino tentara reconquistar seus territórios no Ocidente, constantemente invadidos pelos bárbaros. Mas combatera em vão para recuperar as antigas colônias, já que a Itália e a França não tinham interesse em que o império grego conhecesse novo período de expansão. Além disso, a Europa, apesar de dilacerada pelas guerras nacionais, não abandonara a idéia de colonizar e explorar melhor os territórios bizantinos.

 

Disputas internas na corte de Constantinopla, aliadas a novas invasões bárbaras e a declaração de independência dos búlgaros, provocaram, então, nova expedição. Inocêncio III, que subira ao trono pontifical em 1198, acreditava que Bizâncio deveria aceitar o domínio da Igreja Romana e unir-se novamente a ela, razão pela qual pregava uma nova cruzada para retomar Jerusalém até mesmo pela força, caso essas condições não fossem aceitas.

 

O objetivo da Quarta Cruzada, da qual participavam Balduíno IX, conde de Flandres, Bonifácio II, marquês de Montferrant, e também Enrico Dandolo, doge (duque) de Veneza, era o de retomar o Santo Sepulcro. Mas como seus líderes tinham dificuldades financeiras para pagar os 85 mil marcos de ouro cobrados pela travessia por barco para o Egito, de onde deveria ser iniciada a incursão planejada, aceitaram a proposta de retomar, em troca de um adiantamento, a cidade de Zara (atual Zadar, na Croácia), que havia sido ocupada pelo rei da Hungria. Isso aconteceu contra a vontade de Inocêncio III, que em represália excomungou os líderes venezianos.

 

Na seqüência dos acontecimentos a Quarta Cruzada desviou-se para Constantinopla (na ilustração, em óleo sobre tela, escola italiana do século XIX) atendendo a um chamado de Isaac Anjo, seu imperador destronado pelo irmão Aléxis III. O filho de Isaac, Aléxis IV, prometera aos cruzados a reunificação da Igreja Ortodoxa à Romana, além de dinheiro e homens para libertar os lugares santos, o que motivou os cruzados a tomarem a cidade em julho de 1203, e lhe entregarem o trono. Mas Aléxis IV não cumpriu o prometido em virtude da eclosão, no início do seu governo, de uma revolta nacional contra a pilhagem feita pelos venezianos. Os rebelados destituíram o soberano e atacaram os cruzados, que reagiram e investiram novamente contra a cidade, ocupando-a pela segunda vez em 12 de abril de 1204. Os vitoriosos dedicaram-se a novos saques, transportando para o Ocidente grande quantidade de obras de arte. Bizâncio foi declarada parte do Império Latino (que deveria durar até 1261) e dividida entre as potências européias: Balduíno IX, tornou-se o novo imperador; Bonifácio de Monteferrat instalou o reino de Tessalônica; Guilherme de Champine e Geoffroy de Villehardoin conquistaram o Peloponeso; e muitas famílias francas instalaram ducados e outras senhorias nos territórios bizantinos. O doge de Veneza, para seu comércio, precisava apenas de algumas ilhas e cidades da costa. mas com isso controlaria os estreitos através de Galipoli e Rodorto, chaves do mar Negro. A própria Constantinopla foi dividida entre os vencedores, porém os lugares santos continuaram sob controle turco.

 

Sucessor de Inocêncio III, o papa Honório pregava desde 1216 a necessidade de uma nova cruzada. Pouco antes, dois religiosos fanáticos (os pastores Nicolas, alemão, e Estevão, francês) levaram milhares de menores para a cruzada das crianças, de trágico resultado: metade delas morreu antes de chegar ao Oriente, e as demais foram vendidas como escravas.  Em 1217, André II, rei da Hungria, e o duque Leopoldo VI, da Áustria, dirigiram uma nova cruzada e juntaram-se a João de Brienne, o rei de Jerusalém. Em 1228 eles conquistaram Damieta, no Egito, e marcharam em direção ao Cairo, mas cercados pelos mulçumanos entregaram a cidade conquistada em troca de sua própria retirada. Em 1228, Frederico II, imperador da Alemanha e rei da Sicília, chegou à Terra Santa. Casando-se com a filha de Brienne, tornou-se rei de Jerusalém e conseguiu, através de negociações, recuperar parte da cidade. Sidon, Nazaré e Belém. Mas como conflitos internos enfraqueceram os cruzados novamente, Frederico voltou para a Itália, os cruzados foram expulsos, e no ano seguinte os turcos retomaram Jerusalém.

 

Luis IX (ilustração), o rei da França que posteriormente seria canonizado, ao saber da nova queda de Jerusalém decidiu dirigir mais uma cruzada (a sétima), dando-lhe um conteúdo principalmente religioso. Em 1249 ele tomou Damieta, mas nos anos seguintes não conseguiu novos sucessos. Nessa mesma época os mongóis começaram a combater os turcos, mas ao serem derrotados na Palestina, em 1260, permitiram que em 1268 o sultão Baibars reunificasse o Egito e a Síria, reconquistando Cesaréia, Jaffa e Antioquia. Preso pelos infiéis, o rei francês precisou pagar pesado resgate por sua libertação, mas apesar disso ele não desistiu, pois em 1270 desembarcou com nova cruzada em Cartago (Tunis), cujo sultão prometeu converter-se e ajudar os franceses. Mas os traiu, voltando-se contra eles. Quando Luís morreu, ainda em 1270, os cruzados ficaram sem reforços, e o sucessor de Baibars conquistou Trípoli em 1289, e depois São João d’Acre, Tyr, Sidon e Beirute, fazendo desaparecer o reino franco no Oriente. Apenas a ilha de Chipre permaneceu em mãos ocidentais (até o século 15).

 

As cruzadas tiveram por conseqüência não o espírito religioso a que se propunham, e que não foi alcançado. Todavia, no terreno econômico, o Oriente conseguiu mostrar as riquezas e a vida da burguesia bizantina, que os europeus cristãos foram levando para a Europa. O interesse comercial em relação ao Oriente recrudesceu depois das cruzadas, e aos poucos as transformações se fizeram sentir sobre a economia agrária da Europa feudal, abrindo-a para as primeiras manifestações de caráter comercial nos negócios do mar, que seriam lideradas pelas cidades italianas, francesas e as associadas à Liga Hanseática, estabelecida com essa finalidade, na Idade Média, entre várias cidades do Norte da Europa.


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