Mares e oceanos - ABISMOS OCEÂNICOS

Genericamente se pode dizer que o fundo do mar é formado por uma seqüência de degraus. O primeiro deles é a plataforma continental; depois vem o talude, uma encosta que desce até a planície submarina, na qual aparecem, em alguns pontos, cortes profundos com milhares de quilômetros de extensão e poucos de largura: são as fossas submarinas, que podem atingir os 11 mil metros de profundidade e constituem o último “degrau” do mar. Essas três zonas mais claramente reconhecíveis são definidas como:

 

- Zona batial - até 2.000 metros. Ambiente livre da influência das ondas e da maré. Sua temperatura e salinidade são relativamente estáveis, sendo alteradas apenas pela passagem de correntes marinhas profundas.

- Zona abissal - até 6.000 metros. Ocupa 75% do fundo oceânico e possui uma temperatura uniforme e constante de 4 ºC. A ausência de luz é completa, o que permite a existência de crustáceos e peixes cegos e impede a ocorrência de fotossíntese.

- Zona hadal - além de 6.000 metros. A pressão é superior a 600 vezes a da superfície. Abrange todas as fossas abissais.

 

Até meados do século 19 supunha-se ser impossível a existência de qualquer animal a uma profundidade superior a meio quilômetro, “por causa da pressão”. No entanto, depois das primeiras dragagens profundas realizadas entre 1872 e 1876, essa opinião foi completamente esquecida porque onde quer que nele fosse coletado material, o fundo do mar apresentava vida. E como algumas das espécies que emergiam nas amostras fossem animais que se tinham tornado raros na superfície, aventou-se a hipótese de que os fundos marinhos guardassem ainda vivos alguns seres que só se conheciam como fósseis.

 

Essa esperança não foi de todo frustrada. A zoologia enriqueceu-se extraordinariamente com alguns bichos retirados das profundezas, entre os quais a Neopilina (o mais primitivo tipo de molusco, que se julgava extinto), a Latimeria (peixes muito especiais e considerados fósseis vivos), o Rhizocrinus (conhecido como lírio-do-mar, também tido como desaparecido) e os bronquiópodes (animais que têm o corpo mole incluso numa concha). Entretanto, a esperança de encontrar na fauna abissal uma amostragem completa de “fósseis vivos” foi frustrada, já que as faunas profundas são formadas por animais que evoluíram nesses ambientes e não constituem nenhum “museu da vida”.

 

Pesquisas realizadas em 1958 estabeleceram que no Pacífico noroeste, de acordo com a profundidade, há duas comunidades de animais: uma abissal superior, que vai de 3.000 a 4.500 metros, e outra inferior, de 4.500 a 6.000 metros. Da mesma forma, há comunidades diversas em águas tropicais e frias. Outros trabalhos sobre as populações hadais e abissais constataram que o número de indivíduos, ou de espécies, decresce com a profundidade, o que parece acontecer em virtude da falta progressiva de alimentos. Uma prova disso é que quando as grandes fossas se encontram na proximidade dos continentes, sua biomassa é maior do que a daquelas mais rasas, porém mais distantes das terras emersas. A margem do continente, com sua plataforma rica em vida, certamente age nesse caso como fornecedora de alimento (que “chove” sobre o abismo).

 

É comum nos seres das profundezas a diminuição de suas estruturas de sustentação (conchas, carapaças e esqueletos). No caso dos peixes, é provável que a falta de vitamina D, cuja produção exige luz, contribua para que isso aconteça, mas quanto às outras carapaças calcárias, se pode imaginar (entre várias outras causas possíveis) que o leve aumento da acidez da água – devido ao gás carbônico dissolvido pela maior pressão – tenha certa influência sobre o fenômeno. Ainda não se esclareceu, também, por que muitas das formas abissais são gigantescas dentro do seu próprio grupo. Como a tendência ao gigantismo é comum aos seres de águas frias, pensou-se que ele poderia ser atribuído à baixa temperatura das profundezas, mas há quem prefira relacioná-lo ao efeito secundário da pressão.

 

Os problemas ecológicos das espécies profundas (na ilustração acima, um peixe abissal) também são peculiares. Todos esses ecossistemas dependem da “chuva” de alimentos que vem da superfície, já que com a falta de luz não há produção primária (fotossíntese). Mas essa “chuva”, propriamente dita, não parece ser a fonte direta de alimento do bentos profundo. Ao longo de sua queda ela é pouco degradada quimicamente (pois com o aumento da pressão os microrganismos que poderiam fazer isso diminuem a velocidade de reação do seu metabolismo), sendo atacada por uma população especial de bactérias somente quando atinge o fundo. Essas bactérias, ao que parece, constituem a base da pirâmide alimentar dos habitantes das profundezas, formadas principalmente por populações especializadas em devorar lodo carregado de bactérias.

 

Nessas paragens praticamente não há plancto, microscópicos seres vivos que são levados passivamente pelas correntes marinhas. Também são raros os filtradores de material em suspensão na água, como as esponjas, tão comuns nas zonas superiores. Por outro lado, na região abissal não são encontrados os grandes predadores dos ecossistemas superficiais, e a explicação para o fato é que eles não poderiam subsistir nas grandes profundidades porque gastariam mais energia para procurar seu escasso alimento do que aquela que este lhes poderia fornecer. Embora muitas das espécies que habitam as grandes profundidades sejam originadas do litoral ártico e antártico, e por isso adaptadas ao frio, outras provêm de águas temperadas e tropicais. Aparentemente, no fim do período terciário houve um resfriamento brutal das águas abissais, que destruiu grande parte de seus antigos habitantes. No caso, estaria ocorrendo hoje o repovoamento das águas profundas.

 

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