Povos Antigos - FENÍCIOS
Para os gregos, os fenícios não passavam de um bando de comerciantes ávidos e desonestos. Mas foi esse povo que transmitiu para a Europa semibárbara da época, os padrões antigos e sofisticados das culturas do Oriente Próximo. O alfabeto que inventaram e difundiram é o antepassado de todos os alfabetos do mundo ocidental. Durante três séculos e meio (entre 10 e 7 a.C.) os fenícios tiveram o domínio do comércio do Mediterrâneo.
Eles atuavam como intermediários entre a Europa e a Ásia, e isso foi extremamente facilitado por sua posição geográfica: localizavam-se na porção oriental do Mediterrâneo, onde atualmente situam-se Líbano e Israel. A leste, limitavam-se com a civilização do Tigre e Eufrates (assírios e babilônios); ao sul, com o Egito; a oeste, com Creta e Micenas; e ao norte, com o império hitita.
Os fenícios eram um povo semita cuja língua estava relacionada com a dos assírios e israelitas. Seus vizinhos do norte os chamavam de canaanitas (e sua terra, de Canaã). Apesar de a Fenícia possuir clima ideal para a agricultura, seus habitantes preferiam as atividades marítimas, comerciais e de exploração. Embora não fossem inventivos como os sumérios ou os gregos, por exemplo, triunfavam pelas adaptações muito práticas que faziam das artes, invenções, técnicas e filosofias de outros povos.
As primeiras cidades fenícias surgiram por volta de 3.000 antes de Cristo e gradativamente evoluíram para cidades-Estado, cada qual com seu rei. Mas nenhuma delas teve força suficiente para impor-se às demais. Durante longa etapa de sua história, a Fenícia foi dominada pelos grandes impérios que a cercavam. De 2.600 a 1.200 antes de Cristo, foi submetida pelo Egito, mas o comércio entre egípcios e fenícios permaneceu nas mãos destes últimos: na cidade de Biblos eram embarcados os cedros do Líbano de que o Egito dependia para construções. Nos séculos 13 e 12 antes de Cristo, o território foi invadido, ao norte, por tribos nômades (os arameus e filisteus), e ao sul, pelos israelitas. Por volta de 1.200 antes de Cristo os fenícios já haviam perdido quase toda as terras. De um vasto e poderoso território restavam apenas algumas cidades (Tiro, Sidon e Biblos, por exemplo). Como estavam privados da maior parte do seus solos aráveis, e os mercados locais desapareceram, os fenícios lançaram-se ao comércio exterior.
Com os gigantescos cedros do Líbano construíram a mais poderosa frota mercante de então. Manejadas por escravos remadores, as naves fenícias aventuraram-se para além do Egeu em direção a Malta e Sicília, e chegaram à costa atlântica da Espanha. Quando os depósitos de estanho do Oriente Próximo começaram a se esgotar, foram buscar o metal na Bretanha. Mas seu maior feito marítimo foi a circunavegação da África por volta de 600 antes de Cristo, a serviço do faraó egípcio Neco. Em algumas regiões os fenícios desembarcaram brevemente – comerciavam por alguns dias e levantavam âncora. Vendiam principalmente pratos e tigelas de ouro, prata e bronze; garrafas de marfim; cerâmica fina com perfumes e ungüentos; lãs finas e linhos tingidos. Aos mais belicosos ofereciam, escudos de bronze, pontas de lança e adagas de ferro.
Nos pontos terminais de suas longas rotas de comércio os fenícios edificaram colônias permanentes. De início eram pequenas vilas fortificadas que mais tarde cresceram e se tornaram rivais de Sidon e Tiro. Cadiz, fundada em 950 antes de Cristo, foi uma delas. Cartago, a mais importante, chegou a desafiar o poderio romano. Em resposta a um fluxo cada vez maior de matéria-prima, os portos marítimos dos fenícios tornaram-se pontos de concentração de armazéns e oficinas de artesanato, onde as matérias primas eram transformadas em mercadorias e remetidas para outras regiões. Apesar da freqüência com que as cidades fenícias eram assaltadas por exércitos inimigos, o povo conseguiu manter sua hegemonia comercial durante cerca de trezentos anos. Os alimentos necessários à população entravam pelos portos guardados pela mais poderosa marinha do mundo antigo.
Como mercadores e homens de negócio, os fenícios tinham de manter cuidadoso registro de suas transações. Para isso usaram nova e engenhosa forma de escrita, a mais simples até então criada. Esta escrita originou-se do rudimentar alfabeto egípcio, de 24 sinais. Mas no Egito esses símbolos nunca foram considerados elementos fonéticos básicos, pois eram usados juntamente com as centenas de ideogramas e pictogramas que compunham a escrita egípcia. Pouco antes de 1.700 antes de Cristo, os escribas fenícios, rejeitando o complicado sistema de hieróglifos do Egito, selecionaram um símbolo para cada som em sua língua, formando o alfabeto que se tornou o ancestral direto de todos os alfabetos do mundo ocidental. Por volta dos séculos 9 e 8 antes de Cristo, o alfabeto de 22 símbolos foi adotado pelos gregos com algumas modificações.
Apesar de inicialmente os fenícios usarem sua invenção apenas para fins comerciais, tabletes de argila encontrados em sítios antigos revelam uma literatura bastante desenvolvida, na maior parte religiosa, e que exerceu profunda influência sobre o Velho Testamento. A cultura hebraica não deve apenas o alfabeto aos fenícios: foi influenciada também no que se refere a ferramentas e armas, formas musicais e instrumentos, motivos religiosos, estilo poético, artes plásticas e arquitetura. Estudiosos acreditam que os hebreus dependiam dos fenícios tanto para a indústria interna como para o comércio exterior. O palácio do rei Davi (1002-963 a.C.) foi construído em pedra e cedro do Líbano por pedreiros e carpinteiros enviados pelo rei fenício Hiram de Tiro (969-936 a.C.). Também o filho de Davi, Salomão (970-930 a.C.), ergueu seu palácio com a ajuda de artesãos fenícios.
Muito tempo depois de Salomão, os israelitas sofreram influência fenícia (o casamento do rei Ahab com a princesa fenícia Jezebel, no século 9 antes de Cristo, é um exemplo). Em 842 antes de Cristo as cidades fenícias renderam-se ao ataque dos assírios. Pouco tempo depois recuperaram sua independência, mas já não conseguiram manter-se livres. A era de prosperidade e poder dos fenícios chegara definitivamente ao fim em 572 antes de Cristo, com a ocupação de Tiro e Sidon pelo monarca babilônio Nabucodonosor II (605-562 a.C.).
Fonte: Enciclopédia Abril





