Mares e oceanos - PASSAGEM DE DRAKE

A Passagem de Drake, trecho de mar aberto que separa a América do Sul da Península Antártica, tem a fama de ser o local onde as embarcações encontram as mais perigosas situações de navegação do planeta, porque é nele que ocorrem as piores condições meteorológicas marítimas do mundo. Seu nome é uma homenagem ao explorador britânico do século 16, Sir Francis Drake, apesar dele, ironicamente, jamais ter passado por essa rota. Em 1577, financiado pela rainha da Inglaterra, ele reuniu uma frota de cinco navios pequenos com 166 tripulantes, realizando, então, uma tumultuada, mas bem sucedida jornada pelo caminho temido por todos os marinheiros: a ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico, no extremo sul do continente americano. Mas para fazer isso ele optou pelas águas menos turbulentas do Estreito de Magalhães

 

A primeira menção a esta passagem foi feita em 1616 pelo capitão holandês Willem Cornelisz Schouten, do navio Eendracht, que explorava aquela região oceânica em busca de uma nova rota entre ocidente e oriente. Posteriormente se ficou sabendo que a largura máxima desse corredor marítimo é de 650 quilômetros, que ele constitui a distância mais curta entre a Antártica e as outras terras do mundo, e que em toda sua extensão existem as pequenas ilhas Diego Ramirez, situadas a cerca de 50 km ao sul do Cabo Horn, o ponto mais meridional da América do Sul. Não existem outras terras na mesma latitude que a da passagem de Drake (que algumas referências mais antigas chamam de estreito de Drake), o que permite à corrente que dá a volta na Antártica circular livremente com um fluxo equivalente a cerca de 600 vezes o do rio Amazonas. A fauna da passagem da região é constituída principalmente de baleias, golfinhos e  inúmeras aves marinhas. .

 

As águas do Atlântico Sul, do Índico e do Pacífico Sul juntam-se em torno da Antártica formando o oceano Austral, também conhecido como oceano Antártico ou oceano do Sul, única massa de água que circula o planeta sem nenhum obstáculo, em eternas correntes para Leste. Mas no encontro do Pacífico com o Atlântico este enorme volume de água fica afunilado entre a América do Sul e a Península Antártica, o que acelera ainda mais as suas correntes. A esse fenômeno se associam as ondas gigantes cuja formação é facilitada pelas variações de profundidades e ventos fortes, as águas geladas e os icebergs que derivam em todas as direções, tudo contribuindo para emprestar à Passagem de Drake a fama tão ruim que lhe é atribuída..

 

O explorador paulista Júlio César Fiadi (www.juliofiadi.com.br), primeiro brasileiro a chegar aos dois pólos da Terra, experiência que ele narra em seu livro “Rumo aos Pólos”, revela, sobre a travessia feita por ele da Passagem de Drake, que “Nossa primeira ancoragem, a Ilha Deception, não poderia ser mais interessante. Tendo a forma de um anel, com apenas uma pequena entrada para seu interior, a ilha é um vulcão semi-submerso em atividade. Apenas as pontas da sua cratera ficam para fora d’água. Após atravessar uma pequena entrada que tem o sugestivo nome de Foles de Netuno (porque só mesmo Netuno poderia fazer o vento soprar ali com tanta violência), entramos para o interior da ilha, uma enorme baía circular. No fundo desta baía existe uma pequena lagoa chamada Telefon Bay, formada em 1969 pela mesma erupção vulcânica que destruiu uma base chilena que existia nas proximidades. Devido ao pequeno tamanho da lagoa e à sua pouca profundidade, somente com barcos como o Kotic é possível ancorar em Telefon Bay. Em Deception começamos nossas caminhadas pela Antártica, visitando colônias de pingüins e a estação baleeira abandonada de Whalers Bay. Por estarmos próximos ao círculo polar, onde durante o verão o sol só se põe por volta das 23hs, caminhávamos sem nos preocupar com o anoitecer.

 

Se um homem cai nas águas geladas da Antártica, morre de hipotermia em aproximadamente 3 minutos. Em algumas baías da Ilha Deception, no entanto, o vulcão aquece a água a ponto de deixá-la quente e fumegante para um delicioso banho de mar. E assim foi possível ver alguns brasileiros, com os mesmos maiôs e biquínis que normalmente usam em nossas praias, nadando nas águas da Antártica. De Deception navegamos mais para o Sul até uma região de micro-clima privilegiado, apelidada pelos pesquisadores de "cinturão da banana", devido aos muitos dias de bom tempo e temperaturas mais quentes durante o verão. O lugar justificou plenamente o apelido: tantos foram os dias de bom tempo, que quase acabamos com nosso estoque de protetor solar. Usando roupas especiais para águas frias, aproveitamos para fazer alguns mergulhos (autônomos e livres). Encontramos águas tão cristalinas como as do Caribe, e surpreendentemente, também fervilhantes de vida.

 

Visitamos algumas bases de pesquisa, como a americana Palmer Station e a ucraniana Vernadski. Devido a falta de estrutura para receber embarcações de grande porte, navios de turismo são proibidos de se aproximar. Já os veleiros são bem vindos. Ansiosos por quebrar o isolamento (eles passam dois anos inteiros na Antártica), os cientistas de Vernadski chegam a colocar pequenas placas nas rotas dos veleiros, com convites para um drink em suas instalações. Assim fomos acolhidos de forma carinhosa.

 

Existem alguns refúgios não habitados espalhados pela Antártica. São cabaninhas de portas sempre destrancadas, equipadas para recepcionar algum eventual explorador perdido. Visitamos uma delas na baía Dorian, e ficamos impressionados com os equipamentos mantidos ali pelos britânicos, à disposição de quem precisar. Caixas e mais caixas de mantimentos, uma cozinha completa, aquecedores, barracas polares, equipamentos de alpinismo, ferramentas e livros, muitos livros. Publicações incríveis, a maioria sobre expedições, que devem ser lidas ali mesmo. Cada veleiro que visita a cabaninha, e que tem a bordo livros já lidos, costuma deixá-los no refúgio. Assim, num lugar sem trancas e sem ninguém tomando conta, a biblioteca, em vez de diminuir, só vai aumentando.

 

Em fevereiro de 2003, as prateleiras da biblioteca de Dorian receberam mais dois livros: durante a expedição "Travessia do Drake", deixei um exemplar de "Rumo aos Pólos" na cabaninha, e o Betão Pandiani deixou o seu lindo livro "Rota Austral". Espero um dia poder voltar a vê-los, naquelas históricas prateleiras de madeira.

 

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