Período republicano - 1897 - CANUDOS - COLUNA MIMOSA, A
Mimosa foi o nome dado pelos combatentes da campanha de Canudos a uma coluna legalista enviada do Rio de Janeiro sob o comando do General Miguel Maria Girard, para reforçar as tropas do General Arthur Oscar de Andrade Guimarães na luta contra os jagunços de Antônio Conselheiro. Essa força militar partiu da capital da República com 1.042 praças e 68 oficiais perfeitamente armados e munidos com 850.000 cartuchos Mauser, mas foi deixando pelo caminho, contaminados pela varíola, muitos de seus componentes, até se apresentar no Alto da Favela, um morro dentro do reduto inimigo, no sertão baiano, com 800 homens amedrontados, comandados por um major, e apenas 11 dos 110 bois que comboiava, recebendo, então, dos seus companheiros de armas, o apelido pouco lisonjeiro que rapidamente se tornou conhecido no país, para desconforto das autoridades militares (na ilustração, Canudos em 1897, em foto de Flávio Barros).
Em meados de 1897, Júlio de Mesquita, diretor do jornal O Estado de S. Paulo, propôs a Euclides da Cunha que este fosse a Canudos como correspondente de sua publicação, para colher material informativo sobre a luta que lá se travava. Aceitando o convite, Euclides embarcou para Salvador no dia 04 de agosto do mesmo ano, em um navio que também levava tropas, e da capital baiana seguiu para a região em conflito, aonde chegou em 16 de setembro, iniciando, então, a coleta de informações sobre o confronto que já durava quase um ano. Dessas anotações surgiu meses depois o livro Os Sertões, publicado em 1902, considerado por muitos críticos literários como uma epopéia da vida sertaneja em sua luta diária contra a paisagem e a incompreensão das elites governamentais.
Sobre a formação do efetivo militar batizado posteriormente com a alcunha de Coluna Mimosa, o escritor relatou que após uma série de desastrosas escaramuças nas quais as baixas legalistas foram preocupantes, o governo atendeu aos reclamos do General Artur Oscar organizando uma brigada auxiliar comandada pelo General Miguel Maria Girard, sendo esta constituída por soldados pertencentes a três corpos saídos da guarnição da capital federal: o 22º batalhão, do Coronel Bento Tomás Gonçalves, o 24º, do Tenente Rafael Tobias, e o 38º, do Coronel Filomeno José da Cunha. Tais reforços chegaram a Queimados, ao sul de Canudos, em 31 de julho, e de lá partiu em 03 de agosto rumo a Monte Santo, tendo à frente o Major Lídio Porto, mas deixando para trás, doentes, vários oficiais, entre os quais o próprio general comandante. Cinco dias depois, a 08 de agosto, a coluna deixou Monte Santo com destino a Canudos. Essa caminhada de duas semanas foi descrita por Euclides da Cunha da seguinte forma:
“Decompunha-se (a tropa) pelas estradas. Partiam-lhe do seio pedidos de reforma mais alarmantes do que aniquilamentos de brigadas. Salteara-a um beribéri excepcional exigindo não já a perícia de provectos médicos, senão o exame de psicólogos argutos. Porque afinal o medo teve ali os seus grandes heróis, revelando a coragem estupenda de dizer a um país inteiro que eram cobardes. Ao endireitar de Queimadas para o sertão aquela força encontrara as primeiras turmas de feridos, e fora sulcada pelo assombro da guerra. Passaram-lhe pelo meio do acampamento, em Contendas, o general Savaget, o coronel Néri, o major Cunha Matos, o capitão Chachá Pereira e outros oficiais. Recebeu-os ainda entusiasticamente: oficiais e praças enfileirados às margens do caminho, saudando-os. Mas depois amorteceu-se-lhe o fervor. Apenas com três dias de viagem, começou de sofrer privações, vendo diminuídos os víveres que levava e repartia com as sucessivas turmas de feridos encontrados, chegando exausta e esmorecida a Monte Santo”.
“Tomou para Canudos, onde era ansiosamente esperada a 10 de agosto, despida inteiramente do esplêndido aparato hierárquico com que nascera. Dirigia-a o fiscal do 24°, Henrique de Magalhães, estando os corpos comandados pelo major Lídio Porto e capitães Afonso de Oliveira e Tito Escobar. A marcha foi difícil e morosa. Desde Queimadas lutava-se com dificuldades sérias de transporte. Os cargueiros, animais imprestáveis, velhos e cansados, muares refugados das carroças da Bahia e tropeiros improvisados - rengueavam, tropeçando pelos caminhos, imobilizando os batalhões, e remorando a avançada. Chegou desse modo a Aracati, onde lhe foi entregue um comboio que devia guarnecer até Canudos. Neste comenos dizimava-a a varíola. Destacavam-se das suas fileiras, diariamente, dois ou três enfermos, volvendo para o hospital, em Monte Santo. Outros, estropiados, naquela repentina transição das ruas calçadas da capital federal para aquelas ásperas veredas, distanciavam-se, perdidos à retaguarda, confundindo-se com os feridos, que vinham em direção oposta” (na ilustração, Canudos ou Belo Monte em gravura da época).
“De sorte que ao passar em Juetê, no dia 14 de agosto, lhe foi providencial o encontro com o 15° Batalhão de Infantaria, já endurado na luta, e que viera de Canudos. Porque no dia seguinte, depois de decampar das Baixas, onde parara na véspera para aguardar a vinda de grande número de praças retardatárias, foi no rancho do Vigário violentamente atacada. Os jagunços aferraram-na de flanco, pela direita, do alto de um cerro dominante, e quase de frente, de uma trincheira marginal. Abrangeram-na toda uma descarga única. Tombaram mortos na guarda da frente um alferes do 24° e, na extrema retaguarda, outro, do 38°. Baquearam algumas praças nas fileiras intermédias. Alguns pelotões se embaralharam estonteadamente surpresos, bisonhos ainda ante os guerrilheiros ferozes. A maioria disparou desesperadamente as armas”.
“Estrugiram cornetas, vozes trêmulas, altas, entrecortadas, desencontradas, de comando. Dispararam, espavoridos, os cargueiros. A boiada estourou, mergulhando na caatinga... O 15° Batalhão, tomando a vanguarda, guiou os lutadores vacilantes. Não se repeliu o inimigo. A retaguarda ao passar pelo mesmo ponto foi, por sua vez, alvejada. Depois deste revés, porque o foi, bastando dizer-se que de 102 bois que comboiava restaram apenas onze, foi a brigada novamente investida no Angico. Deu uma carga de baionetas platônica em que não perdeu um soldado, entrando afinal em Canudos, onde os enrijados campeadores, que ali estavam sob a disciplina tirânica dos tiroteios diuturnos, a acolheram com a denominação de ‘Mimosa’, nome, que, entretanto, mais tarde, os bravos oficiais fizeram que se apagasse, a exemplo do primeiro”.
Depoimento importante sobre esse triste episódio da vida brasileira, é o do cordelista paraibano João Melchiades (1869-1993), que lutou como sargento na campanha de Canudos. Em seu folheto A Guerra dos Canudos, ele diz a certa altura:
"Escapa, escapa, soldado / Quem quiser ficar que fique / Quem quiser morrer que morra. / Ha de nascer duas vezes / Quem sair desta gangorra".





