Período republicano - 1956 - REVOLTA DE JACAREACANGA, A

Entre outubro de 1955 e janeiro de 1956, os militares ligados à UDN e liderados pelos ministros Eduardo Gomes, da Aeronáutica, e Amorim do Vale, da Marinha, sofreram sérias derrotas. A primeira foi quando viram Juscelino Kubitschek e João Goulart, apoiados pela aliança PSD/PTB, serem eleitos presidente e vice-presidente da República, em 3 de outubro de 1955. A segunda, quando o Movimento do 11 de Novembro, liderado pelo ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott, depôs Carlos Luz, o presidente em exercício, substituiu Eduardo Gomes por Vasco Alves Seco, e Amorim do Vale por Antônio Alves Câmara, garantindo assim as condições necessárias à posse dos eleitos. A terceira ocorreu em 31 de janeiro de 1956, quando os eleitos foram empossados.

 

Na noite de 10 de fevereiro de 1956, militares da Aeronáutica liderados pelo major Haroldo Veloso e capitão José Chaves Lameirão, se apoderaram de uma aeronave e decolaram do Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, rumo à base aérea de Jacareacanga, no sul do Pará, instalando ali o seu quartel-general. Esses militares temiam uma represália do grupo vitorioso em novembro do ano anterior, e por esse motivo não concordavam com a permanência, no governo JK, do ministro Vasco Alves Seco na pasta da Aeronáutica. Dez dias depois do início do levante, os rebeldes já controlavam as localidades de Cachimbo, Belterra, Itaituba e Aragarças, além da cidade de Santarém, contando inclusive com o apoio das populações locais. Haviam recebido também a adesão de mais um oficial da Aeronáutica, o major Paulo Victor da Silva, que fora enviado de Belém para combatê-los (na ilustração acima, o capitão Lameirão se protege de um ataque no campo de pouso da Jacareacanga).

 

Apesar de enfrentar uma rebelião de pequena monta o governo federal encontrou dificuldades para reprimi-la devido à reação de oficiais, sobretudo da Aeronáutica, que se recusavam a participar da repressão aos rebelados. Por isso, somente após 19 dias o movimento rebelde foi finalmente controlado pelas tropas legalistas, ocorrendo, então, a prisão do major Veloso, principal líder do movimento. Seus companheiros fugiram para a Bolívia e lá se asilaram, mas logo depois foram beneficiados pela "anistia ampla e irrestrita" concedida pelo Congresso, por solicitação do próprio presidente JK

 

Esse movimento rebelde foi descrito por Marco Túlio Freire Baptista em “A Revolta de Jacareacanga - A FAB em armas na Amazônia” ([email protected]), cujo resumo explica que “A Revolta de Jacareacanga foi a primeira das duas revoltas ocorridas no seio da Força Aérea Brasileira. Foi o resultado de um crescente descontentamento das Forças Armadas com a política vigente no Brasil desde a morte de Getúlio Vargas, em 1954. Ela foi liderada pelo então major Haroldo Coimbra Velloso e seu amigo e correligionário de ideais, capitão Lameirão. Em 10 de fevereiro de 1956 os dois roubaram uma aeronave Beechcraft do Campo dos Afonsos e seguiram rumo ao Brasil Central, Jacareacanga, a fim de estimular os demais militares das três Forças a se rebelarem contra o regime vigente. Ambos imaginavam precipitar o golpe militar que só ocorreria oito anos mais tarde. O movimento não contou com o apoio esperado. Exceto a adesão do major Paulo Vitor com uma aeronave C-47, alguns poucos militares nas localidades em que passou e, ainda alguns caboclos, nenhum dos esquadrões que Velloso esperava que aderisse se manifestou, a não ser para lhe dar combate. Algo realmente falhou na hora H, pois estes homens personificavam o pensamento da maioria dos militares de sua época. Fato confirmado posteriormente com os acontecimentos que se desenrolaram entre a renúncia de Jânio Quadros e o Golpe Militar de 1964”.

 

Segundo jornais da época, o presidente Juscelino Kubitschek, ao ser indagado sobre o que acontecia, declarou que "Trata-se de uma incontida explosão de ódio acumulado, pois ainda nem tive tempo de errar. Usarei de energia e severidade contra aqueles que falharem nos deveres da Pátria, ameaçando o regime". Em contrapartida, ao falar sobre os motivos que o levaram a liderar a rebelião de Jacareacanga, Veloso (na ilustração, com o capitão Lameirão) explicou que "Aos que não entendem, é fácil dar a razão do movimento: o Brasil há um ano, parecia ter se livrado do grupo que nunca teve o direito de governá-lo, como ficou cabalmente provado pela sua conduta à frente dos destinos da Nação, e que, aliás, foi a causa de sua queda. Era lógico, portanto, que não nos conformássemos com sua volta ao poder".

 

Para melhor compreensão do movimento de Jacareacanga é necessário lembrar que a carta-testamento deixada por Getúlio Vargas exaltava o nacionalismo e atacava os trustes estrangeiros. O trauma causado por seu suicídio abalou a sensibilidade de grande parte da sociedade, e com isso muitos cidadãos, embora não comunistas, sentiram-se atraídos para a pregação dessas frentes, que de certa forma também pregavam o nacionalismo, mas com objetivos próprios. Isto veio reforçar as bases comunistas de guerra fria no Brasil.

 

Em 31 de janeiro de 1956 Juscelino Kubitschek assumiu a Presidência da República. Ele era apoiado pelos getulistas, cuja orientação populista atraíra muitos elementos de tendência esquerdista, o que fez crescer nos meios militares a crença de que o Partido Comunista ficara fortalecido e ascendera ao Poder na pessoa do novo Presidente. Alguns dias depois, oficiais liderados pelo major-aviador Haroldo Coimbra Veloso iniciaram a insurreição que teve como base das operações a longínqua localidade paraense erguida em meio à selva, um posto de apoio aeronáutico às margens do rio Tapajós, de difícil acesso por terra, cuja construção fora dirigida pelo próprio Veloso.

 

Três anos depois, novo movimento insurrecional teve lugar na Aeronáutica; desta vez em Aragarças (GO), para onde foi levado um avião "Constellation", da Panair do Brasil, seqüestrado pelos revoltosos, em 3 de dezembro de 1959 e desviado de sua rota com destino ao Norte. Neste episódio liderado pelo tenente-coronel João Paulo Moreira Burnier, o então tenente-coronel Haroldo Veloso também estava presente, acompanhado pelo tenente-aviador Leuzinger Marques Lima e mais dois oficiais do Exército.

 

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