Povos Antigos - ASSÍRIOS

O Império assírio (desde sua fundação no século 19 antes de Cristo, até seu extermínio em 610 antes de Cristo), desenvolveu um dos mais acentuados militarismos de que se tem notícia entre os antigos povos do Oriente. A frase atribuída a seu rei Senaqueribe, assassinado pelo próprio filho (“Quanto a Hezekias, o judeu, eu o fechei numa gaiola como um passarinho”), é somente um pálido reflexo do violento expansionismo desse império nascido na Mesopotâmia - entre os rios Tigre e Eufrates - e que se impôs através de sangrentas campanhas (na ilustração, relevo de uma cena de caça em honra ao Rei Assurbanipal).

 

A guerra, como única forma de sobrepujar outros povos e obrigá-los a pagar pesados tributos, foi cultivada pelos assírios como verdadeira arte de crueldade: seu exército compreendia equipes altamente treinadas, que empregavam carros de guerra, arqueiros, lanceiros e arremessadores de projéteis. Os vencidos eram escravizados e submetidos a trabalhos forçados, e os rebeldes empalados ou esfolados vivos, como exemplo aos que pretendessem revoltar-se.

 

O interesse dos monarcas assírios girava em torno da pilhagem de animais, metais, jóias e escravos que levavam para sua pátria, uma terrível máquina de recolher tributos contra a qual os povos subjugados se revoltavam com persistência. Tal civilização, que inicialmente ocupava um pequeno território entre a Armênia, o deserto sírio e a Babilônia, chegou a abranger, no auge de sua expansão (séculos 8 e 7 a.C.), o sul da Anatólia, a Cilícia, a Síria, a Palestina, o Elam, a Média, a Babilônia e parte da Arábia. No entanto, desapareceu ante a força conjunta de medos e neobabilônios, que incendiaram Nínive (612 a.C.) e ocuparam Harran (610 a.C.), para onde a capital havia sido transferida às pressas, numa tentativa desesperada de salvar o império. Assim, depois de se tornar província dos medos, a Assíria passou a fazer parte da Nona Satrápia, que o império persa instalou na Mesopotâmia.

 

Os próprios assírios designavam seu país por Assur, que também era o nome do barbudo deus nacional e de uma das suas principais cidades, ao lado de Nínive, Calah (Ninrud), Arbailu (Arbela) e Ekallatum, todas ao longo do rio Tigre. A origem racial dos primeiros habitantes da região é desconhecida, pois quase nada restou dos tempos mais remotos, a não ser algumas peças em cerâmica pré-histórica, do período compreendido entre 5.000 e 3.000 antes de Cristo, provenientes de Assur, Nínive e Calah. Sua civilização parece ter resultado da fusão de inumeráveis tribos e grupos que viviam há milênios ao longo dos rios Tigre e Eufrates, mas, contudo, há quem admita que a cultura assíria recebeu profundas influências dos povos semitas do sul, como também de populações dos desertos e da região montanhosa do norte. Dos sumerianos, por meio dos babilônios, herdaram a escrita denominada cuneiforme, difundida do Cáucaso ao Egito, a mais usada no mundo antigo antes do alfabeto fenício e da escrita aramaica. O início da metalurgia e da vida urbana da Assíria foi conseqüência das campanhas imperialistas de Sargão de Árcade (2340-2284 a.C.), época em que começaram a usar regularmente o metal. Em Nínive, o neto de Sargão fundou um templo a Tshtar, deusa da guerra e do amor, o primeiro de uma série ali erguida.


Apesar de todas essas influências os assírios não chegaram a perder totalmente sua cultura nativa, e os antigos habitantes já haviam adotado a roda e outros aperfeiçoamentos. Além disso, segundo pesquisas, aldeias esparsas já utilizavam materiais importados, como ouro e cobre. Esses fatores parecem ter contribuído para a transformação de Assur num centro de revolta, até que a cidade adquirisse prerrogativas de grande centro urbano de um novo Estado, possibilitando a fundação da Primeira Dinastia por Puzurassur I, no começo do século 20 antes de Cristo.

 

Graças a uma documentação literária particularmente rica (sobretudo entre os séculos 9 e 7 a.C.), a civilização dos assírios é bem conhecida em seus aspectos essenciais. Nas escavações de Nínive os arqueólogos encontraram milhares de tabletes de argila contendo gravuras e inscrições em caracteres cuneiformes de tamanho muito reduzido, com temas sobre religião, mitologia, direito, história, feitiçaria, ciência, matemática, medicina e astronomia. Nas bibliotecas dos reis foram encontrados inclusive dicionários, maiores e mais acessíveis que os equivalentes babilônicos, com minuciosos registros sobre as campanhas e atividades dos monarcas. Estes entregavam a administração de seus domínios a governadores provinciais que se encarregavam de coletar os impostos e enviá-los à capital. Mesmo não sendo divinizados como os faraós egípcios, os reis eram considerados representantes de Assur, o deus nacional, além de exercerem atividades militares no comando dos exércitos que lutavam por sua maior glória e poder. Algumas vezes eles chegavam a organizar guerras santas contra os povos que se recusavam a reconhecer sua soberania.

 

O código de leis assírias, descoberto entre 1901 e 1914, data do período de Tiglatfalazar I (1117/1077 a.C.), mas o seu conteúdo já estava em prática no século 15 antes de Cristo. Essas leis derivam em grande parte dos códigos sumeriano e babilônico, mas demonstravam maior severidade que o famoso código de Hamurabi. Um dos dispositivos mais utilizados para restabelecer a verdade e a justiça, por exemplo, consistia no ordálio, isto é, expor o réu ao risco de vida através do fogo ou da água: caso o suspeito sobrevivesse, era então considerado inocente. Decidia-se também sobre a verdade entre dois oponentes jogando-os num rio: o que se afogasse era tido como mentiroso (na ilustração, ruínas da cidade de Assur).

 

A religião assíria era semelhante à babilônica que, por sua vez, fora herdade dos sumerianos, Eles adoravam as forças da natureza, e além de Assur, também cultuavam outros deuses distribuídos pelas cidades principais: como Anu (deus do céu); Adad (deus dos trovões); Istar (deusa do amor e da guerra); Nabu (deusa dos escribas); e Sin (deusa-lua).

 

O mundo ocidental tomou conhecimento da arte assíria a partir das escavações feitas em 1845, em Nínive, quando foram encontrados alguns importantes trabalhos de escultura, principalmente exemplares de touros alados com cabeça humana – os chamados Lamassu - que os assírios consideravam como gênios protetores e guardiões dos portais de templos e palácios, sendo que nestes últimos, as paredes eram normalmente decoradas com baixo-relevos que descreviam cenas mitológicas, campanhas vitoriosas dos reis ou suas caçadas. Apenas uma estátua (Assurbanipal II) foi descoberta, embora fossem comuns as estátuas dos deuses, isso porque os assírios dedicavam-se mais à arte de relevo que à estatuária. Nos palácios, a parte inferior das paredes era revestida com grandes blocos de pedra esculpida, alguns dos quais são considerados como verdadeiras obras-primas da arte oriental.

 

 

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