N a Q - PESTE NEGRA - Morte a granel
A peste é uma doença epizoótica dos roedores (atinge grande número de animais em uma mesma região), que se transmite aos homens por intermédio de certas pulgas. Acredita-se que a Ásia tenha sido o berço dessa doença, de onde se espalhou pela Europa em ondas periódicas. Surtos terríveis da peste que dizimaram populações inteiras da Europa durante a Idade Média, eram freqüentemente acompanhadas da prática de exorcismos e outras manifestações do espírito supersticioso da época, inclusive queima de supostas bruxas e feiticeiros, matança de judeus, etc., o que não impediu, porém, que 25 milhões de pessoas, um quarto da população européia, fossem vitimadas pela “morte negra” no século 14.
A peste, que teve seu agente causador identificado em 1894 pelos cientistas Shibasaburo Kitasaro e Alexandre Yersin, apresenta-se sob quatro formas diferentes (bubônica, pulmonar, septicêmica e menor) e é transmitida através de pulgas de ratos, que sugam o sangue de roedores infectados e se tornam reservatórios de bacilos que podem ser transmitidos ao homem. Depois de penetrarem no organismo eles se espalham pela corrente sangüínea e linfática, ocasionando a moléstia após um período de incubação que pode durar até seis dias. Na forma chamada bubônica, a mais comum das quatro, os gânglios linfáticos regionais ficam com grande quantidade de bacilos e inflamam-se num período de uns dois dias, provocando o aparecimento de bubões (adenite supurada, ou íngua), de onde deriva o nome da moléstia. Atualmente a peste praticamente desapareceu em decorrência da divulgação de hábitos de higiene, da desratização das residências e mesmo pela evolução natural do ciclo das epidemias.
Esta epidemia inspirou o livro “Decamerão”, de Bocaccio (1313-1375). Nele, referindo-se aos sintomas, o autor diz: "Apareciam, no começo, tanto em homens como nas mulheres, ou na virilha ou nas axilas, algumas inchações. Algumas destas cresciam como maçãs, outras como um ovo; cresciam umas mais, outras menos; chamava-as o povo de bubões. Em seguida o aspecto da doença começou a alterar-se; começou a colocar manchas negras ou lívidas nos enfermos. Tais manchas estavam nos braços, nas coxas e em outros lugares do corpo. Em algumas pessoas as manchas apareciam grandes e esparsas; em outras eram pequenas e abundantes. E, do mesmo modo como, a princípio, o bubão fora e ainda era indício inevitável de morte, também as manchas passaram a ser mortais".
Retratando a situação de caos instalado na cidade: "Entre tanta aflição e tanta miséria de nossa cidade, a autoridade das leis, quer divinas, quer humanas, desmoronara e dissolvera-se. Ministros e executores das leis, tanto quanto outros homens, todos estavam mortos, ou doentes, ou haviam perdido os seus familiares e assim não podiam exercer nenhuma função. Em conseqüência de tal situação permitia-se a todos fazer aquilo que melhor lhes aprouvesse. Para dar sepultura a grande quantidade de corpos já não era suficiente a terra sagrada junto às Igrejas; por isso passaram-se a edificar Igrejas nos cemitérios; punham-se nessas Igrejas, às centenas, os cadáveres que iam chegando; e eles eram empilhados como as mercadorias nos navios".
Em Avignon, na França, vivia Guy de Chauliac, o mais famoso cirurgião dessa época, médico do Papa Clemente VI. Ele sobreviveu à peste e deixou o seguinte relato: "A grande mortandade teve início em Avignon em janeiro de 1348. A epidemia era tão contagiosa que se propagava rapidamente de uma pessoa a outra; o pai não ia ver seu filho nem o filho a seu pai; a caridade desaparecera por completo". E continua: "Não se sabia qual a causa desta grande mortandade. Em alguns lugares pensava-se que os judeus haviam envenenado o mundo e por isso os mataram".
Muitos médicos se dispuseram a atender os pestosos com risco da própria vida, vestindo-se, para isso, com roupas e máscaras especiais (ilustração ao lado). Alguns dentre eles evitavam aproximar-se dos enfermos, prescrevendo à distância e lancetando os bubões com facas de até 1,80 m de comprimento. Em Marselha, frades capuchinhos e jesuítas cuidaram dos doentes, correndo todos os riscos. As conseqüências sociais dessa grande calamidade que se abateu sobre os povos da Ásia e da Europa, foram imensas. As cidades e os campos ficaram despovoados; famílias inteiras se extinguiram; casas e propriedades rurais ficaram vazias e abandonadas, sem herdeiros legais; a produção agrícola e industrial reduziu-se enormemente; houve escassez de alimentos e de bens de consumo; a nobreza se empobreceu; reduziram-se os efetivos militares e houve ascensão da burguesia que explorava o comércio. Com a redução numérica do clero o poder da Igreja se enfraqueceu, havendo ainda mudanças nos costumes e no comportamento das pessoas.
A peste negra foi a maior, mas não a última das epidemias. A doença perseverou sob a forma endêmica por muitos anos e outras epidemias menores foram registradas nos séculos seguintes. Citam-se como surtos mais importantes a peste de Milão, no século XVI (190.000 mortes), a peste de Nápoles, em 1656, a peste de Londres em 1655 (70.000 mortes), a de Viena em 1713 e a de Marselha em 1720. Entre 1894 e 1912 houve uma outra pandemia que teve início na India (11 milhões de mortes), estendendo-se à China, de onde alcançou a costa do Pacífico, nos Estados Unidos.
No Brasil, a peste entrou pelo porto de Santos em 1899 e propagou-se a outras cidades litorâneas. A partir de 1906 foi banida dos centros urbanos, persistindo pequenos focos endêmicos residuais na zona rural. Além dela, outras três importantes epidemias assolaram o continente americamo: a de varíola, levada ao México pelos conquistadores espanhóis, que dizimou as populações indígenas daquele país; a de febre amarela, originária da América Central, que atingiu os membros da expedição de Cristóvão Colombo e se espalhou para outros países do continente, inclusive o Brasil; e a gripe espanhola, em 1918, que provocou a morte de 20 milhões de vítimas.
Fonte: Caminhos da Medicina





