Período republicano - 1959 - REVOLTA DE ARAGARÇAS, A
Em fevereiro de 1956, em Jacareacanga, interior do Pará, o governo federal sufocou um movimento rebelde iniciado por oficiais da Aeronáutica inconformados com a posse de Juscelino Kubitschek como Presidente da República. Apesar dos líderes dessa insurreição – presos na época pelas autoridades federais – terem sido anistiados pouco tempo depois, isso não abrandou a insatisfação e desconfiança com que muitos militares, especialmente os da Força Aérea, encaravam o governo JK. Por isso a conspiração continuou sendo tramada.
Seu desfecho ocorreu em 2 de dezembro de 1959, tendo como estopim a possibilidade aventada por Jânio Quadros (que contava com o apoio dos militares) de abandonar sua candidatura à eleição presidencial marcada para o ano seguinte (ele depois mudou de idéia e acabou sendo eleito com boa vantagem sobre seu concorrente). Além disso, os rebeldes também acusavam o então governador gaúcho, Leonel Brizola, de liderar uma conspiração comunista no sul do país, e ameaçavam levar para o "paredão os que tripudiavam sobre a miséria do povo".
Na verdade, a nova conspiração que teve como palco a localidade de Aragarças, em Goiás (ilustração acima), começara a ser articulada em 1957, dela participando o ex-líder de Jacareacanga, major-aviador Haroldo Veloso, e dezenas de outros militares e civis, entre eles o tenente-coronel aviador João Paulo Moreira Burnier, principal líder da conjuração. Seu objetivo maior era o de iniciar um movimento revolucionário para afastar do poder o grupo que o mantinha em mãos, cujos elementos seriam, segundo os líderes da conspiração, corruptos e comprometidos com o comunismo internacional. Quanto ao local, ele fora escolhido por ser o caminho de rotas aéreas, o que o transformaria, na visão dos organizadores do protesto, “em um ponto de difusão da luta porque serviria de encontro e ligação de aeronaves vindas do Rio de Janeiro e de outras capitais”.
A Revolta de Aragarças, nome pelo qual a sublevação se tornou conhecida, começou quando seus mentores partiram do Rio de Janeiro em dois aviões Douglas C-47 (Haroldo Veloso, passageiro de um, assumiu o seu comando durante o vôo, enquanto o outro era pilotado por Burnier) e rumaram para Aragarças, em Goiás. Em Belo Horizonte, Minas Gerais, um Beechcraft particular seqüestrado pelo major-aviador Washington Mascarenhas decolou com o mesmo destino, e uma vez lá, as três aeronaves aguardaram na pista a chegada. do major-aviador Eber Teixeira Pinto, que se apoderara de um Constellarion da Panair do Brasil (na ilustração, um avião semelhante ao usado no sequestro) em pleno vôo e o conduzia para o destino combinado. Essa ação, por sinal, ficou registrada na história como o primeiro seqüestro de uma aeronave comercial no país.
Sobre esse episódio, os relatos publicados em jornais da época esclarecem que o Constellation PP-PCR, da Panair do Brasil, decolara do aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, rumo a Belém do Pará, levando à bordo empresários e políticos convidados para a inauguração da estrada Belém-Brasília, além de jornalistas encarregados da cobertura desse evento. Entre os passageiros estava o major-aviador Elber Teixeira Pinto, que em determinado momento da viagem, e de arma em punho, obrigou o comandante da aeronave comercial a desviar-se da rota e dirigir-se para Aragarças, na divisa com Barra do Garças, no Vale do Araguaia, onde o pouso foi feito na manhã seguinte, assim que o dia clareou.
Nesse espaço de tempo, a falta de comunicação por parte da tripulação seqüestrada havia despertado a atenção da Panair do Brasil e também dos órgãos controladores do tráfego aéreo, que diante desse silêncio anormal solicitaram do Ministério da Aeronáutica o acionamento do SAR - Serviço de Busca e Salvamento.
Foi então que aconteceu o imprevisto. Entre os passageiros do Constelattion encontrava-se o jornalista Ítalo de Saldanha da Gama, que trabalhava no Comitê de Imprensa do Senado Federal. Foi ele quem se valeu de um momento de desatenção dos militares para comunicar-se com o periódico em que trabalhava através de um aparelho de rádio-amador que encontrou em residência nas proximidades do aeroporto de Aragarças, relatando por ele o que havia acontecido. Essa informação foi repassada às autoridades federais, e estas então ordenaram a execução das ações que precisavam ser tomadas para dar fim à rebeldia do pequeno grupo de oficiais-aviadores.
Os líderes do movimento de insubordinação logo tomaram conhecimento de que estavam sozinhos, pois as adesões com que contavam não haviam e nem seriam confirmadas. Além do mais, o apoio político que consideravam como certo, principalmente de Carlos Lacerda (que no ano seguinte seria primeiro governador eleito do recém-criado Estado da Guanabara), também não lhes foi dado (o político preferiu denunciá-los ao ministro da Guerra). Assim, vendo-se diante da iminência de serem atacados e presos pelas forças federais, os rebeldes optaram pela fuga, na verdade a única alternativa que lhes restava: embarcaram, então, nos aviões que haviam seqüestrado e procuraram asilo no Paraguai, Bolívia e Argentina, só retornando ao país no governo Jânio Quadros.
A rebelião planejada por eles fora sufocada em apenas 36 horas.





