Período republicano - 1902 - TOMADA DE XAPURI, A

Em fins do século 19 a região acreana era um canto esquecido da Amazônia, tão esquecido que estava para ser abandonado. Em 1867, Dom Pedro II assinara o Tratado de Ayacucho, cedendo à Bolívia 150 mil km² de floresta onde tribos indígenas e sertanejos viviam da exploração de castanha, madeira e látex. Na virada do século a indústria automobilística americana acelerou a demanda por borracha, tornando a exploração de látex um negócio atrativo, o que fez o governo boliviano lembrar-se do tratado e abrir em 1899 um posto alfandegário em Puerto Alonso (hoje Rio Branco, capital do estado), passando a cobrar taxas de extração e transporte dos seringueiros, provocando, com isso, atritos freqüentes entre as autoridades e os moradores da floresta.

 

Ao saber que uma empresa americana negociava com o governo boliviano o arrendamento da região, o espanhol Luiz Galvez Rodrigues de Arias, redator do jornal Província do Pará e também funcionário do consulado boliviano em Belém, passou a difundir junto aos proprietários de seringais a idéia de rebelião, conseguindo contagiar praticamente toda a população local. Apoiados por Ramalho Júnior, governador do Amazonas, que lhes forneceu armas, munições e um barco equipado com canhão, os seringueiros capturaram Puerto Alonso em 14 de julho de 1899, mudaram seu nome para Porto Acre e proclamaram a República do Acre.

 

Assumindo a presidência da nova nação, Luiz Galvez criou sua bandeira, cunhou moeda própria, escolheu ministros, fez do seu bando um exército com coronéis e generais, cuidou de rascunhar uma constituição e iniciou negociações diplomáticas para o reconhecimento do Acre como uma república independente. Mas ela só durou seis meses, tempo que o exército brasileiro levou para chegar lá, capturar o mentor do movimento e devolver o controle da cidade ao governo boliviano, que alertado cuidou de enviar reforços militares ao local, ao mesmo tempo em que tornou público o projeto de entregar o controle da região à Anglo-Bolivian Syndicate, de Nova York. Menos de um ano depois, Orlando Corrêa Lopes liderou um grupo de intelectuais e estudantes amazonenses que se propunham a emancipar o Acre na chamada expedição dos poetas. Eles partiram de Manaus a bordo do vapor Solimões, mas acabaram presos pelo governo brasileiro, que insistia em fazer valer o Tratado de Ayacucho.

 

Em 11 de julho de 1901, a Bolívia e a empresa americana finalmente assinaram o contrato de arrendamento das terras acreanas pelo período de vinte anos, confirmando as notícias veiculadas por Galvez anteriormente. Diante disso os seringalistas brasileiros articularam nova revolta, para o comando da qual foi convidado José Plácido de Castro (ilustração acima), ex-militar gaúcho que havia participado da Revolução Federalista do Rio Grande do Sul. Como novo comandante dos revolucionários do Acre, José Plácido começou a preparar um exercito de seringueiros e seringalistas para lutar contra os bolivianos, o que se prolongou até o amanhecer de 06 de agosto de 1902.

 

As anotações de Plácido de Castro revelam que Xapuri, lugarejo escondido na selva, nesse dia estava praticamente deserto, pois a população local festejara durante toda a noite anterior a independência de seu país. Valendo-se disso, 33 brasileiros invadiram a vila por três flancos diferentes, e quando o líder arrombou a casa que servia de delegacia, cadeia e prefeitura, e de lá retirou armas e munição, o administrador do local achou que aquilo tinha alguma relação com os festejos na cidade, mas Plácido de Castro, ao lhe dar voz de prisão, disse: “Isso não é festa. É a revolução”.

 

As tropas bolivianas demoraram mais de um mês para reagir. Em 18 de setembro, com 70 homens e poucas armas, os revolucionários enfrentaram 200 soldados bolivianos, mas levaram a pior. “Vinte e dois mortos deixamos no campo, dez feridos recolhemos e uns seis fugiram. Essa foi nossa estréia”, escreveu. Essa derrota apavorou os seringueiros e provocou muitas deserções, mas Castro não desanimou: mandou circular entre os seringais um comunicado minimizando os efeitos do desastroso combate, e prosseguiu com a campanha. Em 5 de outubro ele atacou as forças inimigas próximo à vila de Panorama. “Empenhou-se o combate, sendo em pouco tempo tomadas duas trincheiras inimigas”, contou nas anotações. A batalha durou 11 dias, até que o comandante das forças bolivianas se viu forçado a entregar-se junto com 150 soldados. “Os outros, em número de 30, haviam morrido”. Em 18 de novembro as tropas de Castro dizimaram mais uma coluna boliviana, na vila de Iquiry. O combate durou cinco horas e terminou com um vasto incêndio nas casas dos inimigos. Às 9 horas da manhã do dia 15 de janeiro de 1903 os rebeldes chegaram a Porto Acre. Às 2 da tarde eles já ocupavam posições a 120 metros das trincheiras inimigas.

 

“As nossas perdas nesse dia subiram a 50, entre mortos e feridos. A sede nos devorava”, escreveu Plácido de Castro. Apesar das dificuldades, o que se viu a seguir foi digno de cinema, com os revoltosos adentrando a área inimiga, por rio, a bordo do navio Independência, sob uma saraivada de balas. Depois de dez dias de cerco, Porto Acre rendeu-se. “No dia 26, por ocasião de uma revista geral passada às nossas tropas, no planalto de Porto Acre, um líder seringueiro, em nome de todos os oficiais combatentes da revolução e dos civis presentes, aclamou-me governador do Acre e comandante-em-chefe das forças”, relatou Castro.

 

Como a população boliviana exigia uma resposta de seu governo, o presidente Manuel Pando assumiu pessoalmente o comando do Exército e marchou para o Acre. A um passo da guerra, o Brasil agiu com diplomacia e mandou o ministro das Relações Exteriores, o Barão de Rio Branco, negociar com os vizinhos ofendidos. A primeira medida tomada por ele foi enviar ao local uma expedição militar que obrigou Castro a abandonar o poder. Nas suas notas, o líder guerrilheiro falou com mágoa desse momento: “Publiquei uma ordem dissolvendo o Exército acreano, visto o general brasileiro ter invadido o Acre meridional”. Contida a revolta, a diplomacia brasileira transferiu o conflito da selva para uma mesa de negociações. O local escolhido para selar a paz entre os dois países foi Petrópolis, no Rio de Janeiro. Ficou combinado que o Brasil ficaria com o Acre, rico em florestas e reservas de seringais, pelo qual pagaria à Bolívia 2 milhões de libras esterlinas.

 

O Brasil comprometeu-se, ainda, a entregar áreas da fronteira do Mato Grosso e a construir uma estrada de ferro que cortasse a selva e oferecesse à Bolívia uma saída para o oceano Atlântico. As negociações, iniciadas em julho de 1903, encerraram-se quatros meses depois, com a assinatura solene do Tratado de Petrópolis (na ilustração acima, negociadores do Tratado na casa do Barão de Rio Branco).

 

 

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