Corpo humano - MORTE
Morte é a cessação completa e definitiva da vida de um animal ou vegetal. Biologicamente, estão vivos todos os seres formados por proteínas, gorduras e hidratos de carbono, cujo funcionamento celular é organizado e dirigido pelo ADN enquanto esse conjunto alimentar-se, crescer e reproduzir-se. Ele morre e se decompõe quando, por alguma ação exterior, perde essas três características (apesar de manter a mesma composição química).
Nos organismos unicelulares a morte sobrevém pelo aparecimento de condições desfavoráveis. Se elas permanecem vantajosas e o meio adequado, a morte praticamente não os atinge, já que ela se traduz apenas por uma divisão celular que deixa vivas as duas células filhas, e assim por diante. Nos organismos multicelulares complexos (como uma árvore, um inseto ou um vertebrado) a morte é, ao contrário, a conseqüência inevitável da vida, uma vez que a atividade funcional produz certos detritos insolúveis que se depositam nos tecidos, endurecendo-os e dificultando seu funcionamento. É a morte por velhice (a morte natural), que ocorre apenas em um por cento dos casos, sendo mais comum o óbito por doença, intoxicação ou traumatismo. O ser humano morre sempre por descontinuidade nervosa, qualquer que seja a causa mortis. A ruptura da sinergia nervosa determina a supressão da unidade psíquica, o que, no homem, precede a morte física.
O envelhecimento e morte da célula estão relacionados com os de todo o organismo; mas não se confundem, pois ainda na fase embrionária pode haver células que estejam continuamente sofrendo esses processos. Além disso, todo o corpo é envolto por células mortas (capa externa da epiderme), que exercem função protetora. Por outro lado, a morte do indivíduo não implica na paralisação imediata dos processos vitais em todas as células. Muitas células transplantadas no momento da morte de um indivíduo podem continuar vivendo em outro hospedeiro, ou em cultura de tecidos. Órgãos inteiros são retirados momentos após o falecimento de uma pessoa, para se efetuarem transplantes, e sobrevivem em outro corpo.
Em medicina legal, sinais como o abaixamento da mandíbula, lividez dos tegumentos, desaparecimento da contração muscular, rigidez do corpo, queda progressiva de temperatura, flacidez do globo ocular, imobilidade da íris, coagulação do sangue e putrefação, são indicadores de morte, que pode ser considerada natural, violenta ou súbita. Esta última pode ser natural (síncope, embolia, congestão bulbar, etc.), mas diferencia-se da primeira pelo estado do cadáver, que em geral não apresenta os sinais exteriores de desgaste físico (decorrente do envelhecimento) ou esgotamento típico de uma doença. Já a morte violenta pode ser acidental ou criminosa, que nos dois casos deixam sinais visíveis (pancadas, ferimentos, traços de envenenamento).
Depois que o coração para de bater, a circulação e a respiração cessam quase imediatamente. É a chamada morte clínica. Em seguida, a morte vai se propagando pelo corpo, e cerca de quatro minutos depois os centros nervosos localizados no cérebro são atingidos e irremediavelmente destruídos. Este período entre a morte clínica e a morte definitiva é estudado pela criobiologia.
Possível limite derradeiro da consciência e da vida, a morte naturalmente se oferece à meditação filosófica como um problema fundamental. Na antiguidade, ao ser colocado diante da iminência de morrer, Sócrates refletiu sobre esse instante derradeiro, buscando-lhe o significado. No Fédon, de Platão, são descritos os últimos momentos do filósofo condenado a suicidar-se bebendo cicuta (199 a.C.). E se, segundo outros relatos platônicos, Sócrates já debatera a questão da morte, foi no momento em que ela de fato se aproximava que ele se dispôs a meditar mais demoradamente sobre seu significado, considerando-a um problema real e imediato a exigir compreensão.
Apoiado em teses sustentadas por Pitágoras, Sócrates analisou vários argumentos que garantiriam a imortalidade da alma, utilizando inicialmente a noção de mudança ou devir (aquilo que há de vir a ser), como transformação de algo em seu contrário. Ou seja, se há a passagem vida/morte, logicamente nada impede que haja a outra, morte/vida. Em seguida ele sustenta que o conhecimento das essências, ou idéias eternas e incorpóreas, pressupõe uma preexistência extraterrena da alma a sugerir a possibilidade desta continuar existindo depois da morte do corpo.
Um terceiro argumento resulta da análise do próprio conceito de destruição ou de decomposição: esta só atingiria o que é composto, nunca o que é simples, como a alma. Finalmente, Sócrates (ou Platão, falando através dele) mostra que nenhuma idéia pode admitir em si mesma o seu contrário: assim, do mesmo modo que a grandeza, por exemplo, não pode admitir nela própria a pequenez, também a alma, cuja essência seria a vida, excluiria a morte.
Nos filósofos vinculados ao Cristianismo, a questão da alma sobreviver à morte do corpo torna-se, naturalmente, central e decisiva. Vista como um dos limites da condição humana, seu conceito aparece como tema fundamental da filosofia existencial, mesmo em sua versão atéia, para a qual o homem é basicamente um ser-para-a-morte, ou seja, ela é a destinação do homem, que ao se cumprir, limita e define sua existência.





