Período imperial - 1867 - RETIRADA DA LAGUNA, A
A Retirada da Laguna, ocorrida em 1867 durante a Guerra do Paraguai, constituiu a mais famosa e trágica retirada já efetuada por tropas brasileiras. A história desse drama militar começou em 10 de abril de 1865, quando partiu de São Paulo uma coluna de seiscentos homens, sob o comando do coronel Manuel Pedro Drago, com o objetivo de enfrentar os paraguaios que haviam invadido o Mato Grosso. Em Uberaba, Minas Gerais, eles se reuniram a contingentes oriundos de outras cidades do mesmo estado, perfazendo um total de 3.000 soldados, uma força considerada insuficiente para atacar os paraguaios e causar-lhes danos maiores, e por isso Drago preferiu seguir para Cuiabá, na esperança de lá conseguir aumentar o seu contingente (na ilustração, Cemitério dos Heróis em Jardim, Mato Grosso do sul).
Oito meses depois, em 10 de dezembro de 1865, a coluna chegava a Coxim, na região sul do estado mato-grossense, onde se deteve por causa das enchentes e das febres que dizimavam os soldados. Dali seguiu para Miranda, ainda mais ao sul, mas ali morreram novecentos homens e o próprio comandante Drago, vitimados pela epidemia. Em 1º de janeiro de 1867 o coronel Carlos de Morais Camisão assumiu o comando da coluna, que seguiu para Nioaque, ainda em solo brasileiro, onde conseguiu a ajuda do guia José Francisco Lopes. Em 21 de abril de 1867 os brasileiros entravam em Bela Vista, no território paraguaio, e dias depois, em 1º de maio, alcançavam Laguna, distante cerca de vinte e poucos quilômetros. Mas tudo naquele lugar estava devastado. Como a falta de mantimentos tornava a fome iminente, e ainda por cima a munição escasseava de forma preocupante, o recurso derradeiro foi a retirada imediata, que se processou por entre escaramuças com tropas paraguaias e luta incessante contra a vegetação incendiada. Nessa triste e desoladora caminhada de regresso à pátria os soldados da coluna se viram obrigados a abandonar cerca de 122 companheiros doentes e feridos, que foram deixados numa clareira da mata, entregues à própria sorte. Até que em 11 de junho de 1867 os sobreviventes da coluna chegavam à localidade ribeirinha de Porto Canuto, última estação da trágica jornada. Dos dois mil que haviam penetrado no Paraguai, restavam apenas 700 homens.
Em seu livro A Retirada da Laguna - episódio da Guerra do Paraguai, o autor, Alfredo D'Escragnolle Taunay, Visconde de Taunay, descreve o drama vivido pelos soldados brasileiros durante a dramática perseguição que lhes moveu o exército inimigo. Abaixo, uma dos capítulos desse emocionante relato:
“...Quando a nossa gente, extenuada e morrendo de sede após esta luta acrescida à fadiga da marcha, correu à fonte vizinha do acampamento, ali já achou os paraguaios emboscados. Nada menos de duas companhias foram precisas para os desalojar. Aos últimos clarões do dia vimos este destacamento que se formara a certa distancia, juntar-se ao grosso dos esquadrões inimigos, que em boa ordem desfilavam, bandeiras desfraldadas, ao toque dos clarins, evidentemente para nos provocar e, apressando-se, ao que nos pareceu, em ocupar o local exatamente onde a princípio quisera Lopes acampar. Algumas balas que lhes despejamos vieram distender a animosidade dos nossos, exasperados pela sua cruel e covarde tentativa de queimar-nos vivos. Foi com verdadeira satisfação que verificamos quanto os nossos projeteis aceleravam a marcha destes adversários odiosos. Todavia a provação por que acabáramos de passar, naquele campo convertido em fornalha, era das que sobre o homem exercem irresistível ação física. A enorme elevação de temperatura, subitamente ocorrida, bastava para explicar o acabrunhamento em que caímos e o desfalecimento moral que se lhe seguiu. Não sabíamos, aliás, como seria possível avançar. Estavam os animais de tiro de nossos canhões esfalfados, sobretudo os bois mais ainda que as mulas, e incapazes de dar um passo. No entanto, era mais que urgente não perdermos um instante em recomeçar a marcha. Entre uma infinidade de razões, não devíamos deixar tempo ao inimigo que agora nos precedia, para fortificar algum ponto à nossa frente, impedindo- nos a passagem. Sabe-se quanto os paraguaios são aptos em movimento de terra, cavar fossos e levantar redutos. Vem-lhes a tradição dos seus mestres, os padres da Companhia de Jesus, que cultivavam todas as artes, sobretudo a arquitetura e a engenharia militar”.
Este imenso perigo de nossa situação inspirou ao comandante a idéia imediata de ainda diminuir a bagagem para reforçar as juntas e parelhas das peças e carros manchegos. Entendeu-se com os oficiais a quem competia tal providência, e estes nada lhe objetaram. Ficando reduzidos ao que sobre o corpo traziam, queimaram algumas últimas e míseras superfluidades, uma outra mala e barraca. Desde o combate de 8 nada mais tinham os soldados que carregar ou que perder; haviam atirado fora até os capotes que os embaraçavam, quando perseguiam os inimigos. As bestas, libertas da carga foram destinadas ao transporte do cartuchame. Para maior desgraça nossa tivemos, essa noite, uma chuva torrencial, verdadeiro dilúvio, que nos pôs atônitos, embora já houvéssemos experimentado outra e terrível, e, desde pela manhã, lhe víssemos os prenúncios, o acúmulo de imensas nuvens bronzeadas, constantemente sulcadas pelos relâmpagos, por entre contínuo trovejar. Durante toda a noite mantiveram-se de pé os nossos soldados encostados às espingardas que haviam fincado no solo pela baioneta. Esta vigília assinala-se em nossas reminiscências não menos penosamente do que a de 5, entre tantos outros pousos desastrosos. É preciso haver alguém assistido com a alma tomada de tristeza a estas tremendas crises da natureza, para poder avaliar exatamente a extensão de sua influência sobre o organismo humano. Recursos não os tínhamos. Não havia em todo o acampamento uma só gota de álcool capaz de entreter o calor interno que nos fugia. O fogo, última esperança, não podíamos acendê-lo sob tamanho temporal. Foi neste estado de universal desfalecimento que ainda nos veio acabrunhar a confirmação de quanto declarara o ferido paraguaio: Curupaiti e Humaitá resistiam sempre e a guerra estava longe do seu término. Soubemo-lo por um número de Semanário, hebdomadário de Assunção que acabava de ser encontrado sobre um inimigo morto numa escaramuça. Espalhou se o boato com a rapidez de propagação das más notícias, extinguindo as últimas centelhas da confiança e da coragem: foi-nos impossível marchar a 13”.





