Período republicano - 1893 - REVOLTA DA ARMADA

O movimento rebelde denominado Revolta da Armada, deflagrado pela esquadra brasileira em setembro de 1893, começou a delinear-se um ano e meio antes, em 6 de abril de 1892, quando treze oficiais-generais do Exército e da Marinha assinaram um manifesto intimando o marechal Floriano Peixoto - que havia assumido a presidência da República em virtude da renúncia do marechal Deodoro da Fonseca - a convocar novas eleições para preenchimento do cargo. Os contestadores alegavam que como Deodoro havia se afastado do governo sem tê-lo exercido pelo tempo mínimo de dois anos, Floriano Peixoto, ao substituí-lo, não estaria cumprindo o dispositivo constitucional competente. Os descontentes organizaram manifestações de rua, exigindo a renúncia do presidente, e este, em resposta, não só editou o decreto 791, que suspendia as garantias constitucionais por 72 horas, mas também mandou prender os manifestantes, exilando-os na Amazônia. Além disso, os signatários foram demitidos das comissões e comandos que exerciam e a seguir reformados.

 

Em 6 de setembro de 1893, um grupo de oficiais de alta patente da Marinha, entre os quais encontravam-se os vice-almirantes Custódio José de Melo, Luis Felipe Saldanha da Gama, e Eduardo Wandelkok, ex-ministro da Marinha e candidato declarado à sucessão de Floriano, exigiu a imediata convocação dos eleitores para a escolha dos governantes. Sua adesão refletia o descontentamento da Armada com o pequeno prestígio político da Marinha em comparação ao do Exército. No movimento encontravam-se também jovens oficiais e muitos monarquistas.

 

Liderados pelos almirantes Custódio José de Melo e Luiz Felipe Saldanha da Gama, os marinheiros rebelados dominaram algumas das mais poderosas unidades da armada, como os encouraçados Aquidabã (ilustração acima) e Sete de Setembro; os cruzadores República, Trajano e Tamandaré; os cruzadores auxiliares Esperança e Pereira da Cunha; as torpedeiras Araguari, Marcílio Dias e Iguatemi; a canhoneira Marajó; o encouraçado fluvial Javari; o navio transporte Madeira, além de inúmeros navios civis incorporados às forças rebeldes para suprir as necessidades da esquadra no transporte de combustível, munição e víveres. Eram eles o Júpiter, Marte, Mercúrio, Paraíba, Vênus, Uranus e Pallas, da Companhia Frigorífica Fluminense; Adolpho de Barros, Gil Blas, da Navegación Lage; Meteoro, do Lloyde Brasileiro; Luci, Guanabara, Vulcano, Glória e Bitencourt, da Wilson and Sons.

 

Em 17 de setembro, três desses navios de guerra deixaram a baía para apoiar operações dos federalistas no sul do país. Decorridas algumas semanas, os revoltosos ainda controlavam a maior parte da esquadra, mas o duelo incessante com as baterias dos fortes costeiros do Rio de Janeiro, que já durava seis meses, deixou-os esgotados, enquanto o cerco das forças legalistas apertava-se cada vez mais. Essa situação tornou-se ainda pior quando uma nova esquadra do governo chegou à baía de Guanabara, uma frota poderosa composta pelos seguintes navios de guerra, alguns deles adquiridos às pressas no exterior: Alagoas e Solimões (couraçados); Parnaíba e Tiradentes (cruzadores); Andrada e Niterói (cruzadores auxiliares); Bento Gonçalves, Tamboril, Pedro Afonso, Sabino Vieira, Silva Jardim e Pedro Ivo (torpedeiras); Gustavo Sampaio (caça-torpedeira); Piratini (canhoneira); Itaipu, Santos e São Salvador (transportes) e Itaoca (cargueiro).

 

Em vista disso, em 9 de fevereiro de 1894 os rebeldes decidiram tentar um desembarque em Niterói, mas foram obrigados a voltar aos navios. Acossados, bloqueados e atacados pela nova esquadra governista, os revoltosos que ainda estavam na baía de Guanabara, entre os quais Saldanha da Gama, pediram asilo às fragatas portuguesas Mindelo e Afonso de Albuquerque, sendo por elas recolhidos em 13 de março de 1894. O fato deu origem a um incidente diplomático que culminou com o governo de Floriano Peixoto rompendo relações com Portugal. Sobre essa fracassada iniciativa, o jornal carioca Diário de Notícias, de 10 de janeiro, publicou a seguinte reportagem:

 

"Na madrugada de ontem a população da nossa capital foi despertada por um vivíssimo tiroteio, entrecortado de sucessivos tiros de canhão, anunciando um grande combate para os lados de Niterói. Efetivamente os revoltosos levados ao desespero em nossa baía pelo heroísmo das forças legais e pela falta de viveres e disciplina a bordo, imaginaram dar um combate decisivo, pondo em movimento todas as suas forças e atacando simultaneamente Maruí, Ponta da Areia e sobretudo a apetecida Armação. O combate nesses três pontos tornou-se renhidíssimo, trocando a todo momento a artilharia de parte a parte e ouvindo-se continuadas descargas de fuzilaria.(...)  Mal clareava o dia e em todos os pontos da cidade, de onde se podia divisar a luta travada, a população aglomerava-se, ansiosa de saber o que se passava, e confiada na bravura dos que defendiam a heróica Niterói. O combate ia muito renhido quando de repente as baterias da Ponta da Areia e da Armação cessaram o fogo, aproximando-se as lanchas e havendo todos os indícios de um desembarque. (...) Muito provavelmente por tática, as guarnições desses pontos tinham-se concentrado e a marinhagem desenfreada julgava-se já senhora das posições, quando a ofensiva foi tomada, com valor, as forças desembarcadas foram cercadas pela infantaria e expulsas do território fluminense, deixando muitos mortos e feridos e fugindo vários marinheiros a nado.  Desalojados das posições, as bandeiras brancas foram arrancadas em meio aos vivas à República, e a esquadra revoltada, com menos duas lanchas, que foram a pique, fez-se ao largo, custando-lhe mais uma tremenda derrota, que certamente levará o ex-neutro da Ilha das Cobras a não tentar outro desembarque”.

 

Em abril de 1894, Custódio José de Melo entregou-se às autoridades argentinas em Buenos Aires. Acusado, em 1901, de ter participado ativamente de uma conspiração, foi preso e internado na ilha das Cobras, sendo anistiado posteriormente. O vice-almirante Eduardo Wandencolk, acusado em 1893 de conspiração, ficou detido na fortaleza de Santa Cruz por mais de um ano, até a data de sua absolvição. Já o vice-almirante Saldanha da Gama (ilustração acima), declarado traidor da pátria, aderiu ao movimento revolucionário que então ocorria no Rio Grande do Sul. Em 1895 seu cadáver apareceu coberto de ramos na entrada de uma gruta, após a batalha de Campo Osório, a última acontecida durante a revolução federalista.

 

 

 

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