Período republicano - 1907 - ESTRADA DE FERRO MADEIRA-MAMORÉ
A construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, aspiração de quantos no final do século 19 e princípio do século 20 viviam na região hoje pertencente ao estado de Rondônia, visava ligar as bacias dos rios Guaporé, Mamoré e Beni, à navegação livre dos rios Madeira e Amazonas, até alcançar o Oceano Atlântico, contornando o problema representado pelas dezenove cachoeiras existentes entre Guajará-Mirim e Santo Antônio, e criando condições para que as riquezas minerais e florestais existentes naquela região pudessem ser exploradas.
A necessidade de implantação da ferrovia foi defendida inicialmente por um representante graduado da marinha de guerra americana, que em meados do século 19 preconizava a abertura do Amazonas e seus tributários ao comércio de todas as nações, e sua viabilidade técnica atestada posteriormente por outro oficial da mesma força. Tais manifestações aceleraram as primeiras tentativas para concretização da idéia, realizadas pela companhia americana P. T. & Collins, empreiteira da obra do início de 1878 a agosto de 1879, quando seus técnicos e operários abandonaram os trabalhos que faziam e retiraram-se da área, deixando para trás seis quilômetros de linha férrea construída e uma locomotiva Baldwin (ilustração acima), máquina que após ter sido abandonada serviu a alguns moradores do lugar, durante anos, como galinheiro, forno de padaria e depósito de água para tomar banho.
Em 1891, o coronel norte-americano George Church organizou outro empreendimento com essa mesma finalidade, tendo criado para tanto a Madeira-Mamoré Rail Co., que assinou contrato com a empresa inglesa Public Works e obteve condições para construir a ferrovia a partir de um empréstimo de dois milhões de libras esterlinas, feito pelo governo boliviano junto a bancos de Londres. Mas pouco tempo depois a Public Works retirou-se do negócio sob a alegação de insalubridade no local da obra, e processou o coronel Church. Outras empreiteiras foram contratadas para dar continuidade ao trabalho, mas desistiram ou faliram no meio do caminho.
Anos mais tarde, a assinatura do Tratado de Petrópolis pactuado em 1903 com a Bolívia, permitindo a anexação pelo Brasil da área que hoje forma o estado do Acre, tornava obrigatório o reinício das obras, o que foi efetivado em 1907 e concluído em 1912, quando o percurso de Guajará-Mirim a Porto Velho, com 365 quilômetros, aproximadamente, finalmente foi inaugurado. Essa tarefa foi executada por Percifal Farquhar, fundador da Madeira-Mamoré Railway, mediante concessões que lhe foram feitas pelo governo brasileiro, tendo sido encarregada da parte física da construção a empresa May, Jeckyll & Randolph.
Palco de um espetáculo audacioso e ao mesmo tempo trágico, os trilhos da Madeira-Mamoré repousaram sobre as vidas de milhares de operários que nela trabalharam, vitimados pelos ataques de índios e animais ferozes, pelas doenças como a malária e por acidentes na construção. Desativada em 10 de julho de 1972, a estrada de ferro que recebeu a denominação de Ferrovia do Diabo ainda mantém em atividade apenas um trecho de sete quilômetros, entre Porto Velho e Cachoeira de Santo Antônio, marco da fundação da cidade de Porto Velho. A velha locomotiva, denominada Coronel Church em homenagem ao militar norte-americano que idealizou as primeiras tentativas de construção, foi removida em 3 de maio de 1981 para o Museu Madeira-Mamoré e incorporada ao acervo histórico do estado de Rondônia.
No site da Associação dos Amigos da Madeira-Mamoré e da Madeira - Mamoré Railway Society (www.efmm.net), entidades sem fins lucrativos que lutam pela preservação e revitalização do patrimônio restante da legendária ferrovia de 366 Km, que entre 1912 e 1972 ligou as cidades de Porto Velho e Guajará-Mirim, na selva amazônica do hoje estado de Rondônia, são encontradas informações importantes sobre a sua história. Entre elas, o seguinte trecho:
“A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré é uma das últimas linhas de trem a vapor no Brasil, e a única na Amazônia. A história desta ferrovia faz parte do Patrimônio Histórico Nacional brasileiro e é também a história e patrimônio dos construtores americanos, ingleses, chineses, espanhóis, dinamarqueses, caribenhos, italianos e alemães, entre outras nacionalidades. Aproximadamente 6.000 destes trabalhadores morreram de forma trágica nas frentes de trabalhos da Madeira-Mamoré: naufrágios, mortes por flechadas de índios, afogamentos, picadas de animais silvestres, e doenças como malaria, febre amarela, febre tifóide, tuberculose, beribéri, e outras que ocasionaram estas perdas”.
“A Madeira-Mamoré representa também a memória viva para esses trabalhadores e seus descendentes que ainda residem principalmente nas cidades de Porto Velho e Guajará-Mirim no Estado de Rondônia. Nosso objetivo com este site é promover via internet a democratização das informações sobre a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, expondo para o Brasil e para mundo a Ferrovia que teve o seu passado de dificuldades e glórias, o seu presente de abandono e o seu futuro de incerteza. Para isto, preparamos este site com conteúdo bastante diversificado e esperamos que este possa se tornar referência como uma das maiores fontes educadoras sobre a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré na Internet”.





