V a Z - VOLTAR À VACA FRIA

A expressão voltar à vaca fria (ou voltando à vaca fria) é usada para indicar que alguém pretende retornar a algum assunto que vinha sendo debatido em discurso, discussão ou troca de idéias e pontos de vista, mas foi interrompido por um desvio inesperado no tema da conversa. Hoje em dia essa frase é pouco lembrada porque o homem do povo, que mantém ou modifica a linguagem falada, tem preferido usar a frase “como eu estava dizendo...” para reiniciar o que explicava ou comentava quando sua fala foi interrompida por uma observação ou comentário de quem o ouvia.   

 

O professor Ari Ribolbi, gaúcho residente em Porto Alegre, é autor de quatro livros onde explica a origem de palavras e expressões usadas no Brasil. Em um deles (O Bode Expiatório), ele esclarece que a frase portuguesa "Voltar à vaca fria" seria a tradução de “revenons a nos moutons”, frase dita à certa altura da peça teatral A Farsa do Advogado Pathelin, cujo significado é “voltemos a nossos carneiros”, usada na França com o mesmo sentido do da sua versão brasileira. Segundo Riboldi, essa transformação de carneiros em vaca pode ser explicada pelo fato de que antigamente, em Portugal, costumava-se servir, antes das refeições, um prato frito feito com carne de gado, ao qual se dava o nome de vianda. Praticamente sem uso no Brasil, tal palavra tem vários significados: carne animal usada na dieta alimentar humana; qualquer gênero alimentício; guisados e assados; o mesmo que marmita (no RS), são alguns deles.

 

Por sua vez, Raimundo Magalhães Júnior (1907-1981), jornalista, poeta, biógrafo, historiador e teatrólogo brasileiro que assinava R. Magalhães Jr., autor do Dicionário de Provérbios e Curiosidades, também afirma que “voltar à vaca fria” equivaleria à frase mencionada acima (revenons a nos moutons), relacionando-se com a “vianda fria, prato com que se iniciam as refeições e ao qual não é costume voltar depois de servidos os pratos quentes”. Essa palavra foi muito empregada no passado, inclusive pelo padre José de Anchieta, que ao usá-la em um de seus versos - “Se não comer tal vianda com que a alma sempre anda satisfeita” – referia-se não ao seu primeiro significado (carne), mas a colocava como representando a hóstia.

 

Com relação à peça A Farsa do Advogado Pathelin - ou La Farse de Maitre Pierre Pathelin, no original, ela foi escrita no fim da Idade Média, provavelmente em 1460, por autor desconhecido (alguns pesquisadores afirmam que a obra é de Pierre Blanchet, enquanto outros atribuem a autoria a Antoine de la Sale), com a primeira edição impressa desse trabalho sendo feita alguns anos depois, em 1474. Seu enredo conta a história de um advogado já antigo na profissão, cuja reputação fora destruída pelas trapaças que passara a cometer de certa época em diante. Ele e sua esposa Guilhermina enfrentavam um sério problema, que era o de conseguir dinheiro que pudesse garantir a sobrevivência de ambos. Sem causas para defender, e sofrendo com a necessidade de adquirir muitas coisas, ele decide apropriar-se dos tecidos de que precisava na loja de um comerciante chamado Guilherme, a fim de mandar fazer um lindo vestido para a esposa e um novo terno para ele. E é o que faz, mas solicitando ao vendedor que recebesse o dinheiro em sua casa, naquela noite, oportunidade em que o mesmo também poderia jantar com o casal. Mestre Guilherme não fica satisfeito com a idéia de vender fiado, porém, como estava cobrando pelas peças negociadas o dobro do seu valor normal, ele resolve arriscar. E entrega as mercadorias aos clientes.

 

Na hora combinada, quando o comerciante chega à residência do advogado, este se deita na cama alegando não se sentir bem, enquanto sua esposa garante que o marido não poderia ter comprado coisa alguma porque aquele era o terceiro dia em que ele se encontrava acamado. O vendedor vai embora, mas volta logo depois disposto a receber o que lhe era devido. Pathelin finge, então, ter tido um ataque de loucura, e mestre Guilherme finalmente se convence de que foi enganado pelo espertalhão.

 

Pouco tempo depois o comerciante processa um empregado que havia comido algumas ovelhas de seu rebanho. O advogado Pathelin, defensor do acusado, comparece mascarado ao julgamento, para não ser reconhecido, mas mesmo assim mestre Guilherme percebe quem ele é e lhe cobra ali mesmo o preço das peças de tecido não pagas. A sessão do júri envereda então por outro caminho, até que juiz, irritado com aquela discussão fora de propósito, bate o martelo e exclama em tom impositivo: “voltemos a nossos carneiros”. No final da história o acusado é absolvido, mas quando o advogado lhe cobra os honorários combinados, recebe um béééé como resposta.

 

Do texto de “A Farsa do Advogado Pathelin”, um divertido espetáculo para todas as idades, surgiu a frase-feita “Voltar à Vaca Fria”. O que não se consegue explicar é por qual razão a expressão portuguesa trocou os carneiros da farsa francesa por um dos saborosos quitutes de sua gastronomia.  

 

 

 

             

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