Povos Antigos - SUMÉRIOS

Os sumérios habitavam o sul da Mesopotâmia, junto à confluência dos rios Tigre e Eufrates, mas até o século 19 ignorava-se a existência de um povo de cultura tão remota naquela região. Quando os arqueólogos se dedicavam à decifração de tabuletas assírias, encontraram documentos ainda mais antigos com inscrições em linguagem pré-babilônica. Inicialmente foi estabelecida uma conexão da descoberta com o reino de Sumer a Akad, mas em virtude dos acadianos já terem sido identificados como semitas, atribuíram o nome de sumeriana a essa linguagem.

 

Escavações feitas no século 19 em pontos da antiga Mesopotâmia meridional confirmaram a existência de uma cultura não-semítica nos sítios arqueológicos de Uruk e Ur, reconhecidos como centros de uma das mais antigas dinastias sumerianas. Coube, porém, ao francês Ernest de Sarzec, o mérito de realizar, em 1877, a primeira escavação sistemática de um tell sumeriano, nome inglês dado aos aterros resultantes da demolição das casas daquele povo, feitas com tijolos que se estragavam com facilidade, e sua reconstrução sobre o terreno nivelado, o que elevou gradualmente a altura das cidades a ponto de erguê-las acima da planície à sua volta.

 

Sobre o que Sarzec descobriu a escritora austríaca Roselis Von Sass, que morreu no Brasil em 1997, relata em seu livro A desconhecida Babilônia, que “Em outros pesquisadores, como Ernest Sarzec, o agente consular francês, as ruínas e colinas do 'país dos dois rios' também despertaram a curiosidade. Em suas pesquisas iniciais ele encontrou no sopé de uma colina, em Tello, uma estátua de espécie até então desconhecida. Continuando as escavações, encontrou inscrições e os primeiros vestígios visíveis do povo pré-denominado sumeriano. A estátua encontrada por ele era de diorito duro, esculpida maravilhosamente e polida. Tratava-se da peça mais preciosa, que juntamente com outros valiosos fragmentos foi transportada por um navio e chegou até o Louvre, em Paris”.    

 

O resultado das pesquisas de Sarzec em Tello, antiga Lagash, tornou possível a identificação do período arcaico sumeriano (cerca de 3.000 a.C.), e também do período do patesi, ou governador Gudea (2.200 a.C.). Exames realizados principalmente em restos de cerâmicas, já no século 20, possibilitaram a sistematização da cultura sumeriana em três estágios sucessivos: fase um, ou período ubalda, descoberto por Leonard Wooley (1880-1960); fase dois, ou período de Uruk, escavado pela missão alemã em Warka; fase três, ou período de Jamdar Nasar, estudada por Stephen Langdon (1876-1937). 

 

Tomando essas descobertas como ponto de partida, concluiu-se que os sumérios não eram autóctones, mas, provavelmente, resultado da fusão de grupos orientais distintos. Embora sua língua se mostrasse aglutinante, como o turco e o mongol, não possuía parentesco com qualquer outro idioma conhecido. O fato é que ainda não se conseguiu identificar o grupo étnico que constituía o foco original do povo sumeriano. Os primeiros elementos que ocuparam a região por volta do quarto milênio antes de Cristo tinham cultura um pouco mais avançada que a neolítica, pois já praticavam a agricultura e conheciam a metalurgia. Além disso, drenavam terras e controlavam rios, criando, assim, condições para o desenvolvimento de uma agricultura capaz de sustentar sua crescente população. Mas também exerciam outras atividades, como a caça, a pesca e o comércio com regiões vizinhas, através do qual obtinham matérias-primas, principalmente madeira para a fabricação de instrumentos de trabalho.

 

Tudo indica que esses grupos não se concentravam apenas nos campos, pois em determinado período delinearam-se alguns grandes centros urbanos, sendo também por essa época que a vida econômica e social começou a girar em torno do templo e da classe sacerdotal. Após o advento dos Ubalda, a região foi invadida por imigrantes que introduziram novas técnicas metalúrgicas e o uso da roda destinada à confecção de cerâmica. A escrita, que era utilizada principalmente na contabilidade dos templos, somente seria adotada no final do período Uruk. Por volta de 3.000 antes de Cristo a região sofreu uma infiltração pacífica do povo de Jandar Nasar, os quais, no entanto, foram expulsos mais tarde pelos antigos habitantes. Durante toda a sua história, os sumerianos não conseguiram criar uma forma eficaz e permanente de integração política, e por isso geralmente apresentavam-se como cidadãos de determinado núcleo urbano, devendo obediência, portanto, somente a seu deus e ao representante deste, que se chamava Ensag, Patesi ou Lugal.

 

A estrutura básica que deu origem à cidade-Estado dos sumérios foi o núcleo criado em torno do sistema de irrigação. Segundo o costume, o deus era dono absoluto de todo o território que compreendia a cidade e suas adjacências. Grande parte das terras ficava, na verdade, sob o controle da classe sacerdotal, que mantinha servos e trabalhadores assalariados, enquanto as outras glebas eram reservadas a particulares que, entretanto, pagavam tributos aos sacerdotes. Da prática do comércio incumbia-se também a elite eclesiástica. O fator religioso exercia, assim, profunda influência sobre todos os aspectos da vida. O governante de uma cidade devia seus poderes a uma identificação mágica com a divindade local (na ilustração, estátua de Gudeia, governador de Lagash).

 

As grandes cidades mantinham intenso intercâmbio comercial na Mesopotâmia, geralmente importando matérias-primas (madeira, pedras e metais) e exportando manufaturas. Para isso desenvolveram refinadas técnicas de produção, tornando-se hábeis artesãos em metal da época. Eridu foi provavelmente o mais antigo centro urbano da região, mas é através da reconstituição de Ur que se pode conhecer, aproximadamente, o traçado básico de uma cidade sumeriana: sua área urbana  dividia-se em três partes: o Temenos, ou zona sagrada; a antiga cidade murada e a cidade externa; um enorme ziggurat (prédio em forma de pirâmide) dominava a paisagem circundante. As casas, que se enfileiravam em ambos os lados da rua, possuíam pátios internos.

 

Mas a maior de todas as contribuições da civilização sumeriana foi a escrita ideográfica, que surgiu da necessidade de se criar um símbolo capaz de identificar as propriedades do deus e para proporcionar à classe sacerdotal um processo eficiente de organizar a contabilidade dos templos. Inicialmente, as tabuletas traziam o desenho de um animal ou planta, seguido de círculos ou pingos que indicavam a quantidade do produto. A partir dessa linguagem rudimentar os sumérios perceberam que um símbolo inscrito poderia representar também um som e não apenas um objeto, isto é, que um sinal poderia adquirir um valor fonético, e desse modo representar qualquer pensamento. A influência cultural dos sumérios manteve-se por longo período, estendendo-se, de certa forma, até a época da supremacia babilônica (cerca de 1,770 a.C.). Mas as consecutivas invasões, aliadas às crises internas decorrentes da descentralização política e da decadência econômica, determinaram a gradativa absorção desse povo por outros povos.


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